por Mariana González
07 de dezembro de 2017

“Se você tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil.” A frase, que é um dos ensinamentos do professor Browne (Daveed Diggs), resume bem a mensagem central de Extraordinário — virou até hashtag como parte das ações de divulgação do longa. Afinal, o filme é simpático e certamente tem o coração no lugar certo, ainda que também adote uma visão um tanto fantasiosa, água com açúcar e excessivamente otimista. Mas, no centro de tudo isso, temos o adorável personagem vivido pelo mais adorável ainda e além disso talentoso Jacob Tremblay, então, é difícil não se encantar.

Desde seu nascimento, frequentes visitas ao hospital, tratamentos e cirurgias — algumas delas, plásticas — fizeram parte da rotina de August Pullman (Tremblay), ou Auggie, como ele prefere ser chamado. Por isso, ele foi educado em casa pela mãe, Isabel (Julia Roberts). Até que, às vésperas de começar a quinta série, ela e o pai do garoto, Nate (Owen Wilson), decidem que é hora de Auggie frequentar uma escola regular. Lá, Auggie vai deparar-se com uma dose mais alta e dolorosa dos olhares curiosos e até mesmo apavorados com que ele já está acostumado, enquanto tenta conquistar amizades sinceras. Enquanto isso, a irmão mais velha dele, Olivia, mais conhecida como Via (Izabela Vidovic) lida com o isolamento de sua sua melhor amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) quando as duas começam o ensino médio, e Isabel decide retomar a tese que abandonou após o nascimento de Auggie.

Assim, o filme escrito e dirigido por Stephen Chbosky a partir do livro homônimo de R.J. Palacio (o roteiro também é assinado por Steve Conrad e Jack Thorne) conta a história de Auggie, de sua família e das outras pessoas afetadas por sua presença e por sua condição. Além de Miranda, melhor amiga de sua irmã, isso inclui também o colega que torna-se seu primeiro amigo, Jack Will (Noah Jupe) e o bully Julian (Bryce Gheisar). Assim mesmo, bem separado.

A decisão de dividir Extraordinário em diferentes “capítulos”, cada um focado em um personagem diferente, nem sempre mostra-se acertada, já que Auggie é, definitivamente, o mais interessante do grupo — mas, pelo menos, como protagonista, ele mostra-se presente na maior parte do tempo. A história da irmã do garoto, Via, também funciona relativamente bem ao mostrar os efeitos da falta de atenção de seus pais, que passam tanto tempo preocupam-se com Auggie (“ele é o sol ao redor do qual nossa família orbita”). Por outro lado, a subtrama envolvendo Miranda acaba tornando-se forçada demais — inicialmente usando-a para discutir a forma com que as pessoas crescem e se afastam naturalmente, o longa conclui o segmento da jovem com revelações abordadas rasas a ponto de não trazerem peso algum ao restante da obra.

O único resultado da história de Miranda, assim, é o de ajudar Via a ganhar seu final feliz. Não, isso não é exatamente um spoiler — desde os primeiros minutos de projeção, Chbosky deixa claro que Extraordinário é um daqueles filmes em que, apesar das dificuldades sofridas pelos personagens ao longo da narrativa, as lições aprendidas por todos serão o bastante para que tudo termine bem. Com isso, Auggie chega perigosamente perto de ser tratado como uma “lição de moral ambulante”, mas o carisma e a inteligência por trás dos olhos de Jacob Tremblay fazem com que o garoto estabeleça-se como uma figura complexa e sempre interessante de acompanhar.

Extraordinário Crítica

O longa entende que a condição física de Auggie o forçou a aprender coisas com as quais as crianças “comuns” ainda não precisam lidar, como o quanto nossa sociedade impõe valor nas pessoas com base em suas aparências — algo que não vai acabar quando ele terminar a escola. “Eu tento fingir que não importa que eu pareça diferente, mas importa sim”, ele lamenta. Ao longo do filme, as fantasias de Auggie sobre ser um astronauta retornando do espaço ou amigo de Chewbacca — alguém que, se aparecesse na escola, atrairia ainda mais olhares do que ele —, assim, servem como pequenos momentos de humor, mas também cheios de uma certa melancolia.

Enquanto isso, Julia Roberts faz de Isabel uma mulher carinhosa, forte e multifacetada, estabelecendo-se, ao lado de Auggie, como o coração do filme. Ao seu lado, Owen Wilson praticamente desaparece — algo que acontece também graças ao fato de que ele está, como tão frequentemente faz, apenas interpretando um personagem de Owen Wilson. Entretanto, Chbosky usa isso a seu favor, aproveitando-se do carisma e do jeito despojado do ator sem colocá-lo em cenas excessivamente dramáticas.

Depois de levar seu livro As Vantagens de Ser Invisível para os cinemas com uma adaptação memorável, Steven Chbosky mostrou-se um diretor e um roteirista competente. Depois de escrever a versão live-action de A Bela e a Fera, Extraordionário é seu retorno a direção e, mais uma vez, ele mostra-se um cineasta que enxerga e retrata seus personagens com carinho e empatia, o que rende filmes repletos de sentimento — isso, aqui, tem um resultado final consideravelmente açucarado, mas ainda envolvente e tocante. Há uma tendência a encontrar soluções fáceis demais para as complexas situações enfrentadas por Auggie e pelos demais personagens, como a já citada conclusão à subtrama de Miranda ou, ainda, o suposto arrependimento de Julian por suas ações. Por outro lado, Chbosky acerta ao demonstrar os perigos representados pelo bullying por meio dos pais do garoto, já que o filme claramente rejeita a visão deles de que crianças vítimas desse problema “não estão preparadas para enfrentar o mundo real”.

Mas a verdade é que Auggie faz jus ao título que seu filme recebe, já que, apesar de suas ocasionais forçadas de barra, excesso de otimismo e subtramas rasas, Extraordinário também abraça a empatia, a bondade e a coragem necessária para que seu protagonista simplesmente viva sua vida. Afinal, a mensagem central da obra — “seja gentil” — pode ser óbvia, mas está longe de ser irrelevante.


“Wonder” (EUA/HKG, 2017), escrito por Steven Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne a partir do livro de R.J Palacio, dirigido por Steven Chbosky, com Jacob Tremblay, Julia Roberts, Izabela Vidovic, Owen Wilson, Daveed Diggs, Noah Jupe, Bryce Gheisar, Danielle Rose Russell, Elle McKinnon, Ty Consiglio e Millie Davis.


Trailer – Extraordinário

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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