Num futuro próximo, a humanidade pensa ter encontrado uma maneira de parar o aquecimento global. Porém, a suposta solução leva o planeta a uma nova era do gelo, e os únicos sobreviventes hoje vivem em um trem que dá voltas pelo mundo gelado. Após 17 anos rodando pela Terra, o trem se transformou num sociedade comprimida, com classes sociais muito bem definidas e um sistema de “equilíbrio” que mimetiza um governo autoritário.

Isso até que um dia, com toda a revolta acumulada dentro de si, os habitantes do último vagão – que vivem numa espécie de favela minimizada – decidem acabar com as injustiças e tomar a locomotiva. Liderados por Curtis (Chris Evans), um grupo de rebeldes parte em direção à frente do trem, com a ajuda de Namgoong Minsoo (Kang-ho Song), um especialista de segurança que ajudou a projetar o veículo e sabe como abrir todas as portas. A cada novo vagão, novas camadas da sociedade interna do trem se revelam, bem como novos mundos desconhecidos para os habitantes do vagão traseiro – e novas batalhas contra os defensores do sistema autoritário do trem.

Expresso do amanhã é baseado na HQ Le Transperceneige e traz mais uma vez o que virou quase um gênero cinematográfico: o filme de futuro pós-apocalíptico. Nesta categoria, é, com certeza um dos melhores já feitos. Com um ritmo que se mantém durante todo o filme e envolve o espectador na história, Expresso do Amanhã se desenvolve bem e não há muitos elementos narrativos em excesso, ou seja, praticamente tudo que acontece contribui para o andar da trama. Ponto para o diretor Joon-ho Bong, que não demonstra dificuldade em dirigir seu primeiro filme em inglês.

Os efeitos visuais são de encher os olhos, e toda a construção de cada ambiente do trem serve para salientar o abismo social entre o vagão traseiro e o resto do veículo. Longe do último vagão, há um jardim interno, um aquário, uma escola, todos muito coloridos e beirando a perfeição: um belo contraste visual com as janelas, que mostram o exterior congelado e sem vida.

Expresso do Amanhã Crítica

Outro contraste interessante ocorre nas lutas que os rebeldes travam com os soldados do governo. Cheio de violência explícita, Expresso do Amanhã evidencia a luta de classes de maneira física e visual: o “governo” tenta a todo custo silenciar a revolta, usando os meios mais eficientes para obter seu fim. Há uma cena específica, em que uma luta travada com machados, estacas e outras armas do tipo, se dá no escuro, apenas com flashes de luz entrando pelas janelas e provendo vislumbres da batalha ou do sangue vermelho voando contra as janelas brancas de gelo. Joon-ho Bong não tem qualquer problema em jogar as coisas “na nossa cara”.

Porém, um dos grandes defeitos de Expresso do Amanhã está em roteiro – e isso inclui tanto os personagens quanto os diálogos e a construção da história. Chris Evans faz um protagonista fraco, que não consegue transmitir as camadas de seu personagem. Nas mãos de outro, seria complexo, porém, mesmo contando sua história palavra por palavra – em um momento completamente aleatório e alheio ao contexto da cena –, ele não passa da superficialidade. Edgar (Jamie Bell) um personagem que funciona como um sidekick do protagonista no início do filme, não tem qualquer utilidade. Octavia Spencer, como Tanya, é desperdiçada ao extremo, também em um papel que não é útil para nada no filme. Tilda Swinton, que interpreta uma espécie de secretária do líder do trem, tem uma ótima performance, caricaturada e assustadoramente engraçada, mas que não combina em nada com o tom do filme, que apesar de trazer elementos muito fantasiosos, se baseia em um retrato bastante verossímil com o mundo real. A personagem de Swinton parece ter vindo diretamente de Jogos Vorazes, o que não faz sentido no contexto de Expresso do Amanhã. E então há os personagens que fazem literalmente nada além de lutar. Luke Pasqualino, o Grey, não tem sequer uma fala no filme todo – não entendi porque escolheram um bom ator para esse papel –, e há um personagem (Vlad Ivanov) estilo Exterminador do Futuro que aparentemente morre três vezes durante o filme, só que não. Ah, ele também não tem falas.

Outro problema de Expresso do Amanhã é o final, que, basicamente, explica tudo o que o filme mostra durante seu curso em palavras, para deixar muito, muito claro o que ele quer dizer. É uma incursão completamente desnecessária e que implica que o espectador não tem capacidade de entender todo o conceito da história.

Apesar de seus problemas, Expresso do amanhã entrega uma boa narrativa, visualmente fascinante, que entretém e faz pensar.


“Snowopiercer” (Kor/Cz/EUA/Fra, 2013), escrito por Joon-ho Bong e Kelly Masterson, dirigido por Joon-ho Bong, com Chris Evans, Kang-ho Song, Ed Harris, John Hurt, Tilda Swinton, Jamie Bell, Octavia Spencer


Trailer – Expresso do Amanhã

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