Dezoito anos atrás (1995) estreava nos cinemas do Brasil o histórico Carlota Joaquina – Princesa do Brasil. E “histórico” não só por contar a história da corte de Portugal chegando ao Brasil Colônia, mas também por se tornar uma espécie de marco do que se ficou conhecido por “A Retomada”.

E essa tal de “Retomada”, no caso, é o período em que o cinema nacional renasceu das cinzas depois do fim da Embrafilme e de um período tremendamente fraco de produções de qualidade artística louvável do comecinho dos anos 90. Um período em que a Xuxa arrasava nas bilheterias, junto com os trapalhões e ainda da fama de ter acabado de sair da década de 80, marcada (erroneamente) pela “pornochanchada”.

A “Retomada” então começou com Carlota e (independente de quando, ou se, acabou…) esse ano chega à maioridade, e para celebrar isso, o blog Sétima das Artes, e o crítico Ulisses da Motta Costa, propuseram para uma série de parceiros de profissão selecionar os “10 maiores filmes da Retomada”. Quem participou da escolha tinha em comum o Curso de Teoria, Linguagem e Crítica do Pablo Villaça (por meio do grupo no Facebook).

A lista de 21 filmes (que, praticamente, acabou se tornando a de melhores filmes nacionais nas quase últimas duas décadas) pode ser encontrada no site, aqui vou publicar apenas minhas 10 escolhas, e que passam então não só pela qualidade técnica, mas também pela importância dentro do período.

Lista completa no blog Sétima das Artes.

Então aqui vai o Top 10 do CinemAqui dos filmes mais importantes da “Retomada”.

Abril Despedaçado (2001, dir. Walter Salles)Abril DespedaçadoAlém de ser o primeiro filme (sem contar o esquisitão O Primeiro Dia de 1998) depois do sensacional Central do Brasil, Abril Despedaçado provou ao mundo que Salles era, realmente, um dos diretores mais habilidosos do cinema mundial. Um cineasta inquieto que ia sempre em busca do significado de cada tomada e que, com isso, muito provavelmente, fez um dos mais belos filmes não só do Brasil, como do cinema mundial. O filme é adaptação de obra do albanês Ismail Kadare e transfere a trama de vingança da Albânia rural para os confins do sertão nordestino.

Cidade de Deus (2002, dir. Fernando Meirelles)Cidade de DeusPode ser que Cidade de Deus tenha sido o último filme da tal “Retomada”, já que foi um enorme sucesso de bilheteria e não só conquistou o país como o mundo: foram R$ 10.300.000,00 em bilheterias por aqui e, só nos Estados Unidos, US $ 7.564.459,00. Isso sem esquecer que perambula fácil entre no top 10 de qualquer site especializado (do tipo Rotten Tomatoe) e crítico pelo mundo, além, é claro, de ter sido ignorado na hora da escolha do representante ao Brasil no Oscar de 2003, mas ter, no ano seguinte, emplacado indicações em quatro categorias (César Charlone na de “Melhor Fotografia”, Meirelles entre os diretores, Daniel Rezende como “Melhor Montagem” e ainda Bráulio Monovani e seu “Roteiro Adaptado”). E tudo isso sendo merecedor de cada lembrança, prêmio e homenagem.

Baile Perfumado (1997, dir. Paulo Caldas e Lírio Ferreira)Baile PerfumadoTalvez ele tenha sido o primeiro filme a juntar alguns dos detalhes que, tanto são mais característicos ao cinema nacional, como ao imaginário popular. O primeiro é o sertão, que, mesmo em certos momentos ser tão achincalhado por ter se tornado lugar comum, é impossível de ser ignorado, já que é único e é um verdadeiro poço de histórias que, com certeza passam por esse momento histórico onde o maior “fora da lei” do Brasil, Lampião, cruza o caminho desse fotógrafo libanês. Além da história curiosa, divertida e emocionante, talvez pela primeira vez nesse novo período do cinema, o Brasil tinha um filme puramente brasileiro.

Ônibus 174 (2002, dir. Felipe Lacerda e José Padilha)Ônibus 174Se o famoso sequestro de um ônibus carioca que aconteceu em 2000 e foi transmito ao vivo pelas TVs foi chocante, buscar respostas para quem é e o que levou aquele homem para dentro daquele ônibus, e encontrar uma sociedade falida e uma força policial despreparada e violenta (afinal, o sequestro acabou sendo resultado direto da Chacina da Candelária) é muito mais chocante ainda. Os dois diretores então não só desvendam o crime, como encontrar um Brasil que ninguém nunca quis olhar diretamente nos olhos.

Cinema, Aspirinas e Urubus (2005, dir. Marcelo Gomes)Cinema, Aspirinas e UrubusE voltando ao sertão, o filme de Marcelo Gomes, que ainda pode ser considerado a estreia do sensacional João Miguel nos cinemas (tinha feito apenas o despercebido “Esses Moços” um ano antes), mostra que se alguém quiser fazer um roadie movie brasileiro, vai ter que superar essa interessante, simpática e inesquecível história desse vendedor de aspirinas alemão que cruza o sertão e dá de cara com o sonhador e apaixonante Ranulpho.

Os Matadores (1997, dir. Beto Brant)MatadoresOs Matadores talvez não seja o melhor filme de Brant (A maioria deve citar o recente Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios), também não é seu filme mais famoso (muito provavelmente O Invasor), nem é o mais experimental (que deve ser uma parada dura entre O Amor segundo B. Schianberg e Crime Delicado), tampouco é também o mais pertinente (já que Ação entre Amigos discute a Ditadura como poucos), mas, com certeza Os Matadores é o mais divertido. Não no sentido de engraçado, mas de estrear na retomado o que poderia ser considerado um “filme de gênero”, um policial sobre dois matadores em um cenário que soa novo, mas é completamente rico em personalidade e referências (a fronteira com o Paraguai).

O Homem que Copiava (2003, dir. Jorge Furtado)O Homem que CopiavaSeria tremendamente injusto fazer uma lista desse tipo e não citar o Jorge Furtado, e para isso, esse delicioso misto de suspense com comédia e ainda drama é, com certeza, a melhor opção. Ainda que Saneamento Básico seja muito mais maduro, O Homem que Copiava, além de ser um tremendo sucesso de bilheteria, ainda é um exemplo de como fazer uma história tão complexa e ágil usando tantas referências e reviravoltas e um filme que não perde o frescor mesmo se for visto várias e várias vezes, qualquer que seja o tempo que tenha se passado.

Lavoura Arcaica (2001, dir. Luiz Fernando Carvalho)Lavoura ArcaicaAdaptação do clássico de Raduan Nassar, o filme dirigido por Luiz Fernando Carvalho pode facilmente ser apontado com adjetivo como: difícil, violento, visceral, sensual, pesado, doloroso, poético e, mais do que tudo isso, inesquecível. Um daqueles filmes que, mesmo mais de uma década depois de seu lançamento, não consegue largar quem o viu. Fora isso, ainda se destaca por uma direção plasticamente poderosíssima e que carrega Selton Mello e Raul Cortez, para uma espécie de transe que cria, sem sombra de dúvida, as melhores atuações dos dois em suas carreiras.

Tropa de Elite (2007, dir. José Padilha)Tropa de EliteTalvez se não tivesse ganhado as banquinhas dos camelôs, Tropa de Elite tivesse se tornando a maior bilheteria dessa tal “Retomada” (curiosamente esse título é de Tropa de Elite 2), mas nem por isso o filme de José Padilha (mesmo do Ônibus 147) se torne menos importante, já que, além do batalhão de frases de efeito e de um off de Wagner Moura (vulgo Capitão Nascimento) que já entrou para os anais do cinema nacional, Tropa de Elite é, talvez, o maior exemplo de que qualidade artística, diversão e altos números das bilheterias podem sim andar juntos.

Os Famosos e os Duendes da Morte (2009, dir. Esmir Filho)Os Famosos e os Duendes da Morte Os Famosos… é pequeno, poético e inspirador, meio depressivo até, mas que vaga por uma névoa que cerca essa cidadezinha do filme, buscando não um significado, mas sim servindo de rumo para esse personagem. Assim como inspiração para quem for fazer cinema no Brasil entender que há espaço suficiente para muita sensibilidade e histórias que às vezes podem parece pequenas, mas atingem profundamente o espectador.

Adendo

Para não se esquecer de mais uma meia dúzia, além de não ficar sem citar Carlota Joaquina – Princesa do Brasil (que só não entra por que teve lá seu valor, mas que tecnicamente sempre achei fraco), como também para lembrar-se de uma série de filmes que bateram na trave, como: 2 Coelhos, Central do Brasil, Cronicamente Inviável, Edifício Master, Estômago, O Invasor, Janela da Alma, Narradores de Javé, O Palhaço, Saneamento Básico, O Som ao Redor e Tropa de Elite 2.

Esses e fora todos outros que foram citados no especial do Sétima das Artes e estão nesse link.

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