Escobar – A Traição | Bardem, Cruz e a direção de Aranoa fazem o filme valer a pena

Escobar A Traição Filme

Escobar – A Traição é mais uma visita ao inesgotável mundo de Pablo Escobar, este cabrón que construiu um império em cima de outros impérios e teve que pagar as consequências. Uma história tão impactante e dramática como essa (porque é real) já foi explorada inúmeras vezes na ficção, e recentemente ganhou séries e filmes. Então, qual a grande novidade dessa vez?

A novidade, creio eu, fica por conta de Penélope Cruz e Javier Bardem, que fazem respectivamente Virginia, a colombiana bem sucedida e famosa em terra estrangeira e cujo livro inspirou este roteiro, e Pablo, este colombiano novo rico que se orgulha de sua terra e que comprou a briga contra todos que se meteram em seus negócios, sejam concorrentes, a polícia, os políticos ou sua amante.

Não é muito difícil caracterizar Pablo Escobar, este senhor bigodudo de meia idade com o rei da barriga e uma forma de se portar que demonstram uma pessoa comum que se equilibra na onda de dinheiro e poder como magnata da cocaína enquanto tenta zelar pela sua família à sua maneira. Mas Javier Bardem vai além que o lugar-comum de tantos intérpretes. Podemos começar notando (e como não notar?) sua magnífica barriga em forma de banheira, que faz questão de exibir sempre que pode, andando com a camisa aberta.

Além disso, uma cena em que sai correndo pelado, apesar de desnecessária, e acredite, mesmo que você seja fã do físico de Javier, não há nada para se ver aqui, pode ser utilizada para mostrar que o ator (e produtor) leva seu papel a sério. Sua cara inchada e levemente suada, com os olhos beirando as lágrimas, atravessa neste filme o caminho que vai do topo do mundo para sua queda fatal, em uma construção de personagem que se baseia em nuances meticulosas.

Observe como seu estado de humor, por exemplo, vai aos poucos mudando de brincalhão e confiante para irritado e com ataques de raiva cada vez mais frequente (e dê poder a um homem temperamental e logo veja os corpos começar a cair). Veja também como seu olhar, geralmente de cima para baixo, começa aos poucos a cambalear junto com suas costas arqueadas, sua respiração mais dificultada, a olhar cada vez mais para o chão. É uma mudança de postura completa, mas sutil, que vale conferir durante o longa.

Penélope Cruz sofre um pouco com sua personagem. É óbvio que os dois se enamoram por terem afinidades que vão além da origem ilícita do seu dinheiro. Quando ela observa as casas que Pablo mandou construir para o povo da favela onde morava, ela, quase como defendendo um governo, para de questionar de onde vem os recursos de seu namorado e apreciar o fim para o qual ele é usado. E claro, ela se apaixona no momento em que ele enche sua mala de dinheiro e pede para que não economize. Ela também é uma nova rica, mas depois de Pablo ela parece sentir que subiu mais um degrau na escala de poder e fama. O mais curioso é como ela considera isso naquele momento algo bom.

Escobar - A Traição Filme

Por isso mesmo sua moralidade deveria ser questionada, mas não é. Narradora do filme, ela surge como a protagonista na história, sem praticamente muitos arranhões. Autora do livro que inspira o roteiro, Virginia Vallejo é a heroína de um filme onde sua personagem é apenas uma peça em um grande quebra-cabeças de interesses políticos. Ela está na posição errada para segurar toda a história ou ser fundamental. Primeiramente porque ela não é humana, mas uma ideia. Vista apenas com Pablo ou nas telas, não temos muitas informações sobre quem é a mulher por trás de suas ações, e sua influência no namorado é quase nula. Dessa forma, o filme rapidamente se transforma em mais um estudo de personagem de Escobar.

Da mesma forma, a participação quase apagada do talentoso Peter Sarsgaard (ele é o vilão no remake de Sete Homens e um Destino de 2016) é meramente figurativa e serve apenas como uma ponte entre Virginia e Pablo. E nem Penélope Cruz consegue convencer-nos que sua personagem está sinceramente interessada em um agente da CIA. Ou talvez isso diga um pouco mais sobre Virginia e que o filme insiste em encobrir.

Traçando um rastro de sangue e violência sem qualquer pudor, o diretor Fernando León de Aranoa do ótimo Um Dia Perfeito aqui estabelece tão bem a mise-en-scene de suas locações (com destaque para a prisão de Pablo e um plano-sequência envolvendo um helicóptero no meio da floresta) e sabe estabelecer seu visual de maneira tão significativa (basta um movimento de câmera e ele coloca a periferia em conflito com a contrastante Medellín) que apenas rivaliza com o roteirista Aranoa, que consegue inserir comentários políticos sem soar prolixo (“elefantes estão bem aqui na Colômbia porque não leem jornais”) e coloca na boca de seus personagens comentários sagazes que mantém uma dinâmica divertida, especialmente do casal principal. Para isso ele se beneficia da excelente química entre Bardem e Cruz.

Pecando talvez apenas por uma trilha sonora excessivamente exagerada na tensão, tomando aspecto de um policial embora a princípio e por projeto estejamos falando da passagem de Virginia na vida do traficante, Escobar – A Traição passa voando apesar de suas pouco mais de duas horas, e coloca mais um ponto de vista sobre uma história que está incansavelmente sendo contada. Talvez a novidade dessa vez seja que, independente de qual história seja, este é um filme que eu sairia de casa para assistir.


“Loving Pablo” (Espanha, Bulgária, 2017), escrito e dirigido por Fernando León de Aranoa, baseado no livro de Virginia Vallejo, com Javier Bardem, Penélope Cruz, Peter Sarsgaard.


Trailer – Escobar – A Traição

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