Era Uma Vez em Hollywood | Uma declaração de amor ao cinema


Era uma Vez em Hollywood não é sobre Charles Manson assim como Bastardos Inglórios não era sobre Hitler. O mais novo filme de Quentin Tarantino (9°, 10° ou 12°, você escolhe!) é sobre cinema. Mais especificamente sobre aquela que talvez seja a última grande mudança da história do cinema.

Infelizmente Charles Manson e seu séquito fazem parte desse momento importante de Hollywood e contribuíram para o fim da inocência de uma era. Um ponto em comum com o que Tarantino vem fazendo, de modo quase obsessivo, em seus últimos filmes, como se tentasse entender o que move essas pessoas de uma era para outra. Como se entendesse muito bem o quanto toda grande mudança é resultado de um “mexican stand off” sangrento e visceral.

Era Uma Vez… é o fim de cinco décadas de cinema em Hollywood onde as estrelas moviam as engrenagens e os ícones andavam por Los Angeles como se fossem Deuses olimpianos. Os anos 60 não acabaram no resto do mundo, sua influência é tão gigantesca que chegou até a essa bolha de cifrões onde os estúdios ditavam as regras. O fim da década mostrou que era possível que artistas estivessem m por trás das câmeras enquanto uma nova geração de atores invadiam esse cenário.

Desse caldeirão surge o filme de Tarantino, onde realidade se mistura com ficção e tudo parece carregado por uma penumbra de fantasia. Leonardo DiCaprio vive Rick Dalton, um grande ator de ação que acabou ficando para trás depois de uma série de TV de sucesso. Brad Pitt é Cliff Booth, seu dublê pessoal da época mais áurea de sua carreira, mas que agora é uma mistura de ajudante, faz-tudo e melhor amigo.

Dalton ainda mora em uma casa na famosa Cielo Drive, onde em 1969 o casal Roman Polanski e Sharon Tate se mudaram para uma mansão no final da rua. Justamente o mesmo local onde, pouco tempo depois, três seguidores de Charles Manson invadiram e mataram Tate grávida e mais três amigos.

Polanski representa um novo cinema meio autoral que mudaria a cara de Hollywood e resultaria em uma geração inteira de cineastas ligados à liberdade e experimentação. Margot Robbie vive a própria Tate, que muito provavelmente seria uma das maiores estrelas dessa geração se sua carreira não tivesse sido interrompida tão brutalmente.

Manson (que no filme faz apenas uma ponta e é vivido por Damon Herriman) é o retrato da falência de todo essa nova geração mesmo antes dela acontecer. Um corte profundo que fez Hollywood sangrar e que ainda não parece ter cicatrizado. Era aquela liberdade do movimento hippie lutando contra a guerra, misturada à esperança de todos poderem ser uma estrela em Hollywood (Mason queria ser cantor), tudo isso no famoso Rancho Spahn, abandonado, mas que serviu de cenários para diversas produção de western nas décadas anteriores.

Com todas peças arrumadas nesse tabuleiro, talvez seja difícil ir além desse ponto sem esbarrar em alguns spoilers.

Tarantino então cria essa homenagem maluca, sensível, violenta, profunda e linda pela Hollywood que todos aprenderam a amar e se tornou quase uma imagem que perambula pelo inconsciente coletivo de toda uma geração. Assim como em Bastardos Inglórios, essa carta de amor ao cinema não necessariamente obedece às leis da história, mas sim revisa e dá à própria Hollywood a oportunidade de contar uma nova história, sem essas cicatrizes e que poderá viver no coração de todos.

Para isso ele acompanha esses três personagens, Rick Dalton, Cliff Booth e Sharon Tate nesses seis meses que precederam o atentado. Mais precisamente, três dias em que ele consegue passar a limpo tudo aquilo que foi dito sobre esse momento específico e inesquecível de Hollywood.

Dalton tem uma última oportunidade de remodelar sua carreira, Booth perambula ao seu redor tentando entender o que deu de errado. Ambos precisam perceber que seus tempos já passaram, mas não podem simplesmente desistir. Já Tate surge na tela como uma força da natureza, brilhando enquanto vislumbra sua própria carreira no escuro do cinema. Tudo isso culmina em uma mesma noite, mas é o que vem antes disso que importa para Tarantino.

Tudo bem, o final explosivo, violento e dotado de um senso de humor completamente maluco e delicioso é a cereja desse bolo, mas é a disposição dessas peças, os pequenos momentos que formam esse mosaico, que fazem com que Era Uma Vez Em Hollywood seja tão único.

Muito menos episódico e mais próximo do formato de Django Livre e Jackie Brown, Era Uma vez… é completamente linear enquanto conta essas três histórias, mas tem espaço para flahsbacks impagáveis que mostram o quanto Tarantino está no controle de sua narrativa. Absolutamente nada está no filme de graça, tanto para criar uma coleção quase infinita de easter eggs e homenagens, quanto para formar essa meia hora final, onde tudo é o resultado dessas referências. Nada parece fora do lugar em Era Uma Vez…, e em se tratando de Tarantino, isso não é uma surpresa.

Assim como não é uma surpresa que seu elenco consiga fazer alguns de seus maiores trabalhos de suas carreiras. Tarantino parece ter a percepção total do quanto seus atores precisam daquela câmera. DiCaprio, com muito mais tempo de tela do que teve em Django Livre, onde já foi um destaque do filme, agora entrega aquele que pode ser um dos mais interessantes trabalhos de sua carreira. Um personagem tão complexo e cheio de nuances e lados que é possível chegar a todos extremos possíveis em um só filme. Do exagero emulando os trabalhos da época até a melancolia de entender seu tamanho. Seu Rick Dalton está sempre preparado para ter qualquer reação emocional e todas são um deleite nas mãos do ator.

Pitt tem a oportunidade de sair do exagero de seu Tenente Aldo Reine em Bastardos Inglórios para encarnar esse galã blasé casca grossa sempre preparado para o que der e vier. A impagável sequência com Bruce Lee é um daqueles momentos onde Tarantino consegue criar algo imediatamente clássico e que ainda será lembrado por muito tempo.

Mas a grande paixão da câmera de Tarantino é Margot Robbie. Com poucas linhas de diálogo, mas com uma presença incrivelmente poderosa e precisa, Robbie tem a oportunidade de brilhar e ser o centro de toda atenção sempre que aparece em cena, não por um roteiro ou mise-en-scene, mas porque sua Sharon Tate tem um brilho no olhar inocente que mostra exatamente o que Hollywood mereceria naquele momento de transição. Uma personificação da beleza e da esperança que Tarantino usa como âncora emocional de seu Era Uma Vez em Hollywood.

E isso tudo só pode ser possível pela imersão que Tarantino possibilita. Seu espectador é transportado para os anos 60 em Hollywood por meio de uma direção de arte tão precisa e envolvente que é fácil esquecer que ser passaram seis décadas e nada mais é daquele jeito. É essa precisão visual que permite que a câmera de Tarantino misture não só os bastidores de Hollywood com os filmes sendo vistos, como ainda a mais pura ficção com a mais precisa realidade.

Tudo é um grande parque de diversões para Tarantino, cenas inteiras acompanhando as filmagens de mais uma participação de Rick Dalton em um filme de faroeste podem ser interrompidas pela fala esquecida e o choque de realidade em seu espectador. Vale tudo para fazer com que seu espectador experimente algo que nunca tinha sentido. A surpresa de Tarantino não está na reviravolta, mas sim naquele pequeno detalhe que quebra sua expectativa.

A música de suspense que precede um quarto vazio e um perigo iminente simplesmente conversa com o real e com a melancolia dos dias esquecidos e um diálogo sensível e cheio de significado.

Mas é lógico também que tudo isso é um grande plano para o final realmente surpreendente e que demonstra o quando o diretor de Pulp Fiction continua afiado com seu senso de humor ácido e a fúria como desculpa perfeita para aquele exagero surpreendente que o cinema quase sempre tem medo de chegar perto. Plasticidade misturada com tensão, tudo regado a diálogos inimaginavelmente incríveis e um balé de violência que provoca risos catárticos.

E talvez esse seja o novo cinema de Quentin Tarantino, um que busca essa catarse coletiva onde seus personagens oprimidos têm a oportunidade de se vingar da realidade que os cerca. Era Uma Vez em Hollywood é sobre essa vingança que tenta curar um pouco essa ferida ainda aberta que mudou a história do cinema. E se é possível fazer isso e ainda entregar um dos melhores filmes do ano, porque não fazer.


“Once Upon a Time… in Hollywood” (EUA, 2019), escrito e dirigido por Quentin Tarantino, com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley e Timothy Olyphant, Al Pacino e Julia Butters


Trailer do Filme – Era Uma Vez em Hollywood

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