Era o Hotel Cambridge é um documentário que tenta se estruturar como ficção. Sua heroína é uma personagem da vida real. A mescla entre real e o faz-de-conta funciona como catalisador das transformações sociais e um retrato dramático da vida de pessoas que são excluídas de um populismo político que durou uma década e encontrou seu merecido fim: escassez, caos e violência.

A história se passa em um dos inúmeros prédios abandonados do centro da cidade de São Paulo, Brasil. Quem transita frequentemente por estas ruas já se acostumou com o panorama político pintado em faixas vermelhas, com siglas das mais generalizantes, de movimentos de pessoas que invadiram esses prédios caindo aos pedaços com dezenas de famílias. Seus objetivos, além de ter um lugar para morar, é conscientizar a população de que não há, de fato, moradia para todos (diferente do que foi gritado aos quatro ventos pelo governo por uma década). O problema central vem na forma de uma decisão judicial de reintegração de posse, o que quer dizer que todas aquelas pessoas serão efetivamente despejadas do lugar.

Isso não impede que a vida continue, e acompanhemos o dia-a-dia dessas pessoas, algumas reais, outras atores, e há uma mescla entre os dois. A equipe de produção do filme adentra em um ambiente de conflito para contar uma história surgida de muita pesquisa, e a sensação constante é de estar em um documentário que usa a ficção para se sentir mais forte. Porém, é a capacidade da diretora Eliane Caffé o grande trunfo da empreitada, já que sua narrativa esconde com sucesso as muitas cenas que vemos que não têm qualquer ligação com uma possível trama. Vemos um casal se beijando, e um voluntário cuidando da elétrica e um refugiado internacional recém-repatriado pelo movimento. Pessoas recitam poesias vazias, o que nos faz voltar frequentemente da ficção e inspecionar nossa consciência: essas pessoas são reais demais para terem sido inventadas.

Além disso, há uma edição dinâmica, que conta os dias que faltam para o despejo usando números pintados nos prédios. A última cena, de ação, culmina na melhor sequência do longa ao sintetizar os paradoxos políticos, onde policiais truculentos atacam uma população desenganada lutando pelos seus direitos, garantidos em Constituição, mas impossíveis de serem concretizados na vida real.

Era o Hotel Cambridge Crítica

Aqui segue um pequeno parênteses sobre a lógica e a dinâmica desses movimentos. Ele está fortemente representado no filme por figuras conhecidas do cotidiano atual, como imigrantes fugidos de seu país de origem, geralmente por causa da guerra e perseguição, mas também contém elementos mais peculiares ainda do panorama urbano: os migrantes de estados mais pobres do Brasil, que vieram também em busca de uma vida melhor.

Porém, além disso, a despeito do não-mostrado no filme, ele está bem aparelhado politicamente. Esses movimentos organizam invasões em grandes mobilizações orquestradas por ônibus e marretas. Mas se trata de um documentário com algumas partes de fora, que não explica muito bem de onde vêm os recursos para isso. Se esse detalhe poderia mudar nossa opinião sobre esses grupos, nunca saberemos apenas pelo filme.

As atuações funcionam bem porque há um clima de cenas ensaiadas, mas com pessoas reais. Sabemos que há uma atriz de verdade no grupo, o que parece levantar a moral do resto. E eles estão inspirados na fala. A preparação de elenco rivaliza com Cidade de Deus, com falas ágeis, com uma cadência natural que quem mora na cidade constataria como legitimamente paulista.

Além disso, Era o Hotel Cambridge se constitui como um retrato legítimo das discussões sociais e políticas da atualidade. Sem muito jeito nem muita lógica, o apelo à emoção começa nas poesias recitadas por um refugiado do Oriente Médio e termina em um teatro de movimentos paralisados, exatamente a síntese de como militantes e ativistas se vêm: heróis imortalizados e/ou as vítimas/protegidos clássicos: os menos beneficiados pelo próprio Estado que tanto defendem.


“Era O Hotel Cambridge” (Fra/Bra, 2016), escrito por Luis Alberto de Abreu, Eliane Caffé, Inês Figueiró, dirigido por Eliane Caffé, com José Dumont, Paulo Américo, Suely Franco, Ibtessam Umran, Juliane Arguello


Trailer – Era O Hotel Cambridge

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