Entrevista | Michaela Coel: “Meu único papel é ser honesta e falar sobre coisas controversas”


Michaela Coel é mais uma selecionada do etm European Shooting Stars. Faz sentido – a inglesa de 30 anos tem uma carreira brilhante apesar da pouca idade: começou na poesia, passou para a atuação, trabalha como escritora e tem dois álbuns de música lançados. Seu mais expressivo trabalho, a série de comédia Chewing Gum (disponível na Netflix) é escrita, produzida e estrelada por ela. Mas pode ser que você a conheça pela participação no novo filme de Star Wars ou por suas personagens nos episódios “Nosedive” e “USS Callister”, da série Black Mirror. ¿Eu adoro televisão. Eu adoro o fato de que as pessoas podem assistir de pijama ou peladas; elas podem pausar se quiserem pausar; elas podem ir à cozinha pegar algo para comer. É um meio muito diferente¿.

A preferência por TV fica evidente no currículo de Michaela, que fez seu primeiro filme (Been so long, de Tinge Krishnan) esse ano. ¿Eu nunca tinha ido a um festival de cinema antes, é meu primeiro filme. Mas eu estou muito orgulhosa de estar representando o Reino Unido aqui, estou adorando a interação com as pessoas, com outros atores. É um pouco cansativo, mas tudo bem, porque eu estou me divertindo¿.

Michaela é conhecida pela personalidade irreverente, que transcende para suas performances. Suas personagens são sempre muito fortes e sem rodeios, muitas vezes chegando ao ponto de causar desconforto em quem assiste. ¿Desde muito jovem, eu nunca tive muito filtro¿ Eu não sou a pessoa mais meiga que você vai conhecer. Então eu meio que entendo porque eu acabo interpretando essas personagens fortes, mas a maioria delas também tem um lado vulnerável e é isso que as torna humanas.¿ Essa dualidade está, também, muito presente na vida pessoal de Michaela, que ela não tem problema de divulgar para os fãs. Suas redes sociais tem um grande following e ela não exita em compartilhar com as pessoas a realidade de seu cotidiano: ¿Eu acho que é importante que as pessoas saibam que eu não estou sempre atuando. O meu quarto é uma bagunça, parece que uma guerra acabou de acontecer. Não faz sentido eu arrumar meu quarto inteiro só por uma foto, postá-la e ficar tipo ¿eu sou tão organizada¿. As pessoas precisam saber que mesmo pessoas com carreiras e prêmios são humanos, todos choramos, sentimos dor, ficamos deprimidos¿.

Depressão e tristeza, aliás, são os maiores combustíveis para Michaela como escritora: ¿Eu acho que os melhores trabalhos vêm da frustração, dos desapontamentos e da dor, é isso que nós temos que fazer, transformar situações horrorosas em arte¿. Uma ironia, considerando que uma das maiores habilidades de Michaela é fazer as pessoas rirem. Chewing Gum, baseada na peça Chewing Gum Dreams, que foi seu projeto final na Guildhall School of Music and Drama, foi escrita com inspiração na vida real de Michaela, que cresceu num bairro pobre de Londres, numa comunidade com pessoas extremamente diferentes. ¿Eu cresci no meio de pessoas muito diferentes, que falavam línguas diferentes. Eu gosto da variedade, gosto de misturar. Não sinto uma responsabilidade de colocar representatividade nas minhas criações, mas é algo que acontece naturalmente porque eu me relaciono com tipos muito diferentes de pessoas. O meu único papel é ser honesta e falar sobre coisas que às vezes são controversas.¿

crédito das imagens: Harald Fuhr/EFP

Acompanhe nossa cobertura da Berlinale

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *