por Marina Cardozo, direto do Festival de Cinema de Berlim
01 de fevereiro de 2018

Chegamos em fevereiro. Sabe o que isso significa? Significa que o Festival de Cinema de Berlim, a Berlinale, está cada vez mais perto, e o CinemAqui abre a temporada de postagens sobre o festival. Afinal, este ano o site contará com uma cobertura completa da Berlinale, feita pela repórter Marina Cardozo (no caso, esta que vos escreve), diretamente de Berlim.

Para abrir os trabalhos da nossa cobertura, entrevistamos o cineasta Marco Antônio Pereira, diretor do curta-metragem Alma Bandida, selecionado da Berlinaleshorts 2018 (mostra competitiva de curtas).

Alma Bandida é um filme realizado em Cordisburgo, Minas Gerais, que conta a história de Fael, um cantor de funk local e sua luta para lidar com a namorada – que não parece estar tão dentro do relacionamento quanto ele – e ainda seu objetivo de comprar um carro popular.

Confira então a entrevista:

Cinemaqui: Como é difícil ter acesso aos filmes antes do Festival, comente para a gente sobre o que exatamente é “Alma Bandida” e como nasceu a ideia do filme?
Marco Antônio Pereira: O filme é sobre paixão e a incompatibilidade entre pessoas, além de ilustrar um pouco como o coração da gente costuma gostar de pessoas e coisas erradas. A ideia nasceu da vontade de fazer um filme que fosse uma metáfora sobre nós, os brasileiros.

C: Quanto tempo duraram as filmagens?
M: Demorei aproximadamente seis meses para produzir Alma Bandida. Cinco meses de preparação no Projeto Arte e Vocação, quatro dias para gravar as cenas e mais uns quatro dias para montar, finalizar som e colorização.

C: Falando nisso, como funciona o Projeto Laboratorial Arte e Vocação?
M: O Laboratório de Arte e Vocação é um projeto pessoal e independente meu. Iniciei em maio de 2017 com o intuito de influenciar esses seis jovens. O projeto era encontrar toda semana com eles e os provocar a escreverem letras de músicas. Depois disso, gravamos essas músicas e fizemos clipes. Tudo bem dentro do universo deles. E no final dos seis meses, eu os convidei para produzir o filme. Foi a primeira vez que realizei o projeto. Pois já fazia anos que eu realizava a Oficina Move de Cinema. Mas percebi que produzir música, funk e rap, com letras que eles mesmo escrevem, me aproximava mais do universo deles.

C: Pelo seu canal no Youtube e pelo trailer de “Alma Bandida”, você parece ser um diretor visual, sua câmera não parece estar lá apenas para observar, há um cuidado estético. Como você definiria seu cinema?
M: Ouvi alguém falar que vivemos “tempos de estética amadora”, mas eu escolhi andar na contramão disso. Tudo que é tendência me incomoda. Eu prefiro a resistência. Quero fazer algo novo de acordo com minhas convicções. Além disso, quero ser vanguarda em alguma coisa, pode paracer ilusão, mas quero quebrar paradigmas. Fazer um filme é um processo muito desgastante para mim. Eu faço e rafaço um milhão de vezes e não paro até achar que fiz o melhor possivel.

C: Você acha que esse é um tipo de cinema que leva vantage na hora de, por exemplo, ser selecionado para um festival?
M: Não posso dizer que esse tipo de cinema leva vantagem nos festivais, pois essa coisa é muito subjetiva. As mentes dos programadores de festivais são a coisa mais misteriosa do mundo. Porém, acredito que quando você faz qualquer coisa na sua vida com muita dedicação, você desconserta as pessoas (para o bem ou para o mal).

C: Você chegou a ver algo sobre os outros selecionados? Consegue enxergar um ponto em comum entre todos?
M: De todos, eu só tinha ouvido falar de Terremoto Santo, da (Bárbara) Wagner e do (Benjamim) de Burca. E sei que tem curtas de diretores já reconhecidos também. Acredito que todos o curtas da BerlinaleShorts tendem a ser únicos e originais.

C: Você já acompanhou ou participou de outros festivais desse tipo? 
M: Acompanho desde de sempre e será a primeira vez que vou participar de um grande festival internacional. Até porque comecei oficialmente minha carreira como diretor de cinema há seis meses.

C: O que você espera dessa sua primeira participação?
M: Sobre o que eu espero da experiência em Berlim, eu vou ser bem honesto, sou daqueles que não desperdiça uma boa oportunidade. Então, espero fazer o máximo de contatos e gerar novas oportunidades para nossos filmes explodirem no mundo todo.

C: Quanto você acha que esses grandes festivais representam o cenário do cinema mundial?
M: Acredito que os grandes e renomados festivais de cinema, principalmente Cannes e Berlim, ditam muitas regras pra todo o mundo cinematográfico.

C: Qual é o principal receio de ser selecionado por um Festival desse porte? E qual o principal prazer?
M: O principal receio é acordar a qualquer momento e isso ser um sonho. O principal prazer, pra mim, foi fazer um trailer e um poster com a logo da Berlinaleshorts Oficial Competition.

Cobertura Berlinale Entrevista

C: Como funcionou a seleção e como foi o momento em que você descobriu que tinha sido selecionado? Foi através de que, email, telefone…?
M: Mandei o filme. Depois de algum tempo, recebi um email da assistente da curadora dizendo que ela estava especialmente interessada no meu filme. Depois que passei mais informações, eles me mandaram a carta convite em pdf, colorida e assinada. Confesso que nesse momento fiquei muito emocionado. Eu sonhei com isso a vida toda.

C: Você acha que os curtas são uma porta de entrada? Acredita que os festivais, principalmente no Brasil, dão muita ou pouca importância para esse formato?
M: Acredito que os curtas são uma porta de entrada sim, mas não só isso. Acredito sim que os festivais dão valor aos curtas, mas as pessoas comuns nem sabem direito o que é um curta.

C: Depois de Berlim, qual você pretende que seja o caminho de Alma Bandida, tanto em termos de Brasil, quanto internacionalmente?
M: Eu não sei direito como funciona. Mas tenho uma lista de pessoas com quem vou me encontrar em Berlim. Queria muito exibir Alma Bandida no MoMA, cara! Você já pensou nisso? Um filme feito em Cordisburgo rolando no MoMA? Se rolar, já me aposento e vou montar uma banda para tentar tocar no Lollapalooza.

C: E você, quais seus planos? Mais curtas? Partir para um longa?
M: Eu sou implacável. Em janeiro agora vou exibir meu primeiro curta A Retirada Para um Coração Bruto, na Mostra Foco do Festival de Tiradentes. Estou tão empolgado com isso quanto pela exibição de Alma Bandida em Berlim. (Nota do editor: A Retirada Para Um Coração Bruto acabou sendo o vencedor entre os curtas). Agora estou finalizando a edição do meu terceiro curta Teoria Sobre Um Planeta Estranho. Também estou pre-produzindo dois novos curtas. Além do meu Projeto Arte e Vocação no qual desafio pessoas comuns que nunca se envolveram com filmes a se arriscarem nessa atividade. E claro, tenho um longa de super herói na cabeça.

A Berlinale acontece de 15 a 25 de fevereiro em Berlim. Para mais notícias do festival, acompanhe o CinemAqui, também no Facebook, Twitter e Instagram

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