“Talvez nós tenhamos interpretado erroneamente a Bíblia por muito tempo.” Essa foi a frase-chave de uma coletiva com Darren Aronofsky que envolveu todas as interpretações polêmicas a respeito de seu novo filme, mãe!, que apresenta uma alegoria que inevitavelmente cai nas preocupações ecológicas atuais. Com a presença apenas do diretor, foi uma entrevista ágil, com boas perguntas e com uma presença de espírito de Aronofsky em cada resposta.

Darren Aronofsky é um diretor bem peculiar. Sempre explorando o gnosticismo – a busca e a afirmação de todo tipo de conhecimento, natural e sobrenatural – seus filmes geralmente envolvem personagens no limite de seu conhecimento e capacidade. Claro que é difícil tentar relacionar Pi, Réquiem Para um Sonho, Fonte da Vida, O Lutador, Cisne Negro e Noé sob um mesmo tema. Mas não se trata apenas dos assuntos que o diretor prefere abordar, mas do seu estilo, que costuma ser bem intenso para seus personagens.

E agora com mãe! ele volta a explorar uma metáfora poderosa sobre o mundo, apelando, assim como em Noé, para referências bíblicas, mas também, como em Fonte da Vida, como um apelo a múltiplas visões da realidade. Se bem que, se formos ao cerne da história, ela se parecerá mais com Cisne Negro, pois apresenta uma protagonista mulher que se depara com experiências tão bruscas e intensas que desafiam sua própria identidade.

A recepção da coletiva foi aquela muvuca de celebridades, com fotógrafos à frente e uma sala (de cinema) lotada de pessoas para aguardar um dos diretores mais badalados do momento. Por conta do número de pessoas não houve sessão de fotos, e a sessão de perguntas pareceu bem resumida, embora tenhamos passado cerca de 40 minutos na companhia de Aronofsky.

A maioria das perguntas giraram em torno da produção e criação de mãe!, sempre com um pé nos vários significados da obra. Houve um chute que a personagem de Michelle Pfeiffer seria chave na história, chegando alguém até a comentar que todo o conflito se resume a ela (!). Muito tempo fora das telas e voltando agora à telona, Pfeiffer foi elogiada por Aronofsky de modo genérico, como todo bom diretor costuma fazer. De qualquer jeito, ficou a curiosidade de acompanhar as teorias da plateia de críticos e jornalistas, que de forma surpreendente até, pareciam impregnados de percepções políticas a respeito de uma obra que sequer dá muitas aberturas para o tema.

Isso pode ser um reflexo dos tempos atuais, cheios de conflitos, ou de como temas como a ecologia e o feminismo se misturam com política. Por falar em feminismo, ele foi citado, até por conta da protagonista ser uma mulher e interpretada por Jennifer Lawrence, que não se priva de falar a respeito do tema em entrevistas. Mais uma vez Aronofsky foi polido e comentou que “JenLaw” se adaptou muito bem ao papel desde o começo, mas a menção ao feminismo ficou por isso mesmo.

Como é natural em obras abertas como mãe!, muita forçação de barra foi imposta pelo público. E o diretor parecia muito confortável com qualquer uma delas. Exceto uma. Ele abriu um parênteses enfático a respeito dos que entendem que o filme é dark apenas pelo prazer de ser dark. “A pessoa simplesmente não entendeu a proposta”, comentou. De qualquer jeito, não há nada mais triste para um artista que ver seu esforço minimizado por filtros banais como esse.

Sobre a superação de vida de seus personagens (como em O Lutador e Noé), disse que sua criação é uma parte dele, “eu estico de mim até ela virar um personagem”. E completa ainda que se se apegou mais ao personagem da JenLaw, mesmo que tenha tirado alguns elementos do personagem de Javier Bardem, que representa personagem importantíssimo no filme.

Bem-humorado, aproveitou para comentar sobre o que todos acham sobre a situação principal de você ter visitas mal-educadas em sua casa. Ele deu um exemplo de sua vida, um amigo, que até troca de canal quando o visita em sua própria casa. “Vocês podem usar esse meu exemplo, embora ele tenha melhorado; mas ainda assim…” arrancou risadas da plateia.

Mas os nervos ainda estavam inexplicavelmente mais para política do que visitas mal-educadas. Seja ou não uma coincidência política da situação atual (ele desmentiu pelo menos duas vezes, explicando como demorou o processo de confecção do filme), falou que ele, assim como todo mundo do planeta, não acreditava na eleição de Trump, “mas que aconteceu”. E que pelo menos a vantagem é que agora é possível, em suas palavras, “enxergar o câncer”. Sobre Obama criticou a lentidão das mudanças em seu mandato.

Talvez todo governo tenha de fato uma ou outra crítica válida sobre ambientalismo. Sobre a esperança de nós mudarmos como espécie nossa situação com a natureza, ele é um otimista. Acredita que ainda há tempo para salvarmos a mãe-natureza antes que “ela nos exploda”. Salvar o planeta para nossos netos, “Nossos filhos, até.”

A conversa ainda girou ao redor dos bastidores de mãe! e essa maneira toda peculiar do diretor nova-iorquino conseguir, assim como seu conterrâneo Woody Allen, harmonizar o custo de seus filmes com seu sucesso comercial. Dessa forma, de produções mais modestas como Pi para um blockbuster como Noé. “As produções no cinema estão sempre trabalhando no limite de seus custos” afirma Aronofsky e completa:  “Tento apenas fazer com minha equipe tente obter o melhor com o dinheiro disponível”.

Isso tem relação direta com a direção de arte de seu novo filme, em uma história que se passa sempre em uma casa e foi construída em duas frentes. Uma casa externa, isolada de tudo, foi feita para o ganho na iluminação; nos estúdios foram feitos os três andares, que foram úteis para as partes de destruição. Além disso, Darren cria um clima subjetivo e claustofóbico pelo uso limitado de tipos de tomada. Como ele mesmo explica, foram usadas apenas três tipos de tomadas no filme inteiro, todas em torno da personagem de “JenLaw”: atrás de seus ombros, na cabeça e sua face. Ter a possibilidade de ver acima da cabeça foi algo que pareceu ser algo particularmente intrigante para um diretor acostumado com peculiaridades visuais.

Se mostrando claramente empolgado com o seu maior desafio técnico até o momento, os últimos vinte últimos minutos de seu novo filme, Aronofsky resolveu concluir sua participação na coletiva voltando ao tema de ecologia e religião, abrindo um parênteses interessante sobre duas passagens aparentemente contraditórias no Gênesis, mas que na verdade se complementam. Conforme é dito para o homem no primeiro livro da Bíblia: vá e domine a Terra. Mas, ao mesmo tempo, também é dito que ele zele por ela. “Hoje em dia, até o Papa fala sobre as responsabilidades do homem para com o planeta” afirma, e completa com a frase que inicia este artigo: “Talvez tenhamos interpretado a Bíblia erroneamente por muito, muito tempo”.

Em aspectos gerais, Aronofsky é o tipo de diretor confortável em falar sobre o processo de produção, detalhes do roteiro e até mesmo sobre as opiniões acerca dos seus filmes. Ele não abraça qualquer ideia a respeito deles, mas respeitosamente ouve e conclui suas ideias. O tempo voou na coletiva graças a ótimas perguntas e respostas que, assim como seus filmes, fazem a gente refletir sobre o que estamos fazendo com nossa vida aqui na Terra.

Confira a crítica e ainda nosso especial que tenta desvendar mãe!

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