Entre Irmãs é um filme de época que parece feito também em outra época. Uma época mais ingênua, onde filmes como esse não seriam tão clichês, tão bregas. Infelizmente, para o público de hoje, clichê e brega é exatamente o que ele parece.

E longo. Muito longo.

A história você já conhece. Duas irmãs separadas pelo destino, cada uma delas vivendo uma vida diferente e oposta. Órfãs desde pequena, elas vêm de uma infância dura, criadas pela tia. Tornam-se costureiras como ela, e como uma delas diz, “costureira não é uma coisa que você pode deixar de ser”. E assim o são, cada uma a sua maneira. Uma vira mulher do cangaceiro mais procurado do Nordeste. Outra vira membro da alta sociedade de Fortaleza.

Elas perdem a comunicação por muito tempo, e o tempo do filme corre muito bem, em lapsos, pequenos saltos que vão dando a impressão de meses e anos. A única forma de uma saber da outra é lendo o jornal. E ambas aparecem nele. Em seções diferentes, claro. Uma nas fofocas da burguesia e outra é manchete junto de seu marido, Carcará, o cangaceiro sanguinário que tem fama de arrancar os olhos de suas vítimas.

Mas na história você vai ficar sabendo, se já não descobriu, que Carcará tem seus motivos para fazer o que faz. Afinal de contas, ele e sua gangue são os mocinhos, e como todos mocinhos sempre têm seus nobres motivos para derrubar sangue. E quando lhes falta um motivo, ainda resta a desculpa da necessidade da dureza de seu exército, em briga constante com o coronelismo do Sertão, vivendo sua liberdade sofrida com pouca água.

O Sertão, aliás, é filmado com um tom sépia escuro que favorece a dramatização acima do realismo, o que faz todo sentido neste drama romântico e teatral. Parece que estamos assistindo a uma reconstrução estilizada do livro onde foi baseado o filme. Do outro lado, na cidade “grande”, Fortaleza carece de cenários que a estabeleça como metrópole da época, se mantendo sempre sob fachadas que sabemos que é papelão cinematográfico. A qualidade de produção de uma novela.

Ainda nos detalhes técnicos, é curioso notar como a irmã que vira burguesa parece embranquecer sua cara assim que adentra o teto da família Afonso Coelho. O uso inspirado da iluminação nos figurinos o tornam mais do que parecem, assim como a maquiagem. Note como fica o rosto da irmã cangaceira depois de lutar por muito tempo, sujo e cheio de sequelas do castigo solar.

Entre Irmãs

Se a direção de arte parece fazer valer cada centavo — embora fique claro que são poucos centavos — o mesmo não se pode dizer da trilha sonora. Não que ela seja barata. Muito pelo contrário. A música de Gabriel Ferreira é atordoantemente expansiva. Seu entusiasmo sem limites em pontuar cada cena, cada sorriso, cada choro ou batalha a torna supérflua e irritante. E paradoxalmente ela é responsável por aumentar o sono das quase três horas de projeção.

Já quem, de maneira alguma, prejudica o filme é seu elenco. Afiado, harmonioso e com alguns bons momentos desperdiçados pelo roteiro, o trio formado por Marjorie Estiano, Nanda Costa e Julio Machado mereceria material melhor. Se Julio, que faz Carcará, convence desde a primeira cena (e a estende) como um homem que vive a única opção de sobrevivência que o destino lhe ofertou, as irmãs, vividas por Marjorie e Nanda, reafirmam suas personalidades através das expressões no rosto e no olhar que são muito mais sutis que os diálogos expositivos, que já revelam todos os pensamentos e sentimentos dos personagens antes que seja dada a chance disso ser revelado simplesmente olhando para eles. Como quando a irmã que fica cuidando da tia comenta que ela anda doente, apenas para que na cena seguinte ela volte para casa e a tia comece a tossir copiosamente.

Esse é apenas um dos primeiros exemplos de um roteiro burocrático, que apenas segue o que lhe é esperado. Como dividir as atenções entre as irmãs (como o título sugere) e fazer rimas previsíveis com o que vai acontecendo com ambas. Como o filme é longo o espectador tem a chance de aprender durante o filme. Se uma coisa acontece a uma irmã, pode apostar com seu vizinho de poltrona que algo parecido (ou idêntico) irá acontecer com a irmã. E logo na próxima cena. No terceiro ato, quando acontece o esperado (a essa altura você já sabe), a narrativa soa ainda mais preguiçosa, pois vai apenas jogando os eventos em uma ordem simples e sem emoção. Exceto, claro, a já citada trilha sonora estridente.

O diretor Breno Silveira também mereceria material melhor. Sem conseguir aplicar o seu golpe de sorte de estreia em longas com o milagre 2 Filhos de Francisco, cambaleia um confuso Gonzaga: De Pai pra Filho e agora entrega este Entre Irmãs como sua descida derradeira. Aparentemente lhe falta história à altura, e um roteiro menos criativo. Mas não técnica. O filme é um prazer visual desprovido de alma. Se 2 Filhos é pura emoção e técnica competente, Entre Irmãs é pura técnica com emoção competente. E você já viu alguma vez na vida uma emoção ser “competente”?


“Entre Irmãs” (Bra, 2017), escrito por Patrícia Andrade, dirigido por Breno Silveira, com Marjorie Estiano, Nanda Costa, Júlio Machado, Rômulo Estrela e Letícia Colin.


Trailer – Entre Irmãs

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