Entre Facas e Segredos | Não se engane pelo clima de mistério


Com pouco mais de uma década de carreira em longas, Rian Johnson está se mostrando, cada vez mais, um daqueles diretores especiais, inquietos, que não permitem que um gênero saia intacto depois de um encontro com ele. Entre Facas e Segredos vai ainda mais fundo nisso e o resultado é um dos filmes mais divertidos de 2019, isso enquanto não se torna um tratado sociopolítico sobre a “Era Trump”… e aí ele se transforma em obrigatório.

Portanto, não se engane com a cena de abertura com dois cães correndo no gramado de uma casa vitoriana rodeada de neblina, com uma música saída de algum filme de mistério ainda te apresentando Harlam Trombley (o sempre incrível Christopher Plummer), um escritor de livros de mistério famoso e sua morte por suicídio. O que vem depois é o que interessa.

Passadas duas semanas de sua morte, e com toda família reunida, dois policiais (vividos por LaKeith Stanfield e Noaw Segan) começam uma investigação com a ajuda do renomado detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig em um sotaque delicioso e divertido). Portanto, esqueçam o suicídio, Trombley foi assassinado, e toda família disfuncional se torna suspeita.

O elenco é incrível, Jamei Lee Curtis e Michael Shannon vivem os filhos de Trombley, Don Johnson, Riki Lindhome e Toni Collete, os genros, enquanto Chris Evans, Katherine Langford e Jaeden Martell, os netos, K Callan, a mãe dele, cuja idade é melhor nem pensar. De fora desse monte de abutres esperando pela herança, Ana de Armas é Marta Cabrera, enfermeira que cuidou de Trombley.

Pronto, está aí formado o grande tabuleiro de Detetive. E Entre Facas e Segredos é mais ou menos isso mesmo, uma mistura do jogo de tabuleiro, com Agatha Christie, Sherlock Holmes… e Parasita, mas disso a gente fala mais para frente. Antes é preciso rasgar uma série de elogios à Rian Johnson.

Assim como em Os Vigaristas e Na Ponta do Crime, Johnson mira em um gênero, nesse caso o dos “filmes de mistério”, e sutilmente desconstrói tudo enquanto traz ele para os dias atuais. Entre Facas… é ágil, divertido, cheio de surpresas e completamente novo. Antes do final do primeiro ato você já sabe “quem matou”, o resto do tempo é a oportunidade de ver uma pequena farsa sobre como é possível estar tão perto e tão longe da verdade.

Mas não se preocupe, nada é o que parece e você irá se surpreender a cada curva que o filme pega. A história é uma bagunça deliciosa e que vai fazendo sentido quanto mais chega perto do final. E quanto mais longe você chega nela, mais você percebe que estava olhando para o lado contrário, como em um grande truque de mágica.

O roteiro, também de Johnson, não deixa furos a serem discutidos, coloca tudo em ordem e faz o que um bom filme de mistério deve fazer: te surpreende no final. Os personagens são incríveis, suas motivações funcionam, suas ações corroboram com isso e o caminho sempre leva para o mesmo lugar: esses segredos que permearam a grande festa que antecedeu a morte de Trombley.

Porém, lembrem do passe de mágica, enquanto Johnson está te empurrando nessa trama cheia de reviravoltas e culpados, você mal percebe que está entrando em um poderoso filme que serve de metáfora para um cenário político atual que esmagam os Estados Unidos em uma luta contra seus próprios americanos. Entre Facas e Segredos pode até ser sobre a morte de Trombley, mas Rian Johnson parece tê-lo feito para esfregar na cara dos americanos a hipocrisia que os esmaga contra o muro que Donald Trump quer construir na fronteira com o México.

De modo sutil, Johnson dá a cada personagem da trama a responsabilidade de ser a personificada alegoria de um estereótipo branco e cheio de certezas. Logo de cara, um grupo que tem a mais absoluta certeza de ter mérito em suas carreiras enquanto “vinham do nada”, mesmo com pomposos investimentos do patriarca. Até a desconstruída neta Meg (Katherine Langford), só consegue fazer a faculdade com jeitão de progressista, pois o avô paga tudo, e quando isso pode acabar, todo carinho com a enfermeira imigrante acaba em um estalar de dedos, ainda mais quando ela é a responsável por tudo.

Em certo momento uma discussão sobre o governo Trump durante a reunião pré-morte faz com que o genro vivido por Don Johnson tente deixar claro o quanto Entre Facas e Segredos não está preocupado com quem matou quem, mas sim pede que você preste atenção nesses detalhes. Logo em seguida ele entrega o prato usada para a enfermeira, como se ela fosse sua empregada pessoal.

É lógico que parte da trama gira em torno da cidadania da mãe da enfermeira, e isso acaba sendo relevante, mas quando você percebe que a família Trumbley se refere à ela própria como sendo cubana, equatoriana, paraguaia e brasileira, mesmo, obviamente ela sendo americana, já que é a mão dela que seria deportada, não ela, Johnson está lhe dizendo para, por favor, prestar atenção nessa camada de seu filme e, quem sabe, refletir um pouco sobre o assunto. Afinal, até quando os americanos irão se sentir superiores a eles mesmos, desprezando e desrespeitando as pessoas por suas origens? É lógico que essa é uma pergunta sem respostas, mas pelo menos o diretor/roteirista irá te fazer pensar nela.

Mas você deve estar pensando que eu estou inventando tudo isso e “enxergando demais”, afinal “vocês comunistas e o politicamente correto estão estragando tudo, até os filmes mais divertidos”. Tudo bem, se você pensou isso, deve ter parado de ler esse texto bem antes desse momento, mas o que Johnson faz é mais ou menos a mesma coisa, quem ficar firme com ele até o final… e aqui temos um spoiler… verá a declaração final do assassino rumando, justamente para esse “ajuste de contas” entre os “americanos puros” e aqueles que estão “destruindo a cultura nacional”. E nessa parte Johnson não é sutil.

A casa lá do começo do filme, que é onde se passa praticamente toda história, não é um ponto de tradição, foi construída por um imigrante europeu nos anos 70, como Benoit Blanc aponta. Tudo é uma farsa, mas nem por isso a reflexão não deve ser feita. Quando o personagem de Michael Shannon aponta que o filho “está nessa de nazismo” com uma naturalidade que não deveria existir, o que Rian Johnson está pedindo é que você entenda que, no final das contas, a casa não é de nenhum desses malucos, mas sim de quem representa toda honestidade (nesse caso… e aqui outro spoiler… literalmente, já que a personagem não sabe mentir).

Entre Facas e Segredos é então um filme de mistério sobre um assassinato, mas também é um esforço para discutir o mundo, uma quase obrigação diante do momento delicado onde ele se encontra. Ignorar isso, deixar o nazista na mesa como se tudo estivesse bem, é algo que Rian Johnson não parece estar disposto a fazer. E isso faz de seu filme uma experiência obrigatória para quem não quer apenas mais um filme para esquecer que existe um garoto nazista se masturbando no banheiro.

Benoit Blanc com seu sotaque vindo de algum ponto do sul dos Estados Unidos aponta a trama como “uma rosquinha com um buraco no meio, mas nele tem outra rosquinha, com um buraco diferente no meio dela”, Rian Johnson sabe muito bem disso.


“Knives Out” (EUA, 2019), escrito e dirigido por Rian Johnson, com Daniel Craig, Ana de Armas, Chris Evans, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeith Stanfield, Christopher Plummer, Katherine Langford e Jeden Martell.


Trailer – Entre Facas e Segredos

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