Elon Não Acredita na Morte é uma thriller policial que consegue manter seu suspense por um bom tempo. Desde que você seja paciente. Ele explora nossa percepção do cotidiano visto de duas maneiras muito peculiares. Uma delas é o senso comum guiando seu protagonista pelos corredores, portas e pessoas. A outra está em conseguirmos preencher uma lacuna vital para a compreensão do todo, um pequeno detalhe que fica em um passado próximo, mas que “infelizmente” se passa antes do filme começar. E é daí que vem todo o suspense.

Dirigido por Ricardo Alves Jr. de uma forma aparentemente relaxada, mas que ao mesmo tempo mantém um controle de luz e sombra complexo que nunca deixará ninguém se perder. Sua câmera quase sempre segue Elon (Rômulo Braga), o homem em busca da esposa, a fugaz Madalena (Clara Choveaux), que não voltou do trabalho. Através dele vamos conhecendo então suas ligações com o mundo de sua mulher; a irmã que é dançarina de boate, o filho pequeno entregue ao ex; a sogra que parece ser a única a perceber algo de errado com o filho, embora não saiba o quê.

Embora Elon pareça fazer todo o percurso correto de quando uma pessoa amada some, e mesmo quando passamos a entender seu desespero a ponto de invadir a casa de sua cunhada, a única peça que parece não se encaixar nesse quebra-cabeças é sua aparente calma. Ou talvez faça parte daquele passado que citei: inalcançável. Mas se os desaparecimentos da mulher fizesse parte da rotina do casal, o que explica ele ir à delegacia apenas um dia depois de seu sumiço? Perceba como o roteiro nos entrega pedaços de informação flutuando no nosso inconsciente. Não se trata do que é dito, nem do não-dito, mas apenas das circunstâncias  .

Paralelo a esse trabalho do diretor, edição de som é tão precisa que ela se torna quase um personagem. É possível até dizer que se não fosse ela seria difícil acompanhar toda a ação, já que apesar de uma fotografia competente diante do desafio de filmar becos, salas e corredores sujos e mal-iluminados, há ainda muito não visto, apenas ouvido. E até o que é ouvido às vezes nem é realmente escutado, como quando Elon vai conversa com uma colega no serviço de Madalena, diante de máquinas ensurdecedoras. Quase não ouvimos o que eles gritam, mas conseguimos entender a mensagem. É esse tipo de pérola que deve ser buscada nesse filme.

Elon Não Quer Morrer Crítica

Já a atuação de Rômulo Braga (O Que Se Move) é precisa em não revelar quase nenhum traço de sua personalidade, exceto a incapacidade de sentir qualquer coisa, como se estivesse anestesiado ou drogado. Como se apenas reagisse à soma das percepções em sua volta, como um soco na parede durante seu exercício, e até em um momento extremamente sensual, em pleno ato sexual, que indica que ao menos através de seus corpos ele e sua mulher se entendiam bem. Mesmo assim, Elon se revela um homem quase meticuloso, como ao segurar os cabelos de Madalena enquanto ela pratica oral, ou até seu próprio ritmo ao retribuir a amada. É sensual, mas é mecânico. Assim como todo o filme é um suspense frenético, mas Elon permanece mecânico.

Ah, sim. Isso me faz lembrar. Elon Não Acredita… é um filme adulto. Claro, o motivo oficial é o sexo e a nudez. Mas o verdadeiro motivo, desconfio, é o café. Você irá entender quando acontecer. Sempre é o café; principalmente quente. Não é mesmo?


“Elon Não Acredita na Morte” (Bra, 2016), escrito por Ricardo Alves Jr, Diego Hoefel, Germano Melo, João Salaviza, dirigido por Ricardo Alves Jr., com Rômulo Braga, Clara Choveaux, Ricardo Alves Jr., Helvecio Alves Izabel, Francisco Loyola


Trailer – Elon Não Acredita na Morte

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