Elegia De Um Crime | Onde nada deveria funcionar como deveria


Elegia de um Crime me faz pensar na ineficiência de uma torneira automática de um banheiro público. Às vezes a água vem com uma pressão que acaba molhando tudo em volta, obrigando um funcionário estar constantemente secando. Às vezes ela esguicha por muito pouco tempo, obrigando quem a usa a ficar apertando o botão em vez de lavar a mão. O ponto é que, de um jeito ou de outro, aprendemos a conviver com sistemas que parecem ter surgido com defeito desde o começo.

Agora você deve estar se perguntando o que uma torneira ineficiente tem a ver com um filme sobre um assassinato hediondo. A torneira nada. A ineficiência tudo. Quando Cristiano, o diretor do filme, liga para a polícia com a localização exata do assassino foragido de sua mãe, a resposta é que ele deve ligar para outro setor da segurança pública, pois a pessoa do outro lado da linha é incapaz de ajudá-lo. E assim, como uma torneira com um defeito qualquer, o sistema parece nunca funcionar para o motivo pelo qual ele foi desenhado: lavar as mãos ou pegar criminosos.

O filme dirigido por Cristiano Burlan e escrito por ele e Ana Carolina Marinho é a terceira parte de três filmes chamados de “Trilogia do Luto”, e caminha para processar a perda irracional de um ente querido e ao mesmo tempo reconstruir a figura da querida Isabel, que apesar das poucas fotos, de acordo com seus familiares possuía o dom da beleza para sofrer na vida. Ela sofreu na vida, todos concordam, mas não é dito exatamente como, preferindo o filme manter essa vaga sensação de injustiça no ar.

A morte da mãe parece ser uma ferida recente que filho/diretor tenta abrir como uma maneira de reagir ao brutal acontecimento: sua mãe Isabel é morta anos atrás de maneira covarde, asfixiada pelo seu parceiro, que nunca foi preso; pesa a impunidade e um evento trágico não-concluído nas mentes e corações de todos envolvidos. A filha de Isabel comenta que sempre que alguém que não sabe do falecimento pergunta pela sua mãe ela precisa descrever em detalhes tudo o que ocorreu. Ela espera fazer isso o resto da vida. Pelo menos espera não esquecer até lá.

Da mesma forma Cristiano, já um diretor consagrado, com 14 filmes no currículo, deseja manter em memória de sua mãe um documentário sobre esses momentos. E felizmente ele o faz, pois o resultado constrói personagens da vida real que não são apenas autênticos, mas mais reais do que a ficção nunca será. Sua irmã é um pedaço de pessoa que todos nós já conhecemos. Os que moram ou já visitaram Minas, mais ainda. O sotaque mineiro e a cadência no falar revelam uma familiaridade machucada, traumatizada, mas que segue vivendo. É improvável que uma atriz conseguisse transparecer o trauma sem parecer condenada para o resto da vida. Essa é a virtude de filmar a vida real, ainda que editada.

Já seu irmão, ex-detento e reformado não pelo sistema, mas pela sua vontade de se corrigir (em parte pela sua mãe), é a ovelha negra clássica que constrói o também clássico arco do desajustado. Sua participação começa despretensiosa, mas logo se revela uma daquelas pérolas da vida real, onde o (in)esperado ocorre. Cristiano, mais uma vez, prefere não revelar detalhes da vida de seu irmão, mas apenas seu desfecho recente. Quando acontece no filme gera a ideia de ciclo sem fim. O ciclo da violência oculta.

Cristiano usa uma rima visual eficiente, tornando as pessoas próximas da câmera, ocupando toda a tela, nas cenas que lembram aqueles momentos que é como se a câmera estivesse desligada e as pessoas se soltassem para serem elas mesmas. Alternando entre o modo confessionário e o modo formal o filme vai tecendo uma narrativa poderosa que confia no poder da vida real. Auxiliado pelo teórico e crítico Jean-Claude Bernardet, que já trabalhou com o diretor como protagonista em Fome, existe em Elegia de Um Crime uma fina camada que separa realidade e ficção, tal como foi no filme onde Jean-Claude faz um mendigo que desistiu de sua vida de intelectual, ou levou-a até as últimas consequências. Aqui, lembrando de longe Cabra Marcado Para Morrer, as últimas consequências da impunidade é fazer um filme sobre o assunto.

Este é o último filme da intitulada “Trilogia do Luto” e sua história também utiliza alguns traços sociais, como a violência contra a mulher. Não se trata do tema principal, mas se algo que paira no ar, alimentado pelos depoimentos que Cristiano coleta para seu filme, principalmente vindo das mulheres e quando elas parecem menos naturais em seu depoimento. O único que parece dar seu depoimento de maneira completamente honesta e natural é seu tio, que além da sinceridade mantés os pés no chão: como uma mulher vai se defender dos canalhas da vida real?

A pergunta se mantém não-respondida durante todo o longa, mas vemos uma cena em que Cristiano treina dar tiros com uma pistola em um alvo inerte. Essa não é a resposta. Cristiano confessa que seu irmão e pai, se estivessem vivos, fariam justiça com as próprias mãos. Ele é incapaz. Seu jeito de se vingar é documentar tudo em um filme. E o jeito das mulheres se defenderem é denunciar essa violência. Tanto o filme quanto a denúncia parecem rasos demais. Principalmente quando Cristiano revela foto do assassino de sua mãe, por alguns poucos segundos. De aparência humilde, negro, ele não é um personagem no filme. O trabalho documental desaba um pouquinho no final ao percebermos que o realismo nem sempre é verdadeiro, mas construído. Mas quem irá criticar frente às injustiças da vida real, onde torneiras e policiais não funcionam como deveriam?


“Elegia De Um Crime” (Bra, 2018), escrito por Cristiano Burlan, Ana Carolina Marinho, dirigido por Cristiano Burlan, com Cristiano Burlan.


Trailer – Elegia De Um Crime

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