Ok… a Academia não é racista. Tudo bem, nós entendemos. Certo, a gente percebeu que vocês tem um monte de amigos negros, uma presidente negra e um apresentador negro… ahhh, também tem um monte de negros que participarão. Sim, a gente entendeu que vocês querem tocar no assunto durante a noite inteira… mas espera um pouco, isso ai só está corroborando, e essa piada é de mal gosto. Pô Academia, era melhor ter ficado quieta.

E se você passou por tudo isso do paragrafo anterior durante o Oscar 2016, saiba que você não foi o único. Tudo bem que enquanto não estavam falando do #OscarSoWhite até entregaram um monte de surpresas em meio àquele mesmo oceano de vencedores óbvios, mas talvez o destaque da noite tenha mesmo deixado o cinema de lado.

Chris Rock não só foi condescendente com o assunto, como preferiu esfregá-lo na cara de todos sem ele mesmo conseguir emplacar a sutileza que o assunto merecia. Criticar apenas Jada Pincket Smith para tocar no assunto boicote é de uma covardia que deixou claro o quanto o Oscar não percebeu que tinha razão dentro do assunto. Como eu disse em um outro texto, a culpa é de Hollywood, mas a Academia se defendeu tanto que é impossível não achar que quem se sente culpada é ela.

Ao invés de encarar o problema real, Chris Rock e a Academia preferiram fingir que todos outros são racistas enquanto Rock encarnava ele mesmo os piores esteriótipos. Acertou ao entender que se tivessem que homenagear um negro, Hollywood seria capaz de festejar o Jack Black, mas não entendeu que a solução do problema não seria colocar um negro no lugar de um urso ou de uma transgênero dinamarquesa, e muito menos ensinando uma branquela a limpar o chão. Nem por um segundo, por exemplo, tentou entender porque Divertida Mente não é estrelado por uma família negra.

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Quem realmente ganhou o Oscar

Mas essa hora você já deve estar cheio de ler sobre isso e ainda não ter lido nada sobre os vencedores da noite, e deve até estar revoltado por eu não ter dito ainda que Spotlight – Segredos Revelados perdeu de todo mundo em quase tudo, mas ainda assim saiu da premiação com o Oscar de Melhor Filme. E isso é tão complicado de entender que não sei se não seria melhor deixar de lado.

O filme sobre a equipe de jornalistas do Boston Globe não pode ser acusado de não ser merecedor, já que é sim um filmão, bem feito e pertinente, mas é complicado de entender como ele poderia ser o “melhor filme do ano” sem conseguir ganhar de ninguém nas principais categorias da premiação. Não que o acúmulo de Estatuetas faça o vencedor, mas ganhar só de Melhor Roteiro e levar depois Melhor Filme é difícil de entender.

Pelas contas do Oscar, Spotlight – Segredos Revelados não tinha a melhor atriz coadjuvante do ano, também não tinha o melhor ator coadjuvante, não tinha a melhor montagem, tampouco tinha o melhor diretor. Já as atuações principais, nem ao menos foram indicados, assim como nenhuma categoria técnica teve a presença do “melhor filme do ano”.

Por outro lado, O Regresso e Mad Max: Estrada da Fúria fizeram bonito em tudo aquilo que se esperava deles. Enquanto o Oscar estava discutindo as categorias técnicas, não tinha para ninguém e o filme de George Miller levou tudo que viu pela frente. Já quando o assunto passou para o lado “mais artístico”, Iñárritu foi embora com a estatueta de Melhor Diretor, seu diretor de Fotografia ficou com o premio da categoria e, enfim, Leonardo DiCaprio, depois de quatro indicações enfim ganhou seu Oscar.

E ainda sobre O Regresso, é bom lembrar que tanto Iñárritu quanto Lubezki (diretor de fotografia), não só levaram o prêmio, como entraram para a história. O diretor mexicano se tornou apenas o terceiro cineasta da História a emplacar duas estatuetas em anos consecutivos, antes dele só Joseph L. Mankiewicz nos anos 50 e John Ford na década anterior. Já Emmanuel Lubezki, em sua oitava indicação, se tornou o primeiro diretor de fotografia a ganhar três prêmios seguidos (levou em 2014 por Gravidade e ano passo por Birdman).

A impressão que fica é essa mesma, de que Spotlight levou Melhor Filme, mas os grandes ganhadores da noite foram mesmo Mad Max e O Regresso.

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Stallone e Morricone

No resto da noite, entre prêmios óbvios, como para Divertida Mente na categoria de Animação, Brie Larson de Melhor Atriz e O Filho de Saul entre os Filmes Estrangeiros, é impossível não olhar para o resto da noite com sentimentos tão opostos diante de duas das estrelas mais comentadas da noite do Oscar 2016.

De um lado, mesmo com uma torcida que muito provavelmente fazia frente àquela pela vitória de Leonardo DiCaprio, Silvester Stallone acabou ficando sem seu tão merecido Oscar. Em seu lugar, Mark Rylance, de Ponte de Espiões, ficou com o prêmio. Ganhou o trabalho quase minimalista do ator inglês ao invés da atuação de Stallone que deixava exposta sua alma e entregava ao filme um sensibilidade sem igual. Talvez o Oscar (e seus votantes) tenham perdido a oportunidade de, não só homenagear a carreira de Stallone, como fazer o mínimo de justiça com Creed, ignorado pela premiação do ano.

Do outro lado, em termos de homenagem, o gênio das trilhas sonoras Ennio Morricone enfim levou seu Oscar depois de cinco indicações ao Oscar, sem contar todas vezes que foi ignorado enquanto marcava a história do cinema com Sergio Leone e seus faroestes (sem contar o magnífico trabalho em Era Uma Vez na América, também ignorado).

Sem dúvida uma chance de homenagear duas propriedades do cinema. Sobra então a torcida para que Stallone volte a ser lembrado e enfim possa então ter a homenagem que merece.

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Enfim….

Em meio a todas poucas surpresas e questões difíceis de entender, talvez a mais esquisita de todas tenha sido a nova ordem de premiação. De acordo com a Academia, a ideia seria acompanhar e premiar o filme do jeito que ele vai sendo feito. A ideia então seria começar a noite premiando onde tudo começa, os Roteiros.

Na sequência obvia, chegariam as Melhores Atrizes Coadjuvantes e depois Atores, certo? Não, errado! Entre as moças e o rapazes foram dez categorias e uma hora e pouco de cerimônia. Difícil entender como funciona essa ordem, e mais difícil ainda não pensar o quanto, como é de se esperar, as mulheres devem mesmo estar em um horário menos nobre dentro da noite de premiações.

Mas do mesmo jeito que muita gente nem deve perceber o quanto Chris Rock, vestido em seu smoking branco fez tudo que Hollywood mais queria da Academia, ao não encarar o problema e só ficar afagando o preconceito como se fosse um amigo triste no canto da sala, muita gente não vai enxergar a diferença entre as premiações de atores e atrizes. E quem não conseguir entender isso, talvez contar a quantidade de mulheres que subiram ao palco da premiação seja um bom exercício.

Portanto, não se preocupe, o Oscar passa, mas os problemas ficam.

E confira aqui a lista completa de Vencedores do Oscar 2016

PS: Deixando de lado as categorias de Atriz e atores, foram sete mulheres subindo ao palco contra 31 homens. Obviamente nenhum negro.

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