Doutor Sono | Revisita e aproveita todas oportunidades


Continuar um clássico é sempre uma tarefa ingrata. Stephen King escreveu Doutor Sono com a intenção óbvia de contar uma história, uma nova história, mas que, ao se atrelar a uma de suas maiores obras, O Iluminado, ganha uma série de camadas e possibilidades. O mesmo acontece agora quando o filme chega aos cinemas, com Mike Flanagam enxergando essa mesma oportunidade… mas acredite, o barulho é muito maior.

O tamanho dessa gritaria vem, justamente, de um conflito histórico: King por anos não suportou a versão de Kubrick, afinal ela é completamente diferente de seu livro. E aqui abrindo um parêntese necessário, O Iluminado de Kubrick é um dos maiores clássicos do cinema, mas com certeza ele se distancia da obra literária por mais ego do cineasta do que por necessidade. Dito isso, King tinha toda razão de ter ficado chateado na época, afinal, aquele era um baita final bom e o Kubrick bagunçou a coisa toda.

A maior curiosidade de toda essa história é Doutor Sono, agora, ter a possibilidade de corrigir essa bagunça. E o faz, nem que para isso, ironicamente, destrua completamente o final original das páginas de King. É também essa obsessão revisionista que, por mais que faça sentido e funcione, talvez seja a única coisa que atrapalhe o ritmo de Doutor Sono. Flanagan, que também escreve o roteiro, parece preferir o final explosivo e hollywoodiano do que aquele que manteria o ritmo de seu filme.

Por mais que, verdade seja dita, revisitar o Overlook Hotel do jeito que é feito, seja uma delícia para os fãs do filme original.

Mas voltando ao começo de tudo, Doutor Sono acompanha Danny Torrence, agora adulto e vivido por Ewan McGregor. Mas aquele garotinho que enfrentou o hotel inteiro não existe mais, seu destino o colocou muito mais perto de seu pai: alcoólatra, perdido e ainda perseguido por aqueles mesmo espíritos que quase o mataram algumas décadas atrás.

Seu caminho o leva até uma cidadezinha que o adota e onde ele passa a trabalhar em uma casa de repouso, o que serve para batizar o livro e o filme. Mas mesmo com sua iluminação enfraquecida e esquecida, Danny ainda mantém contato com Abra (Kyliegh Curran), uma garotinha que descobre seus poderes e começa a se comunicar com ele através da parede do quarto dele.

Os problemas começam a acontecer quando a terceira ponta desse triângulo, o Verdeiro Nó, um grupo de uma espécie de “vampiros de iluminados”, descobre Abra e vai em busca dela, obrigando Danny a enfrentar essa mistura de ciganos com hippies vindos de algum estado eleitor do Trump.

Tanto King não economiza linhas e arcos de seus personagens (como vem fazendo nas últimas década), se preocupando muito mais com um ponto alto e emocionante dentro de uma história humana e sensível, quanto Flanagan entende isso e cria um filme com uma personalidade impressionante e muito mais preocupado com quem está vivendo a história do que com alguma cena de terror assustadora ou qualquer tipo de ação. Doutor Sono tem um ritmo próprio e que funciona diante daquilo que ele é: um drama com pitadas de fantasia e terror.

Danny está enfrentando tanto seu passado, quanto seus fantasmas interiores, fechando em caixas suas aflições e medos, mas entendendo o quanto precisa encarar todos esses fantasmas para ajudar as pessoas ao seu redor. Pisar no Overlook mais uma vez é então a oportunidade de encarar seu pai uma última vez e entender sua verdadeira batalha. Do outro lado, o Nó busca a vida eterna, o poder e um sistema fechado onde seus integrantes tenham a oportunidade de ter uma família.

E não estamos falando de uma série de significados escondidos e sugestionados, tudo isso fica bem claro em Doutor Sono e são esses arcos que você acompanha, não uma “Jornada do Herói” que poderia ser bobinha com Danny recobrando seus poderes e enfrentando o Nó em uma versão dos X-Men. Grande parte da ação acontece na mente desses personagens, e acredite, para isso se manifestar ninguém precisa cerrar os olhos e tocar o lado da cabeça.

King sempre trabalhou com a mente sendo um construto coerente com o mundo do lado de fora, e Flanagan entende perfeitamente a ideia. A “parte de dentro” não é onírica e lisérgica, mas sim um mundo precisamente distorcido e fantasioso, quase como o “mundo dos sonhos” de Freddy Krueger. Portanto, Flanagan têm a oportunidade de misturar delírio com realidade, enganar, divertir e fazer um filme plasticamente intenso e interessante.

Flanagan ainda ganha uma ajuda considerável do elenco, tanto bem caracterizado, quanto à vontade e poderoso. Mcgregor é preciso e consegue equilibrar tanto a intensidade e a dor de sua doença, quanto a força de enfrentar seus inimigos e fantasmas, assim como encontra a sensibilidade de lidar com esse terceiro lado de seu personagem enquanto acompanha os últimos momentos dos idosos. Portanto, é uma pena que esse lado, muito mais explorado no livro, acabe ficando um pouco de lado no filme, já que as possibilidades eras enormes.

Do lado de lá, no Verdadeiro Nó, a Rose “Chapéu” de Rebecca Ferguson é uma força da natureza. A violência de seus olhos consegue conviver perfeitamente bem com o medo e a incerteza do final do segundo ato. Seu lado “vilão clássico” convive extremamente bem com a sensibilidade e a atração quase sensual de sua personagem, exercendo esse poder sutil no Verdadeiro Nó como uma líder equilibrada e assustadora. Ao lado dela, o “Corvo” de Zahn McClarnon e um soldado eficiente e uma ótima oportunidade para conferir o trabalho desse interessante ator que “roubou a cena” na série da HBO, Westworld.

King não escreveu Doutor Sono para corrigir filme nenhum, seu livro é uma homenagem a talvez sua maior obra. Recorre a ela para “matar as saudades” dos fãs e ainda criar uma mitologia interessante e renovada. Mike Flanagan aproveita a corrida de Hollywood por adaptações da obra de King depois do sucesso de It: A Coisa para fazer a mesma coisa com o clássico de Kubrick.

Uma revisita que não perde a oportunidade de acompanhar o “velho Danny” pelos corredores, ou colocando a cara na fresta da porta criada por seu pai e um machado. Flanagan até brinca de Kubrick com a câmera chicoteando o ar junto com o golpe desse mesmo machado. Se corrige um “erro histórico” e isso parece pretensioso, tudo bem, porque a personalidade de um filme único e a diversão de todas referências fazem o esforço valer a pena.


“Doctor Sleep” (EUA, 2019), escrito e dirigido por Mike Flanagan, com Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Zahn McClarnon, Emily Alyn Lind e Cliff Curtis


Trailer do Filme – Doutor Sleep

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