Dirigido pelos experientes irmãos Dardenne, o longa francês Dois Dias, Uma Noite é uma obra que vai muito além de sua trama de frente. Funcionando simultaneamente como um estudo de caso daDois Dias, Uma Noite Poster psique humana, assim como – e principalmente – uma crítica ao capitalismo, o filme se posiciona como um dos mais interessantes e complexos trabalhos de 2014.

O longa conta a história de Sandra (Marion Cotillard), uma mãe de 2 crianças pequenas, que, após sofrer uma forte crise depressiva, é demitida logo que volta ao trabalho. Ao ficar sabendo da forma como sua demissão ocorreu – através de uma votação em que os funcionários podiam optar por 1.000 euros de bônus ou mantê-la na empresa -, Sandra, com a ajuda do marido e de outros funcionários consegue que uma nova votação seja marcada. Com o objetivo, então, de mudar a opinião dos colegas que escolheram o bônus, Sandra vai à casa de cada um dos votantes no decorrer do final de semana.

Partindo desta simples proposta, o trabalho dos Dardenne explora com intensidade as reações, observações e opiniões de todos os envolvidos na votação. Assim, nos deparamos com um microverso que em muito espelha aquilo que vemos em nosso dia-a-dia. Desde aqueles que não se importam nem um pouco com os outros (os colegas que nem quiseram atender Sandra quando esta bateu em suas portas); passando por aqueles que se compadecem, mas que, mesmo assim, não abrem mão de algo seu para ajudar o próximo; e chegando, em fim, àqueles que percebem que um mundo em que todos vivam bem é muito melhor do que um mundo onde uns vivam “ótimo” e outros passem necessidade.

A escolha pela bonificação de “apenas” 1.000 euros também é um tiro certeiro do roteiro – também escrito pelos irmãos Dardenne. Veja que, embora 1.000 euros seja um bom dinheiro, ao mesmo tempo não é nenhuma fortuna que vá mudar a vida de alguém. Então é sintomático que quando – vários – dos votantes sugerem que “precisam” daquele montante (“Vamos comprar uma TV nova!”), isso automaticamente soe mesquinho e egoísta. Ainda assim, o longa faz questão de acrescentar um caso em que as razões da pessoa parecem ser completamente compreensíveis, mostrando que nós também precisamos analisar as situações caso a caso para evitarmos a posição fácil de que todas as pessoas são más e gananciosas.

Tudo isso, no entanto, não teria o mesmo impacto se as reações dos empregados não fossem refletidas na figura central do filme, Sandra. Contando com uma performance estelar de Marion Cotillard – que merece todos os prêmios deste ano -, Sandra é uma figura complexa e real, nunca se portando simplesmente como uma coitadinha que necessita da pena de seus colegas. E isso é fundamental não apenas para nos identificarmos com a protagonista, mas também para que toda a análise feita através das decisões de voto de cada trabalhador seja verossímil e palpável.

Dois Dias, Uma Noite Crítica

Para enfatizar a nossa ligação com Sandra (e sabendo que podem tirar proveito da excelente atriz que têm em mãos), os Dardenne usam e abusam de longas planos sem cortes em que a câmera simplesmente permanece estática em Sandra. As tomadas, uma mais marcante que a outra, nos fazem sentir mais do que observando Sandra, acabam nos fazendo ser Sandra ao acompanhar suas mais mínimas reações. Assim, a personagem de Cotillard funciona como o pilar de todo o estudo feito no longa e suas múltiplas camadas são o cerne tanto de nossa identificação com ela, como para a validação de tudo que ocorre.

Conseguindo acrescentar detalhes intrigantes no já interessantíssimo conceito explorado na trama, é curiosíssimo como todos os colegas que dizem não ao seu pedido de votar para que ela mantenha seu emprego, chamam-na, após ela se despedir e virar as costas, para dar alguma explicação ou justificativa. Algo que pode ser interpretado como a consciência deles aflorando…ou ainda como eles tentando dar uma desculpa para si mesmos, para não ficarem com a consciência pesada.

De toda forma, Dois Dias, Uma Noite é cheio destes momentos, detalhes e pormenores que permitem-se ser minuciosamente analisados e destrinchados e que, assim, acabam tornando o filme tão rico. Por este e todos os outros motivos acima citados, este longa francês é uma obra imperdível que, até para os que não gostarem dele, será fonte abundante de temas para acaloradas discussões.


“Deux Jours, Une Nuit” (Fra, 2014), escrito e dirigido por Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Saleé, Olivier Gourmet e Christelle Cornil.


Trailer – Dois Dias, Uma Noite

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