Doidas e Santas | Brega … só isso mesmo, brega

Doidas e Santas Filme

Doidas e Santas é um filme brega (bem brega mesmo!) que usa o caminho do convencional e do preguiçoso, dando mais uma vez a entender que novelas em formato de filme soam cada vez mais antiquadas. E nesse caso é só olhar para os créditos iniciais e finais, com uma trilha sonora da programação televisiva da madrugada (ou de um bar decadente) e os letreiros em tons azuis e bordô para descobrir o quanto é evidente que a sala de cinema se transformou em uma máquina do tempo que nos joga para os anos 80. Felizmente os viajantes devem perdem a memória após a sessão.

Ele conta a história de Beatriz (Maria Paula), uma terapeuta de casais e escritora de sucesso de livros de auto-ajuda que dão dicas (ou regras) de como ter felicidade em um relacionamento a dois monogâmico tradicional classe média alta. Aparentemente é algo bem difícil, como vemos pelos testemunhos dos casais que se consultam com Beatriz, mas principalmente pela história da própria Beatriz, que vai perdendo o marido e a filha conforme se dedica por inteiro à suas duas profissões, gerando o poderoso clichê da vendedora de ideias que ela mesma não consegue colocar em prática em sua vida.

O resto do filme vai caminhando quase episódico, embora suas pontas vão sendo juntadas de maneira equilibrada. Sabemos que tudo que vai acontecendo é para que Beatriz perceba que está indo no caminho errado para manter sua família, mas ela própria parece nunca mudar seu jeito, e aos poucos isso vira exatamente o que uma novela faz: diálogos que vão expressando o que os personagens sentem, pois eles mesmo não conseguem realizar nenhuma ação que expresse o que estão sentindo. E isso é justamente o que roteiristas deveriam odiar no Cinema: dizer em vez de mostrar. Dizer por dizer é mais simples ler um livro (talvez de auto-ajuda).

Para colorir um pouco mais a história e dar um ar moderno temos um conjunto de personagens mais ou menos descartáveis. Sua mãe, dona Elda (Nicette Bruno), é a “velha esclerosada” que tem por função deixar Beatriz nervosa com sua imprevisibilidade e seu jeito cuca fresca de ser. Beatriz fica em pavorosa quando Dona Elda se aventura em um samba na mangueira às vésperas de um jogo do Brasil versus Argentina (aparentemente no país do futebol e do samba, ou você gosta de futebol ou de samba). Nicette Bruno infelizmente é desperdiçada em um papel que quase não lhe dá liberdade de atuar.

No conjunto também temos a filha pré-adolescente que já tem dois namorados, Marina (Luana Maia), e usa apliques coloridos no cabelo que mudam de cor a cada cena. Mais um motivo para que Beatriz fique com os nervos à flor da pele. Seu marido, Orlando (Marcelo Faria), vive fazendo pouco caso da sogra e nem se preocupa mais em dar satisfação à sua esposa, já que ela vive em seu próprio mundo onde ela é perfeita e tem tudo sob controle.

Mas estava falando sobre dar um ar de moderno, certo? Bom, para isso temos a irmã de Beatriz, Berenice (Georgiana Góes), que é uma natureba militante dessas que viaja o mundo tentando salvar o planeta e em busca de boas energias. Isso é realmente moderno… nos ano 80. Ah, e ela também existe só para deixar Beatriz fora de controle.

Doidos e Santas Crítica

Aparentemente o roteiro de Martha Medeiros e Paulo Thiago (que assina a direção) resolve criar uma trama jogando personagens em volta de uma protagonista neurótica que irá colocá-la à prova e fazê-la analisar sua posição no mundo, e como muitas vezes caímos na armadilha de dizer aos outros o que fazer enquanto nós mesmos não o fazemos. Este é um tema forte, e embora a trilha sonora ocasional – de humor e de drama – não perceba isso (talvez tenha sido encomendada com pressa), o diretor percebe. Isso o faz rechear o filme com câmeras circulares, dessas que rodeiam os personagens sentados em uma mesa ou em pé no centro. Tudo isso para que o mundo gire em volta de Beatriz, porque é isso que ela enxerga. No entanto, o artifício logo se torna repetitivo demais (sem contar petulante!).

Além disso, a insistência em fazer-nos ohar para Beatriz revela o ponto mais fraco do filme: a “atriz” Maria Paula. Sua atuação praticamente inexiste. Ela está dizendo diálogos, em alguns momentos se esforça além do necessário, mas nunca consegue criar a imagem da Beatriz que esperamos ver. Beatriz não existe no filme. Maria Paula sim.

Ela é divina, alta, esbelta e com quase cinquenta anos é mais um dos milagres brasileiros, Mas seu tom de voz nunca muda, suas expressões são um enigma e até quando precisamos entender o que está acontecendo, como por exemplo a única vez que a vemos escrevendo seu próximo livro, ela se torna um exagero caricatual para compensar a falta de expressão.

Nada disso teria muita importância se a história nos envolvesse, mas nunca envolve. Ela é clichê, brega, novelística demais para conseguir chamar a atenção. É um passeio inconsequente pelas praias do Rio de Janeiro e pelas suas ruas absurdamente cenográficas (incluindo o morro). Não é um filme que dê raiva. É apenas uma curiosidade que passa e acaba, e nem nos lembramos por que estávamos aqui mesmo.


“Doidas e Santas” (Bra/Arg, 2016), escrito por Martha Medeiros, Paulo Thiago, dirigido por Paulo Thiago, com Maria Paula, Georgiana Góes, Flávia Alessandra, Jonas Bloch, Roberto Bonfim


Trailer – Doidas E Santas

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