É uma história que aparece na ficção, mas que se repete à exaustão nos documentários e reality shows do mundo da muda: há pouco tempo e muito para fazer, será possível realizar tudo? Temos aqui The September Issue, Project Runway e com Dior e Eu não poderia ser diferente.

Dando continuidade ao ideal máximo da moda como símbolo de glamour, Dior e Eu documenta a chegada de Raf Simons à maison Dior. Vindo da moda masculina e sem qualquer experiência com alta costura, Simons tem a responsabilidade de apresentar uma coleção em oito semanas para uma plateia de grandes nomes da moda, representando uma das maiores marcas de luxo do mundo. É o legado de Christian Dior em jogo.

Este legado acompanha boa parte do filme, que, além de documentar esta história presente, aproveita-se do passado ao puxar citações e relacionar momentos atuais à lembrança, com base na autobiografia de Christian Dior. O filme é pontuado por gravações antigas do estilista em sua maison e por citações tiradas diretamente do livro, narradas como se fossem ditas pelo próprio Dior.

Dior e Eu Crítica

Apesar de seguir a fórmula de behind the scenes, Dior e Eu traz um frescor em sua estrutura e em seu planejamento. Além da bela relação do presente com o passado, o clima que o filme cria é familiar, não competitivo ou puramente comercial. As diversas entrevistas com costureiras e costureiros que permanecem na maison por décadas quebram a ideia de que a moda é apenas um negócio como outro qualquer e confere humanidade à coisa. Em Dior e Eu não se fala de preços, qualidade de tecidos e trabalho duro: se fala de arte, de intimidade, de amor. Todos ali parecem genuinamente envolvidos e apaixonados por seu trabalho. E é por isso que a quebra do desfile parece ainda mais dura.

Quando terminam as roupas, os costureiros não mais as vêem, e o desfile finamente pensado – numa casa antiga, toda coberta de flores no interior – é assistido pelos criadores e criadoras das roupas por uma fresta, bem longe dos lugares de honra. Dior e Eu estabelece a ideia de que a maison é familiar, mas que família mantém entes queridos de fora num momento tão importante? O documentário levanta este tipo de questionamento, mesmo que sem intenção, e causa estranhamento que não haja qualquer manifestação para respondê-lo.

Assim, o filme se torna um tanto contraditório, mas cumpre seu papel de manter a moda em seu status tradicional: um patamar superior, ao qual poucos têm acesso de verdade.


“Dior and I” (Fra, 2014), escrito e dirigido por Frédéric Tcheng


Trailer – Dior e Eu

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