Você já ouviu falar do Teste de Bechdel? Idealizado pela cartunista norte-americana Alison Bechdel em 1985, a fórmula é simples: para passar neste teste, um filme, deve 1) ter no mínimo duas personagens femininas que 2) conversam 3) sobre algo que não seja um homem. Parece simples, mas é impressionante o número de filmes (que, muitas vezes, contam com uma boa personagem feminina, como Os Vingadores e Círculo de Fogo) que não cumprem essa “regrinha” básica.

É fácil perceber, portanto, que mesmo integrando, nos Estados Unidos, 51% da audiência que frequenta salas de cinema (de acordo com dados de 2011 da Motion Picture Association of America), a presença feminina nos filmes em um papel de destaque – ou seja, sem ser delegada à posição de “namorada do herói” ou “mocinha em perigo” é pequena. Em 2013, As Bem-Armadas, estrelado por Sandra Bullock e Melissa McCarthy, foi o único filme a estrear no verão norte-americano (a época dos principais lançamentos) protagonizado por mulheres.

Por outro lado, Hollywood também vêm percebendo que filmes liderados por mulheres podem fazer – e fazem – sucesso entre a audiência como um todo. Em 2013, Jogos Vorazes: Em Chamas ultrapassou Homem de Ferro 3 e se tornou o primeiro filme protagonizado unicamente por uma personagem feminina (e não em um papel coadjuvante de destaque, como Hermione Granger em Harry Potter, ou dividindo o espaço principal com um homem) a chegar ao topo das bilheterias desde O Exorcista, no distante 1973 – há 40 anos. Em terceiro lugar, outro filme liderado por mulheres: Frozen, primeira animação da Disney a trazer duas protagonistas femininas – que fez história ao tornar-se o primeiro filme dirigido por uma mulher (Jennifer Lee, ao lado de Chris Buck) a ultrapassar 1 bilhão de dólares na bilheteria. Gravidade, liderado por Sandra Bullock, terminou o ano em sexto lugar. O site Jezebel notou que filmes que passam o Teste de Bechdel lucraram mais, em 2013, do que os que o reprovam.

Para celebrar o Dia Internacional da Mulher, portanto, listamos 10 personagens femininas dos últimos 10 anos, ou seja, personagens que estrearam nas telonas de 2004 até hoje. Assim, além de homenagear as grandes mulheres que habitam o universo cinematográfico, destacamos também as protagonistas do cinema atual que, ainda majoritariamente masculino, têm ganhado cada vez mais destaque e mostrado que, afinal, mulheres são tão complexas e diversificadas quanto qualquer ser humano, e que suas histórias são universais.

As personagens (todas protagonistas) estão listadas pela ordem cronológica dos filmes que estrelam, do mais antigo para o mais recente.

Elizabeth Bennet (“Orgulho & Preconceito”, 2005)

“Homens são dominados ou pela arrogância ou pela estupidez. Se eles são amigáveis, são tão facilmente manipuláveis que parecem não ter nenhum tipo de mentalidade própria”

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Esta não é a primeira e nem a última versão do clássico de Jane Austen, mas Keira Knightley deve permanecer como a Elizabeth Bennet definitiva. Provavelmente a mais popular heroína da escritora inglesa, o longa de estreia de Joe Wright faz jus à personagem. Uma jovem alegre e calorosa mas também introvertida e que aprecia a própria companhia, Lizzie decidiu nunca prender-se a um casamento sem amor, e sua jornada de filha mais velha que a mãe teme será uma “solteirona” a Sra. Darcy é realizada bem o suficiente para que esta não seja uma história clichê – apesar de clássica. Austen viveu em uma época em que as mulheres ainda eram desprezadas como escritoras (o que ainda acontece – vide o desmerecimento de gêneros dominados por escritoras do sexo feminino), e se preocupou em criar heroínas complexas, interessantes e inteligentes, mas bastante variadas entre si.


Lee Geum-ja (“Lady Vingança”, 2005)

“Todos cometem erros. Mas se você comete um pecado, você tem que se redimir”

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É claro que não é só o cinema ocidental que origina excelentes personagens femininas. Nesta narrativa de vingança e redenção, a sul-coreana Lee Young-ae interpreta uma mulher que permanece na prisão por treze anos por um crime que não cometeu. Finalmente liberta, Geum-ja busca a filha que foi tomada dela, agora vivendo com uma família australiana, e planeja vingança com o homem responsável por sua prisão. O filme do genial Park Chan-wook, talvez seja a menos conhecida obra da Trilogia da Vingança (formado por esse, Mr. Vingança e Oldboy), mas é um espetáculo visual e narrativo que merece ser conferido.


Shosanna Dreyfus (“Bastardos Inglórios“, 2009)

“Marcel, meu querido, nós vamos fazer um filme. Especialmente para os nazistas”

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Como o primeiro volume de Kill Bill foi lançado em 2003, A Noiva é inelegível nesta lista, mas as icônicas protagonistas de Quentin Tarantino não poderiam ficar de fora e, aqui, são representadas por Shosanna Dreyfus, única sobrevivente de sua família, morta pelo coronel da SS Hans Landa quando ela era adolescente. Já adulta e vivendo sob o nome de Emmanuelle Mimieux, ela administra um cinema em Paris e, ao ter seu estabelecimento escolhido para sediar a première de um filme sobre um atirador de elite do exército alemão, ela usa a oportunidade para bolar um grande plano de vingança contra os nazistas, que inclui matar Hitler. Seu plano é posto em prática em uma belíssima sequência que inclui Shosanna se preparando como um soldado para a batalha com direito a pintura de guerra e, claro, os frames que ela insere no filme alemão, em que ela revela para a plateia que eles serão mortos por uma judia.


Lisbeth Salander (“Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres“, 2011)

“Pode concordar, porque é verdade. Eu sou insana”

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O escritor sueco Stieg Larson criou, em 2005, uma das mais interesses personagens femininas da ficção, a brilhante e introvertida hacker que protagoniza a trilogia Millenium. Lisbeth chegou às telonas inicialmente na pele de Noomi Rapace que, mesmo fazendo um trabalho competente, foi prejudicada pela realização fraca da adaptação sueca da obra. Nas mãos de David Fincher, o filme de 2011 conseguiu superar o livro de Larson, e Lisbeth finalmente ganhou um filme a sua altura. Interpretada de forma impecável por Rooney Mara, a protagonista é uma mulher que tenta se distanciar do mundo e das outras pessoas ao mesmo tempo que expressa sua personalidade através de suas chamativas roupas, piercings e tatuagens, e suas motivações são claras – vale destacar, também, que sua bissexualidade é tratada com naturalidade pela narrativa. Uma personagem fascinante que, infelizmente, talvez não termine de contar sua história, já que faz tempo que não há novidades sobre a produção da sequência do longa.


Mavis Gary (“Jovens Adultos”, 2011)

“Às vezes, para que você possa se curar… algumas pessoas têm que se machucar”

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Todas as histórias da roteirista Diablo Cody têm mulheres como protagonistas, e suas personagens são multifacetadas e diversificadas, tanto no cinema quanto na telinha – United States of Tara, sobre uma mulher com transtorno dissociativo de identidade, era conduzida por uma ótima performance de Toni Collette, e deixou saudades quando o canal pago Showtime cancelou a série depois de três temporadas. O roteiro mais recente de Cody, dirigido por Jason Reitman, traz Charlize Theron como uma escritora de livros para jovens adultos que, na adolescência, era a garota mais popular da escola, e que continua se prendendo àquela época. Sem um grande arco dramático, Theron abraça toda as nuances da personagem e não se preocupa em torná-la simpática ao espectador.


Alike (“Pariah”, 2011)

“Eu não estou fugindo. Estou escolhendo”

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Nunca lançado no Brasil, Pariah é o primeiro longa-metragem de ficção da cineasta Dee Rees, que assina o roteiro e a direção. Negra e lésbica, Rees conta a história de uma jovem também negra e lésbica – algo pouco visto em um filme do gênero coming-of-age que, tratando da complicada passagem da adolescência para o início da vida adulta, ainda é reservado principalmente para garotos brancos e heterossexuais. Ambientado em um Brooklyn mergulhado em cores fortes em uma fotografia belíssima, Alike, interpretada por Adepero Oduye, é uma lésbica “masculinizada” que se esconde da família, com quem tem uma relação conturbada. Ao decorrer do longa, ela passa a se aceitar mais e a se esconder menos. A trama é realista e lida com situações importantes da adolescência de jovens LGBT, e acerta ao mostrar que, às vezes, a melhor opção é deixar um ambiente opressor.


Katniss Everdeen (“Jogos Vorazes“, 2012)

“Deve ser um sistema frágil se pode ser derrubado apenas com algumas amoras”

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Depois de se voluntariar para ir no lugar de sua irmã mais nova para a arena dos Jogos Vorazes, Katniss Everdeen encontra-se na posição de símbolo de uma revolução para derrubar o opressor governo de Panem. A jovem é, provavelmente, a maior heroína do cinema atual e, como protagonista da série de filmes baseados nos livros de Suzanne Collins, entrou para a história ao alcançar, com Em Chamas, o topo da bilheteria, algo que não acontecia com um longa protagonizado unicamente por uma mulher desde O Exorcista, em 1973. A personagem é interpretada por Jennifer Lawrence, que faz um belo trabalho de tirar do papel as complexas situações e emoções que Katniss enfrenta.


Maya (“A Hora Mais Escura“, 2012)

“Se bin Laden não estiver lá, vocês podem sair de fininho e ninguém vai ficar sabendo. Mas bin Laden está lá. E vocês vão matá-lo para mim”

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Livremente inspirada na agente da CIA que dedicou sua vida a encontrar bin Laden, Maya pode ter um objetivo controverso em um filme sobre uma questão delicada, mas o importante sobre a personagem não é que ela caça e, finalmente, é responsável pela morte de um terrorista. É raro encontrarmos, no cinema, uma mulher definida por seu trabalho, que luta obsessivamente por algo sem pedir desculpas, e sem ser subjetivada a interesses românticos que não se encaixam na história. Jessica Chastain, uma das melhores atrizes em atividade atualmente, acerta ao apostar em uma performance mais sutil e repleta de nuances, o que dá ainda mais complexidade a esta fascinante personagem.


Kate Hannah (“Smashed: De Volta à Realidade”, 2012)

“O amor é a parte fácil. Sabia disso? É todo o resto disso tudo que é difícil”

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Lançado no Brasil diretamente em DVD, Smashed conquistou o festival de Sundance, impulsionou a carreira do diretor James Ponsoldt (que assina o roteiro ao lado de Susan Burke), e muitos apontaram a protagonista Mary Elizabeth Winstead como uma provável candidata aos principais prêmios da temporada. Um retrato realista da jornada de uma alcoólatra desde a realização de que a bebida virou um problema até a sobriedade, Smashed não recorre ao melodrama e é um pequeno grande filme que Winstead carrega com força, coragem e sensibilidade, criando uma personagem multifacetada que vai muito além de seu vício.


Elsa (“Frozen: Uma Aventura Congelante“, 2013)

“Um movimento em falso e todos irão saber”

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A heroína de Frozen é a adorável e destemida Anna – uma princesa adequada a um filme realizado em 2013 -, mas não há dúvidas de que o destaque do último longa de animação da Disney é mesmo a rainha Elsa. Além de cantar a melhor canção do filme, a mega-popular “Let it Go”, o arco de Elsa traz à tona questões como individualidade, discriminação, ansiedade, empoderamento e, claro, a importância da família. Uma das melhores e mais complexas figuras já criadas pelo estúdio, Elsa é uma personagem feminina cuja existência é bem-vinda para meninas e mulheres de todas as idades. Para a dubladora de Elsa, Idina Menzel, a rainha “simboliza todos nós que seguramos tanto dentro de nós, com medo – principalmente nós, mulheres – de disparar todo o nosso poder, temendo que as pessoas não gostaram tanto de nós, que distanciaremos os outros. É sobre abraçar e cultivar isso, e ‘deixar ir’; é uma ótima mensagem, especialmente para jovens garotas.”

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

2 Respostas

  1. Ale

    Sou apaixonada por protagonistas femininas fortes. Katniss é a minha preferida com certeza <3

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