Dheepan – O Refúgio | Onde a violência faz a guerra ser desnecessária

Dheepan - O Refúgio Filme

A Sri Lanka é uma ilha bem ao sul da Índia. Obteve sua independência da coroa britânica há mais de meio século, e desde a década de 80 participou de dois processos diametralmente opostos: o crescimento econômico pela liberalização do mercado e cerca de cem mil mortos em uma guerra civil de 25 anos contra o norte e leste do país. Atualmente é uma democracia consolidada e a mais antiga da região, mas não faltam acusações de que houve durante essa guerra um verdadeiro genocídio, ou pelo menos um massacre desproporcional.

A França é uma nação em relativa paz por mais de meio-século. No entanto, sua política de altos gastos em bem-estar social mantém seus centros urbanos como pequenos paraísos, enquanto marginaliza e pune a população periférica, que vive na periferia das cidades sob constante medo da violência causada pelo comércio de drogas. Lá impera mais a lei das máfias que controlam o pouco que possuem, mais do que qualquer tipo de autoridade governamental. Lá a guerra civil sequer existe, pois é desnecessária.

Dheepan – O Refúgio consegue ignorar todos os detalhes sócio-político-econômicos do tempo e espaço onde se passa sua história por um ótimo motivo: ele se inspira nas Cartas Persas, textos imaginativos do Barão de Montesquieu, que usou da literatura para comparar os valores de duas civilizações bem distintas. O filósofo viveu no século 18, mas isso não impediu o criativo diretor Jacques Audiard de contar uma história de imigração e adaptação de três pessoas sob a ótica de uma lenda Persa.

Auxiliado no roteiro por Thomas Bidegain e Noé Debré, a história narra a saída do Sri Lanka da aflita Yalini (Kalieaswari Srinivasan), da jovem Illayaal (Claudine Vinasithamby) e do guerrilheiro (e guerreiro) Dheepan (Jesuthasan Antonythasan). Dheepan enxerga com os olhos da derrota a queima dos corpos de quase todo seu exército após sua última batalha, e junto de Yalini arrumam uma garota para se fazer passar por uma família que possui passaporte para saída do país. Embarcam, então, em uma jornada rumo ao desconhecido, um gueto em algum lugar da França onde prédios de um condomínio se posicionam em dois conjuntos: de um lado moradores pacatos, de outro gangues que comercializam drogas e aparentemente a ministram no próprio lugar, quartos escuros e bagunçados.

Dheepan - O Refúgio Crítica

O detalhe é que Dheepan, Yalini e Illayaal não se conheciam, e agora fingem ser marido, esposa e filha indo morar onde o pai de família irá trabalhar como zelador da parte pacata da vizinhança. No entanto, Yalini começa a trabalhar para um senhor inválido do outro lado da “fronteira”, que é tio de um ex-líder de gangue, recentemente solto da prisão. Enquanto isso, a pequena Illayaal, a visão da esperança no filme, é uma jovem esperta e que tenta se adaptar com as outras crianças na escola, enquanto tenta manter a harmonia em seu lar adaptado. Todos os três são vistos como pessoas estranhas entre eles, mas a beleza de Dheepan é que flutua no ar a sensação de aos poucos se unirem por um bem-comum e invisível: a paz que tanto almejam. E, importante ressaltar, diferente de todos os seus vizinhos, seus valores são os mesmos, pois vieram de uma realidade que compartilharam.

E compartilhar a realidade e os valores é algo difícil de ser conseguido naquela vizinhança. Acuados em um país estrangeiro onde não falam sua língua, nem entendem seu senso de humor, os cingaleses lutam para prosperar em meio a uma versão em minuatura da guerra civil não-declarada entre gangues de diferentes facções. O filme tem toda a calma do mundo para ir explorando as diferenças culturais e de valores, justamente como esperaria um Barão de Montesquieu do século 21. Um exemplo: enquanto tentam matricular a “filha” na escola, precisam responder quem incendiou a escola onde ela estudava em sua terra natal, como se não fosse óbvio que foi o governo, já que é “sempre o governo que incendeia escolas”.

Jacques Audiard não deseja tornar explícito quase nada do que está acontecendo, e sempre vemos a realidade pelos olhos do trio principal. O pouco que há de interação direta com o outro mundo não é possível pelas diferenças de cultura e idioma, sendo que nem o balançar de cabeça dos cingaleses é compreendida. No entanto, é através dessa incompreensão que reside a força de Dheepan – O Refúgio, pois assim como em Babel ( de 2006), a falta de valores comuns é a maior barreira para nossa melhoria como seres humanos.


“Dheepan” (Fra, 2015), escrito por Jacques Audiard, Thomas Bidegain e Noé Debré e dirigido por Jacques Audiard, com Jesuthasan Antonythasan, Kalieaswari Srinivasan, Claudine Vinasithamby e Vincent Rotteirs.


Trailer – Dheepan – O Refúgio

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