A única esfinge presente na mitologia grega é um demônio e se assemelha a um leão alado com cabeça de mulher. Presente na peça Édipo Rei, Ela olha onipotente para os mortais que desejavam passar e desfere seu famoso enigma. Para os que não o decifram, ela os devora. O enigma tem relação com as diferentes fases na idade do homem, mas para acertar você precisa descobrir que a criatura aparentemente disforme, que muda de patas durante o dia, é o próprio homem. Não por acaso, Demônio de Neon em sua primeira cena, ou melhor dizendo, em seu primeiríssimo quadro, mostra uma jovem de beleza estonteante deitada em um divã ao som de uma música estilo dance psicodélico, empolgante e ao mesmo tempo grandioso, revelando todos os passos de como este filme deve ser desvendado.

A moça aparentemente está morta, pois escorre sangue de seu braço até o chão de vidro com um tom rubi. Apesar de trágica, a cena permanece belíssima enquanto a câmera, nossos olhos, se afastam, como em fascinação. E o novo filme “de grife” do diretor Nicolas Winding Refn (Drive) parece explorar justamente essa fascinação que temos, tanto do belo quanto do horrível. Muitas vezes ao mesmo tempo.

E que melhor universo para retratar isso do que o mundo das modelos, acostumadas a conviver, como uma personagem diz, com um prazo de validade curtíssimo, e disputar a atenção de seus mestres – seja um fotógrafo ou estilista – e sendo objetos passivos aguardando serem escolhidas ou rejeitadas em um piscar de olhos, ou às vezes nem isso.

Pois é justamente essa posição que privilegia a beldade que vimos no primeiro minuto de filme. Elle Fanning é a queridinha de Hollywood que faz a garota do interior que tem o sonho de se tornar alguém na cidade grande e no mundo da fama, em moldes semelhantes o que fez Naomi Watts em Cidade dos Sonhos (aqui, além de se passar também em Los Angeles, há claramente referências e homenagens ao filme de David Lynch). Nesse caso, porém, esse é apenas um papel que ela deve desempenhar enquanto aspirante a modelo, mas logo vemos que ela já sabe que tem uma pele, um rosto e um corpo que não podem ser ignorados nem mesmo pelos seus mestres mais exigentes, e, claro, nem pelas suas concorrentes mais ferozes. Porém, seu caminho é fácil, pois os deuses da genética foram generosos com seu físico. Dessa forma, o filme se configura uma viagem para ela e um passeio para nós, embora a história de Refn crie tensão apenas pela condição que ela está, e não onde ela quer chegar.

A personagem de Fanning, Jesse, esconde sua arrogância bem escondido através de sua aparência inocente, mas se revela em um ataque certeiro quando ameaçada, e certeiro no sentido que não sabemos tratar-se de maldade direcionada de Jesse ou apenas ingenuidade de uma moça recém-chegada do interior. Para o momento não importa. O que importa é que, durante esse processo de descoberta, isso acaba desagradando uma modelo que conheceu em uma festa durante uma conversa de banheiro e que responde à moça de uma moeda muito mais cruel, apelando para sua carência de pais, revelando ao mesmo tempo a insegurança da modelo e que, apesar de ter feito no mesmo dia uma amiga maquiadora fascinada por sua pele (a ótima Jena Malone) descobre que não existem muito segredos no mundo da moda, já que qualquer informação obtida pelas colegas poderá ser usada contra ela.

Demônio de Neon Crítica

Apesar de utilizar referências e homenagens ao estilo que pretende utilizar – onde até 2001: Uma Odisseia no Espaço parece ter sua parcela – o filme escrito a várias mãos não se resume em repetir os clichês da área da moda, apesar de reconhecer sua influência até em filmes mais recentes como Mapa para as Estrelas. Esse clima de deslumbramento e fantasia é pintado para explorar o interior desses corpos divinamente arranjados pelos seus donos, mas evita apelar, por exemplo, para o uso de sexo para subir na vida. Se trata de algo muito pior: de fazer qualquer coisa para subir (e permanecer) na passarela.

E a passarela, essa entidade viva, símbolo pelo qual as beldades precisam se sacrificar e lutar a todo custo, é vista quase como um ser dotado de desejos ritualísticos. Ele possui um símbolo iluminado ora de azul, mas eventualmente de vermelho, e tem por objetivo maior a aceitação do espelho, do ego, da aparência definitiva. A aparência, ou beleza, como bem observado por um outro personagem, não é apenas tudo: é a única coisa. A maior moeda de troca, e talvez a única realmente válida e eterna. Nesse mercado de beleza, todos sabem quando algo é falsificado ou é autêntico.

Há diferentes visões na narrativa de Demônio de Neon que alimentam com simbolismo de cores e músicas um aspecto não apenas onírico, mas temático. O trabalho do diretor é assinado como uma coleção de outono (quando as folhas morrem) e azul e vermelho seguem um padrão simples, mas poderoso. Um ambiente azul (paz, inocência) sempre pode se tornar vermelho (perigo, o mal), assim como os ambientes onde se tiram as fotos e se faz o teste de desfile são amplos, sugerindo riqueza, opulência, divindade, enquanto as salas de preparação das modelos, assim como a moradia da protagonista, é escura, apertada, feia.

A maior virtude do filme é vir embalado em uma viagem sensorial fascinante, com enquadramentos de encher os olhos e música de encher os ouvidos. Ironicamente, se analisado como metalinguagem, pode acusar a própria “hipocrisia” do espectador em se deliciar com um trabalho feito por uma equipe que trabalha para entregar o máximo de prazer no audiovisual. Pense nisso quando estiver elogiando a entrega total da atriz X ou do ator Y e verá que o filme não se resume em um trabalho específico do mundo da moda. A arte exige sacrifícios que pessoas estão dispostas a correr e espectadores dispostos a assistir.

Talvez por isso todo o filme dê essa sensação de estranheza ou incômodo. Aliás, é bom avisar: há cenas realmente fortes na conclusão. Afinal de contas, não há maneira melhor de demonstrar os sacrifícios alimentares das modelos senão pelo clima visceral que os símbolos em Demônio de Neon nos entregam. E não há sacrifício alto demais para realizar uma rima simbólica com o próprio mito da Esfinge. Felizmente para nós, espectadores, isso é apenas um incômodo temporário e maquiado. Nosso único incômodo talvez seja ouvir a belíssima música de fechamento de Sia Furler com uma conotação… diferente do usual.


“The Neon Demon” (Fra/Din/EUA, 2016), escrito por Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham, dirigido por Nicolas Winding Refn, com Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee e Keanu Reeves


Trailer – Demônio de Neon

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Uma resposta

  1. Cuco

    Eu achei o filme bem interessante. E sua análise só enriqueceu as minhas interpretações.

    Responder

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.