por Wanderley Caloni
26 de março 2018 |

O estado de luto pró-ativo, ou limbo, é onde a personagem da agradabilíssima Juliette Binoche parece estar, devaneando em torno de inúmeros homens. Mas ela não morreu, nem seu companheiro. Não se trata de um detalhe da história de fato, mas uma das inúmeras metáforas que vamos colecionando no decorrer de Deixe a Luz do Sol Entrar. Vestida sempre de preto com detalhes escuros ela se senta eternamente nessa montanha russa de emoções aguardando por alguém que a preencha.

Como os recorrentes momentos que a vemos como uma passageira olhando pela janela sugerem. Essa visão que a diretora Claire Denis nos faz captar por insistência serve tanto como a figura de uma mulher que aguarda, às vezes de maneira impaciente, ser levada para a felicidade, e ao mesmo tempo a óbvia passagem do tempo, e como o acúmulo de experiências apenas evidencia a falta de um final para seu problema de solidão.

Ao buscar alguém que se importe, mas onde todos parecem aparecer em sua vida com uma falta de sincronia angustiante, ela quer amar e ser amada, mas não consegue se fazer entender. A interpretação de Binoche é de uma mulher madura e sexy incapaz de encontrar o verdadeiro amor. Os homens que ela encontra são narcisista hedonistas ávidos em projetar seu ser e bem-estar na pobre mulher que chora sozinha todas as noites.

Este é um filme bem francês, se é que me entende. Ele conta com uma trilha sonora discretamente melancólica e tons sisudos da fotografia exaltam a cor da pele das pessoas, ou a luz que reflete sobre elas. Há um quê de Godard em subverter a linguagem cinematográfica esperada, buscando aquele real do dia a dia, dos cafés de Paris. Qualquer um que já tenha pulado entre diferentes relacionamentos em tempo recorde, ou os vivido ao mesmo tempo, entende essa insegurança de não estar aproveitando seu tempo ao lado de alguém significativo. Todos parecem temporários, mas o pior: incompletos.

Deixe a Luz do Sol Entrar Crítica

Essa é a maneira que Binoche vive, e daí toda sua tristeza existencial serve de filtro para analisar seus relacionamentos. Em um momento, um banqueiro acostumado a mandar em pessoas e que manipula sua amante como manipula um barman enquanto faz pedidos específicos demais para satisfazer seu mimado ego. Já em outro, um ator frustrado consigo mesmo por não conseguir se despedir de sua esposa e de seu casamento falido, ao mesmo tempo em que não consegue simplesmente calar a boca e beijá-la. Os momentos entre os dois no filme são os mais exemplares de como um relacionamento não deve começar nem continuar. A surpresa fica por conta do final, onde Gérard Depardieu aparece em um personagem de fechamento.

Deixe a Luz do Sol Entrar é um filme com ótimos diálogos que discutem o que é estar junto com alguém pra valer, mas que ironicamente não consegue sustentar o diálogo tempo suficiente para estruturar nossos pensamentos. E, com isso, vai se tornando caótico e ruma em direção ao esotérico, o que o torna ofensivo como resposta a uma busca tão sincera de Binoche.


“Un Beau Soleil Intérieur” (Fra, 2017), escrito por Christine Angot, Claire Denis , dirigido por Claire Denis, com Juliette Binoche, Xavier Beauvois, Philippe Katerine e Gérard Depardieu.


Trailer – Deixe a Luz do Sol Entrar

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