Degradê é um filme onde o seu começo é o melhor momento para suas personagens. E olha que nem é tão bom assim. Seguindo seu título à risca, a situação vai gradualmente de um dia quente e ensolarado para uma noite de pesadelos.

E tudo isso fica por conta de onde a ação se passa: uma zona de guerra no Oriente Médio. Não fosse isso, o apertado salão de cabeleireiros seria apenas uma reunião cotidiana entre as mulheres do bairro. E se fosse em uma região menos religiosa e tradicionalista, com certeza as conversas girariam mais em torno de amenidades, como seus maridos, em vez do tema constantemente voltar para política e regras sociais. Bom, talvez até por falar de política, os seus homens acabam sendo eventualmente tema das discussões.

Há apenas um homem relevante no filme. E um tigre. Eles parecem símbolos do que ocorre lá fora, mas no fundo nem são tão importantes assim. Escrita e dirigida pelos irmãos gêmeros Arab e Tarzan Nasser, a história vai mostrando através dos diálogos as diferentes personalidades e modos de enxergar a vida dessas cerca de dez mulheres enquanto aguardam seus cabelos serem cortados. Eu poderia enumerar cada uma delas pelas suas particularidades (ou pelo menos as mais importantes), mas este não é um filme que tenta exatamente contrapô-las para gerar conflito. Já há conflito de sobra lá fora. Se trata apenas de uma visão panorâmica de como é o dia-a-dia nessa região onde, controlados por diversos grupos paramilitares, tiroteios e bombardeios são constantes. Há até uma fala em que uma das mulheres explica a situação geopolítica da região. Apesar de soar didático às vezes, o filme funciona mais do que erra.

Ele funciona, por exemplo, pela decisão dos diretores de usar sempre câmeras na mão e muito próximas de quem está falando, em um exercício de malabarismo fantástico, já que, cercados de personagens em diferentes níveis de altura, distribuídas por um lugar pequeno e cheio de espelhos, fica impossível entendermos qual foi a logística aplicada para conseguir filmar com tanto dinamismo os diálogos entre elas. Isso já começa em uma das primeiras cenas, onde vemos a preocupação de uma das cabelereiras de três ângulos distintos: de costas e de frente para dois espelhos, onde em um deles podemos observar o rosto das outras clientes aguardando.

Se isso já é um esforço técnico impressionante, a coisa fica muito mais desafiadora quando a escuridão toma conta do recinto e os cortes começam a ficar cada vez mais rápidos. O trabalho de edição de Sophie Reine e Eyas Salman é paranormal, como se nós estivéssemos presentes junto com elas, e isso um filme onde praticamente toda a ação se passa em apenas um lugar e ainda assim evita repousar sua câmera, sempre preferindo circular pelas diferentes interações daquelas mulheres, que vão se conhecendo de uma maneira orgânica, compartilhando dores, desejos, esperanças e, principalmente, lamentações.

Degradê Crítica

E por falar em esperança, há uma noiva no recinto. Ela aguarda ansiosa pelo seu penteado para a cerimônia, mas não se priva de lamentar que sua sogra (sentada logo atrás do lado de sua mãe) a odeia. Toda conversa que é iniciada parece que acaba sendo comentada pelas beiradas por uma mulher faladeira no grupo, mas o que passa despercebido, e que torna o filme mais fluido ainda, é que existem diferentes conversas acontecendo ao mesmo tempo, e mesmo que sejamos distraídos por uma que pergunta qualquer entre os bancos de espera, o fio da meada parece nunca se perder, ou se ele se perde, parece menos importante do que acompanhar toda aquela interação como um todo.

Porém, ao chegar no fim, vemos que se trata mais de uma experimentação cinematográfica do que da tentativa de explorar algo novo nesta guerra interminável na região. Se trata de explorar como algo inofensivo, como um salão de cabeleireiro, pode ficar, dependendo da situação externa, mais alterado do que imaginaríamos. Ou talvez seja assim com todos os seres humanos vivendo sob uma constante pressão e estresse, sem expectativa nenhuma de melhorar sua vida no local que é chamado de inferno várias vezes no filme. Escolha se tom nesse degradê de sentimentos e veja com qual se identifica mais.

Degradê parece garantir implicitamente que todos eles existem nas diferentes pessoas reais que habitam esse inferno mais do que real: fatal.


“Dégradé” (Pal/Fra/Qat, 2015), escrito e dirigido por Arab Nasser, Tarzan Nasser, com Hiam Abbass, Victoria Balitska, Manal Awad, Mirna Sakhla, Maisa Abd Elhadi


Trailer – Degradê

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