Custódia | Obrigatório porque é real

Custódia Crítica

Custodia é um filme obrigatório. Simples assim. É possível listar aqui um número enorme de qualidades, mas ele ser obrigatório vai ser sempre a maior delas. E “obrigatório”, porque é real. Violentamente real.

Essa realidade vem desse cinema francês que foge do glamour e chega na mesa bagunçada da juíza no começo e da impressão de cotidiano comum com que o diretor Xavier Legrand observa essa história (e o faz como um veterano, mesmo sendo seu primeiro longa). Vem também do tema, infelizmente, tão comum a tanta gente no mundo.

O filme começa com essa juíza, o foco é nela, mas história parece ser desse casal ainda sem face, apenas representado por seus advogados. Uma separação que levou a uma briga judicial pela custodia dos filhos. De acordo com a representante da mãe, tanto o filho quanto a filha concordam com ela a respeito do tanto de afastamento possível do pai acusado de violento.

Mas Legrand, que também escreve o roteiro, não escolhe o caminho mais fácil. Enquanto observa a indignação do pai diante de tal afirmação, aos poucos vai colocando o espectador em uma cilada onde talvez esse homem não seja quem você espera ser. Não tomando um lado, mas simplesmente demonstrando que, às vezes, nem sempre tudo é simples e pragmático à primeira vista.

Sua câmera acompanha os personagens sem tomar um lado. Primeiro olha para essas duas crianças e tenta tirar delas qualquer dica que facilite a vida do espectador. Na sequência, olha essa mãe que parece fugir de uma violência que não cabe nas ações que a cercam. Por fim, Legrand entra no carro desse pai indo e vindo enquanto passa os dias com o filho, situação determinada pela juíza. Mas, por mais que tudo pareça corriqueiro, existe algo que entrelaça essa trama com um tipo de ruído. Uma sujeira que começa a manchar tudo.

Enquanto desce até o chão para observar a filha fazendo um teste de gravidez no banheiro, não está preocupado em demonstrar o que ela está sentindo, mas sim fazer com que você sinta por ela. E esse é a principal qualidade de Custódia: não te contar uma história, mas fazer você vivê-la.

Custódia Filme

Observando o pai e o modo como seus próprios pais o oprimem, talvez você seja capaz de até se identificar com essa situação, mas isso só serve para criar um personagem ainda mais tridimensional e complexo. E a atuação de Denis Menochet (que será lembrado por muito por seu pequeno papel no começo de Bastardos Inglórios como o monsier LaPadite) é uma pérola lapidada através da violência. Como em tudo no resto do filme, nada simples, mas sim pequenas ações e decisões que o colocam na direção desse final explosivo.

Léa Ducker, por sua vez, cria uma mãe a todo tempo frágil e entorpecida pelo medo. Ao mesmo tempo se agarrando ao pouco de força que tem para proteger seus filhos e a si mesma. Quando dá um passo para trás diante do abraço do ex-marido e fica congelada diante de seu choro descontrolado, cria uma barreira, já que sabe onde tudo isso vai parar. Legrand também sabe e não permite que o espectador tire os olhos dela.

Opções sutis como quando mostra o pai carregando e descarregando o seu carro com uma arma. Não um close ou uma discussão sobre sua presença, apenas mais uma bagagem ou mala qualquer. A diferença é que o pai não irá usar um travesseiro para criar uma das sequências mais aterrorizantes que você passará no cinema esse ano.

Custódia caminha até se tornar um filme de terror real. E você deitado com a mãe e o filho no escuro do quarto te aproxima tanto da situação que é difícil não permanecer ainda no cinema pensando a respeito do que acabou de vivenciar enquanto a luz se acende e os créditos sobem.

Um filme obrigatório não só por ser uma experiência magnífica, visceral e verdadeira, mas também por se tratar de um assunto que precisa ser vivenciado e refletido por todos, quem sabe assim as impressões de uma juíza ou a complexidade das aparências não escondam mais os monstros que estão por ai prestes a fazer com que esse horror real caia sobre mais e mais famílias.


“Jusqu’à la Garde” (Fra, 2017), escrito e dirigido por Xavier Legrand, com Léa Drucker, Denis Ménochet, Thomas Gioria e Mathile Auveneux


Trailer – Custódia

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