Crô em Família | Risos fáceis e valores deturpados

Crô em Família Filme

A gente sabe por que existe Crô em Família, continuação do filme de 2013 que, por sua vez, é um spin-off da novelas das oito (… ou nove), Fina Estampa. Existe, pois dá dinheiro. Ainda mais em uma sociedade que carrega valores deturpados e ri de alguém somente por sele ser gay e afetado.

Sim, Crô só existe pelo riso fácil e preconceituoso. Sem ele, talvez a maioria percebesse o quanto aquilo ali parece um filme, mas na verdade é apenas uma “juntadão” de ideias que já funcionaram em um monte de lugares e que, aqui, não precisam nem fazer sentido.

Crô em Família não faz sentido.

Crô, vivido por Marcelo Serrado, que viveu o Juíz Sergio Moro em Polícia Federal – A Lei é Para Todos (o que demonstra que sua escolha para papeis não é sua melhor qualidade), agora é um empresário bem sucedido dono de escola de etiqueta. Aparentemente (não vi o primeiro), ele também agora é famoso e está se separando do ex-marido enquanto briga com ele pela guarda da cadelinha.

E ainda que a cachorrinha volte a ser interessante para a trama lá para o final, o filme é, na verdade, sobre uma família que bate à porta de Crô e se dizem ser seus parentes perdidos. Arlette Salles e Tonico Pereira, no auge de suas capacidades de viverem estereótipos preguiçosos, são o casal que pretendem dar um golpe em Crô.

O que vem depois disso é um amontado de situações que beiram o mau gosto e a falta de capacidade de fazer algo minimamente relevante. Quase não existe razão para você esperar o final do filme dentro da sala de cinema.

Um desfile enorme e descontrolado de personagens exagerados e que não fazem a mínima ideia do que estão fazendo ali. É lógico que, dentro do exagero, o roteiro escrito por Aguinaldo Silva (aquele das novelas) e mais cinco “co-roteiristas”, amarra as pontas, mas o faz de um jeito jogado e sem o mínimo de carinho.

Crô em Família Crítica

Tudo vai acontecendo sem amarras. A repórter vivida por Monique Alfradique entra na casa de Crô apontando que ela pode, “afinal é repórter”. Sua nova família não enganaria nem o mais imbecil dos personagens da ficção. Fabiana Karla vive uma “nova ricaça” que está lá na escola do Crô para aprender a ser chique, mesmo que isso não tenha nada a ver com o resto do filme.

E isso fica pior ainda quando Crô em Família resolver extrapolar a diegese e encontrar com alguns outros personagens gays da cultura pop atual do Brasil. O que demonstra que a vontade de ter um desfile de personagens na tela é muito maior do que a preocupação com uma trama que seja interessante para esses pobres coitados que pagaram ingresso para conferir esse filme.

O pior de tudo isso é que Marcelo Serrado faz um ótimo trabalho dentro da esquisitice preconceituosa com a qual o personagem foi pensado. Um equivoco conceitual que não o impede de permanecer forte dentro dele, custe o que custar.

Por outro lado, a presença de Cininha de Paula na direção já é sinônimo daquela câmera cansada e que só olha para os personagens como se tentasse satisfazer aquele pessoal sentado no sofá da sala esperando o Jornal Nacional acabar.

E talvez Crô em Família seja para esse pessoal, talvez até formatado de modo mais simples para a TV, ganhasse fôlego diante do riso preconceituosamente fácil e das soluções sem empolgação. Não diminuindo o “público de casa”, mas lembrando que, em casa, é mais fácil trocar de canal e ver alguma coisa mais interessante. Oportunidade que você não terá no cinema.

Texto faz parte da cobertura do Santos Film Fest 2018


“Crô em Família” (Bra, 2018), escrito por Aguinaldo Silva, Bruno Aires, Antônio Guerrieri, Virgílio Silva, Leandro Soares, Sergio Virgilio, dirigido por Cininha de Paula, com Marcelo Serrado, Arlete Salles, Jefferson Schroeder, Mel Maia, Fabiana Karla, Rosi Campos, João Baldasserini, Monique Alfradique e Tonico Pereira.


Trailer – Crô em Família

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