O Discurso do Rei

Vinicius Carlos Vieira 10/02/2011 0

Talvez não seja muita gente que perceba isso, mas o cinema é talvez a única arte onde, assim como o novo e o original, aquela “fórmula de bolo” pode ser apreciada por completo e se tornar um sucesso. O Discurso do Rei não empolga, não emociona, nem é um “saco de risos”, mas faz isso com tamanha propriedade e devoção que acaba se tornando uma história apaixonante.

Essa simpatia vem tanto da história de David Seidler, sobre o, estão príncipe do Reino Unido (vivido por Colin Firth), que, diante de uma gagueira acaba indo a procura de uma “terapia vocal” com o ator frustrado, mas especialista na área, Lionel Logue (Goeffrey Rush), quanto da enorme entrega dos próprios atores (principalmente essa dupla de protagonistas), mas, principalmente, pelo trabalho azeitado do diretor Tom Hooper, que vem da TV britânica, mas já tinha conseguido feito semelhante em termos de simpatia com sua estreia no cinema “Maldito Futebol Clube” (que pode ser achado facilmente por aqui nas locadoras).

Não que todas as glórias devam ficar para ele, nem o vão, mas a impressão que fica é que são suas opções estéticas precisas e firmes que dão a abertura precisa para todas outras engrenagens rodarem perfeitamente. Hooper brinca de distorcer sua imagem quase curvando-a sobre si mesma (efeito de uma lente grande angular), como se envergasse todos os olhares do mundo sobre o protagonista, esperando suas primeiras palavras serem captadas por esses enormes microfones que ganham status de personagens ao ocuparem alguns primeiros planos. Ao mesmo tempo, permite que seu “terapeuta vocal” não consiga, justamente, que ninguém fale com ele, que sua voz não seja escutada, como ator frustrado e nem como pai, porém, fazendo com que a devolução dela (voz) às pessoas seja seu ganha pão.

O Discurso do Rei aposta nessa dinâmica onde todos olhos apontam para o príncipe, que mais tarde se torna o Rei George VI e é obrigado a impor sua voz para seu povo diante de uma Guerra Mundial, e esse outro cara simples, vivendo em um mundo vazio, atendendo em um escritório/consultório decrepto, mas que é a única pessoa capas de dar essa voz para o protagonista. É lógico que na verdade, essa relação dos dois, essa impensável amizade que vai se formando, aos poucos extrapola o detalhe da gagueira, já que a procura do Rei não é por sua voz, mas talvez por um modo de fugir da sombra e da responsabilidade de seu destino.

Com isso em mente, Hooper e Seidler seguram as rédeas do filme para que ele, em nenhum momento, se torne “uma lição sobre deixar de ser Gago”. Seidler faz isso criando uma trama que caminha perfeitamente tanto entre os personagens quanto entre um momento histórico importante, dando a oportunidade de o espectador ver todo aquele panorama se formar, ao mesmo tempo em que o personagem cresce diante de seus olhos, ganha vida e é obrigado, eminentemente, a ficar de frente com o tal discurso do título.

Por outro lado, Hooper olha para seu Rei como uma pessoa frágil, que precisa descer ao nível mais baixo de suas concepções para descobrir como ser o líder que a nação espera, durante todo tempo Hooper coloca seu George VI sobrepujado por alguma coisa ou alguém, como se ele mesmo não conseguisse ter o controle sobre suas atitudes, até a esposa (Helena Bonham  Carter) parece ter uma personalidade que sobrepõe à dele, sem contar o irmão, que na primeira aparição a faz em um avião, como um herói do cinema que diminui George mais ainda, (sem esquecer do pai lhe pressionando para perder o medo do microfone e até o terapeuta, que o trata como um paciente qualquer). Seria simplista que o diretor aproveitasse tudo isso para esmagar seu protagonista, mas o que ele faz é o contrário, sobre tudo isso, seu George VI vence tirando forças desse mundo que parece o impedir de chegar em seus objetivos. É por isso mesmo, que, ainda que ela esteja lá durante todo tempo, essa gagueira, não é curada, mas sim seu dono que ganha forças para que ela não seja mais um problema em sua vida.

A dupla Hooper e Danny Cohen (diretor de fotografia) fazem ainda com que tudo isso ganhe uma visual plástico e cheio de estilo, sempre em busca de movimentos finos e leves, ao mesmo tempo em que há uma procura de composições fortíssimas, que se permitem ser apreciadas como pinturas, quase estáticas, com ângulos abertos e um zoom suave que parece não querer se livrar daquelas imagens. Isso, combinado com a certeza, não só do material que tem em mãos no sentido narrativo, mas, humano, já que um elenco extremamente competente faz “O Discurso do Rei” mais inesquecível ainda.

Na ponta, Colin Firth desaparece completamente por trás do protagonista, trabalhando nuances e detalhes sutis e que compõe um personagem riquíssimo. Se para muitas aquela gagueira pudesse formar um personagem quase cômico, o que Firth faz é exaltar mais ainda a humanidade daquele indivíduo com o esforço que ele parece ter para passar por cima disso, por outro lado, faz o mesmo quando consegue (seja em um discurso, seja contando uma história para as filhas) diminuir ao máximo esse problema. Diminuir, por que sua atuação fará todos terem certeza que ele não foi curado, mas apenas aprendeu a viver com aquilo.

O elenco se completa com a atuação segura do Australiano Geoffrey Rush, que se vê obrigado a criar um personagem do qual depende todo filme, já que é sua simpatia que não o faz ser mais um médico tentando curar o Rei, ao mesmo tempo em que é obrigado a compor para ele um personagem completamente avassalador, que deve impor seu respeito sobre um homem que “reina” sobre a maior parte do mundo. É claro que esse trabalho de minimizar um certo lado pedante dele é responsabilidade do diretor, que o faz perfeitamente bem (principalmente ao criar a dinâmica dele com a família, onde ele precisa descer desse pedestal), mas é nas mãos de Rush que esse “terapeuta vocal” se torna uma pessoa tão cheia de vida. Uma terceira ponta desse triangulo ainda sobra para Helena Bonham  Carter, que aparece pouco (provavelmente pois seu personagem desequilibraria a balança à favor do Rei, o que mostra ai mais um enorme acerto do roteiro e do diretor), mas faz um trabalho consistente e marcante.

O Discurso do Rei é equilibrado e caprichado, não deixa aparas e consegue contar perfeitamente bem uma história humana e interessante de modo bem humorado, otimista e sensível, uma fórmula que vai conquistar a todos e que, ainda por cima por ser real, só corrobora mais ainda com a idéia de que não existe coisa mais interessante que o próprio ser humano e suas histórias.


The King´s Speech (EUA/RU/Aus, 2010), escrito por David Seidler, dirigido porTom Hooper, com Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon e Guy Pearce


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