Entre Nós

Vinicius Carlos Vieira 11/11/2013 0

Entre Nós

É lógico que você já viu as duas premissas principais de Entre Nós em um punhado de outros filmes. Mas também deve saber que isso deixou de ser um problema há muito mais tempo que as primeiras vezes que o cinema filmou dois amantes de Entre Nós Posterfamílias rivais se apaixonado ou um grupo de personagens precisando passar por um monte de “aventuras” só para chegar em casa.

Entretanto, sem parafrasear Lavoisier (“… tudo se copia”), o novo filme de Paulo Morelli nem por um segundo tenta ser revolucionário, novo ou inédito, muito pelo contrário, parece apenas preocupado em contar uma história de modo sincero. E talvez não exista coisa melhor para o cinema do que fazer isso, principalmente quando se é feito de modo tão irreparável e cuidadoso.

Nele, um grupo de jovens amigos acaba sofrendo a perda de um deles, mas voltam a se encontrar uma década depois do acidente para desenterrar uma espécie de “capsula do tempo” enterrada em uma casa de campo. Uma caixa com recados escritos por eles mesmos, e que inclui ainda o do amigo morto.

Como é de se esperar, o reencontro não só serve para matar a saudades como também para trazer à tona antigos amores, fantasmas e o peso da culpa de um deles, por algo relacionado à morte do amigo. E o sensível disso tudo é perceber o quanto o roteiro (do próprio Morelli com o filho, Pedro, com o qual também divide a direção), mesmo tendo em mãos essa segunda premissa que arrasta um dos personagens, prefere permitir que, durante grande parte do tempo, somente o espectador desconfie dela e possa ler muito mais profundamente esse personagem. E ainda que isso fique claro desde o começo, não deixa de ser um spoiler e uma tentativa de permitir que quem entrar no cinema perdure com essa dúvida pelo maior tempo possível, ao invés de, logo de cara enxergar essa falha de caráter que acaba movendo-o e, ao fim, esmigalhando-o.

Esse desenvolvimento ainda só é possível graças a uma série de diálogos deliciosos, cheios de vida e com uma vontade de desafiar cada um daqueles personagens. Como um jogo mental em que cada envolvido se sente obrigado a participar enquanto esconde uma série de dores e incertezas que se criaram nessa década afastados. Isso, e um equilíbrio fantástico entre momentos sensíveis e um bom humor natural que soa tão verdadeiro que embala a história de cabo a rabo sem permitir que nada se torne presunçoso ou piegas, perigo que existiria diante da profundidade de cada oportunidade que o roteiro tem de ir à fundo em um assunto.

Entre Nós Filme

Todos esses acertos ainda são coroados com um elenco eficiente e uma direção que, além de trabalhar extremamente bem seus atores, ainda parece preocupado com o significado e a plasticidade de cada um de seus planos. Que embaça a foto tirada por eles dez anos antes, como se quisessem esquecer o passado, ou faz questão de deixar o tronco cortado da árvore sempre no ponto de fuga, lembrando que aquele grupo permanecerá incompleto para sempre. Cuidados com suas composições que entregam um filme extremamente bem acabado.

No outro lado dessa moeda, um elenco que, mesmo com um lado fraco como o de Carolina Dieckman e Paulo Vilhena (o segundo acaba incomodando muito menos, já que tem em mãos um personagem tremendamente sensível, e ele acaba defendo-o com honestidade), tem a sorte da presença do ótimo Caio Blat, se encarregando de um personagem tremendamente complexo (seu arco é carregado de uma profundidade enorme) e ainda do destaque da “mais desconhecida do grupo” Marta Nowill, extremamente à vontade com a personagem, dona dos melhores diálogos e se destacando em cada cena que surge.

E Entre Nós se resume a isso mesmo, personagens honestos, com arcos narrativos potentes, um diretor cuidadoso e uma história que vale a pena ser contada. E se faz isso diante de duas premissas comuns e “manjadas”, pelo menos faz isso bem.


Entre Nós” (Bra, 2013), escrito e dirigido por Paulo Morelli e Pedro Morelli, com Caio Blat, Júlio Andrade, Carolina Dieckmann, Martha Nowill, Maria Ribeiro, Lee Taylor e Paulo Vilhena


Essa crítica é parte da cobertura da Itinerância da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Trailer do filme Entre Nós

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