As Aventuras de Pi

Vinicius Carlos Vieira 17/01/2013 0

As Aventuras de Pi

Seria impossível discutir, mesmo que apenas superficialmente, As Aventuras de Pi sem qualquer tipo de spoiler. Portanto, se quiser fugir deles, fique sabendo apenas que o novo filme de Ange Lee (de O Segredo de Brokeback Mountain) é um intrigante e As Aventuras de Pi Posterplasticamente impactante drama sobre um jovem que sobrevive a um naufrágio em um barco salva-vidas acompanhado de um tigre-de-bengala.

E aqui começam os spoilers.

Intrigante, pois faz qualquer um sair do cinema tentando entender o que acabou de ver. Não por qualquer tipo de dúvida, mas sim por ter dado de cara com uma obra que se equilibra entre a dor, a esperança e a beleza.

Escrito por David Magee (mesmo do sensível Em Busca da Terra do Nunca), à partir do livro de Yann Martel, As Aventuras de Pi conta a história, justamente, do garoto Pi (Suraj Sharma), pela boca do adulto Pi (Irrfan Khan), enquanto narra sua história para um escrito vivido por Rafe Apall. Uma história que o fará acreditar em Deus, mas não pela fé e sim pela possibilidade de reescrever a dor e colori-la com tons de esperança.

É lógico que essa descoberta só acontece nos últimos momentos de filme, e ainda sobra habilidade para tanto Ang Lee, quanto Magee, não permitirem que essa “realidade” seja colocada em prova um segundo sequer. Principalmente, pois se aquilo não ocorreu “realmente”, aconteceu como caminho para o carma que o carregou até algum ponto do litoral mexicano quase sem vida.

As Aventuras de Pi é sim sobre esse caminho, sobre a transformação desse garoto em adulto, sobre uma fera interior que ele precisa domar antes de recomeçar sua vida. Um tigre que lhe deu força o suficiente para sobreviver esse tempo todo à deriva, que o acompanhou nessa jornada e que lhe deu coragem de cometer atos até antes impensados.

Lee então opta por esse deslumbre visual que diminui Pi diante de um enorme mundo, onde firmamento e oceano se confundem quase como se não houvesse um horizonte. Como se estivesse diante de um Deus misericordioso que lhe fizesse sofrer com todas provações cruéis que teve que passar, ao mesmo tempo em que o alimenta com peixes. Um Deus que pode ser Alá, Vixnu ou até mesmo aquele que enviou sua forma e semelhança para ser crucificado.

Mais importante que todos eles, assim como o próprio Pi, que de um modo delicioso e simpático acaba se “afiliando” a todas as religiões que dá de frente, As Aventuras de Pi é sobre a fé e a vontade de sobreviver que todos pregam. Independente do credo.

Mas sé parece óbvio que diante de tudo isso o filme acabasse se tornando uma pretensiosa propaganda religiosas, bem pelo contrário. O que ele faz é discutir até onde a verdade, nua e crua, precisa mesmo ser carregada pelo resto da vida. Pesada como uma cruz, mesmo diante da possibilidade de uma segunda chance.

As Aventuras de Pi

Lee monta então, com um belíssimo visual em 3D, uma história que se inicia com esse pequeno Pi tendo que viver em uma sociedade religiosas, repleta de divindades diferentes, dividido entre a fé da mãe e o pragmatismo ocidental do pai. Uma batalha que segue até o final de sua jornada, onde tem a oportunidade de escolher entre o que realmente aconteceu naquele barco e o que, igualmente real, aconteceu naquele tempo no mar. Não entre a fantasia e a realidade, mas sim entre duas verdades que se opõe.

É lógico que Pi passou por tudo aquilo, e quando Ang Lee retira de seu enquadramento qualquer, cor, símbolo ou detalhe enquanto o jovem conta essa verdade para os dois chineses, lá para o final do filme, o que ele tenta lembrar é que o que importa é a experiência. O modo como ele passou por tudo aquilo. Da tempestade à luz na manhã seguinte, da fome à fartura de peixes voadores, do medo de despertar uma fera (interior) à coragem de dormir calmamente com ela.

Lee, e consequentemente o a obra literária, vão em busca do universo que se cria nas profundezes do pacífico, da margem à mais profunda escuridão na qual acabam nascendo as estrelas e galáxias, como na boca de Vixnu. Pi ganha então a chance de dissolver seus pecados e sua culpa no ácido do centro de uma ilha (notem o peixe que ele comeu e o dente) na forma de um homem, como o próprio Vixnu (mais uma vez) deitado sobre uma serpente de mil cabeças, flutuando nas águas cósmicas. Nesse caso essa deidade ganha o nome de Narayana, sempre relacionada a uma espécie de oceano infinito e do fim de todas as almas e matéria inerte.

Um poço de simbolismos que Lee presenteia ainda com um visual estonteante, buscando sempre a surpresa de ângulos completamente inesperados (ainda mais em se tratando das poucas opções, afinal a maioria de tempo só tem aquele bote) e confiando todo seu visual ao um CGI (computação gráfica) que recria um mundo real (animais, oceano, céu etc.) e vai fazer todos saírem da sala de cinema boquiabertos. Mas principalmente por perceberem o quanto de significado a odisseia de um jovem que sobrevive a um naufrágio em um barco salva-vidas acompanhado de um tigre-de-bengala pode ter.


Life of Pi(EUA/Chn/Twn/, 2012) escrito por Yann Martel (livro), David Magee , dirigido por Ang Lee, com Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain, Tabu, Rafe Spall e Gérard Depardieu.


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