Corrente do Mal é a luz no fim do túnel para o cinema americano de terror. Gênero que já foi um dos líderes de bilheterias (muitas décadas atrás), o terror vem ano a ano sendo cada vez mais relegado a um mero nicho que, como consequência, vai gradualmente se pasteurizando.

O melhor exemplo disso talvez seja fazer uma comparação entre o novo Poltergeist (2015) e o antigo (1982). Embora os produtores do longa tenham tido em mãos os direitos da película original, apenas a ideia central foi reutilizada. Nada do que realmente faz o filme de Tobe Hooper um clássico está presente na versão “atualizada” que é Corrente do Mal, leia-se: nada do desenvolvimento de personagens verossímeis com os quais o público possa se identificar, nada do timing necessário para que você se envolva com os personagens antes dos eventos sobrenaturais começarem a ocorrer, nada da tensão criada por um universo sobrenatural ainda pouco explorado à época da filmagem do longa de 82.

No lugar disso vemos – muito! – (d)aquilo que (tenho que admitir) o público americano fã de terror realmente procura hoje: sustos. A versão 2.0 de Poltergeist pouco se importa em ser um filme, seu objetivo é ser uma “experiência de dar sustos” (nunca medo!) e para isso volume alto, coisas que aparecem de repente na tela e o uso pornográfico dos recursos 3D cumprem perfeitamente este papel.

Esta tendência tem feito com que, mais e mais, as listas de melhores filmes americanos de terror do ano se tornem uma verdadeira piada. E buscar terrores que realmente dêem medo é agora, como nunca havia sido antes, uma busca por filmes estrangeiros. Não que fãs do terror devam se limitar ao cinema dos Estados Unidos, muito pelo contrário, os cinemas asiático e europeu sempre foram igualmente fortes neste gênero. A diferença hoje é que, se você procura terror de verdade, o cinema da “terra do Tios Sam” praticamente não é mais uma opção. Algo, no mínimo, chocante.

É por isso que, vindo totalmente contra a maré, Corrente do Mal parece ser aquele fio de esperança que, possivelmente, pode vir a trazer uma nova onda de bons projetos ao tão carente repertório recente deste gênero em Hollywood. Aqui, seguimos a história de Jay, uma típica adolescente americana que vive uma vida pacata em uma pequena cidade americana até o dia em que, após uma transa, uma maldição é passada para ela. Seu “ficante”, antes de desaparecer de sua vida, revela – e demonstra – como tudo funciona: figuras estranhas – que ninguém vê, apenas ela – irão persegui-la e ela deverá evita-las a todo custo. Porém, para se livrar da maldição há apenas uma forma: ter sexo com outra pessoa, “transmitindo” assim o infortúnio adiante. Com sua vida virada de cabeça para baixo, Jay busca a ajuda de seus amigos para tentar achar uma saída e quebrar essa terrível corrente.

Corrente do Mal Crítica

A trama pode até ser simplória, mas a genialidade do filme está em sua execução e na abertura que a premissa dá para sequências absolutamente aterrorizantes. Construindo as tomadas de forma engenhosa, o diretor David Robert Mitchell – em conjunto com o cinematógrafo Mike Gioulakis – explora várias técnicas para incitar no público as sensações que deseja. Desde longos planos abertos sem corte para ressaltar a presença dos seres que perseguem Jay, passando por planos-sequência que realçam o desespero e o sentimento de “sem saída” da protagonista, e, por fim, utilizando-se também de planos fechados – com a câmera fixa – que salientam as reações de terror vindas da atriz Maika Monroe.

Esta, não por acaso, também é outro destaque do longa. Contando com um elenco que, embora não seja sensacional, é bastante eficaz, o longa tira total proveito da ótima performance de Monroe, além de ter o grande trunfo de possuir personagens não estúpidos, algo raro – na verdade, raríssimo! – em filmes de terror modernos. A combinação destes dois fatores nos faz acreditar e temer por aqueles jovens, criando um envolvimento que só faz aumentar nosso pânico nos momentos de terror.

Perspicaz nos detalhes, o filme faz várias referências a outras obras e a si mesmo durante a projeção. A brincadeira de infância de Jay, que ela revela ao seu ficante logo no início do longa quando eles estão em um cinema, é uma alusão inteligente ao que veremos no filme a seguir, já que o jogo se trata de observar quem está ao seu redor e imaginar que você é uma outra pessoa. Na mesma sequência, podemos ver que o filme em cartaz é o clássico Charada (1963), no qual uma mulher é perseguida por vários homens que querem a fortuna deixada por seu marido.

Entretanto, as múltiplas facetas e camadas do filme de forma alguma acabam aí, pelo contrário. Não deve passar despercebido o fato de que logo no início da projeção, Jay já é observada por outras pessoas, no caso, seus vizinhos pré-adolescentes. Dessa forma, é bastante clara a intenção do diretor de usar o projeto como forma de aludir ao mundo machista em que vivemos onde as mulheres são cotidianamente observadas e perseguidas. A maldição em si, no entanto, pode nos levar a outras correlações, sendo delas, talvez, a mais nítida, a AIDS. Uma “doença” que é passada através de relações sexuais, que não tem cura e que, mesmo que você se trate, o levará a morte. Assim, o filme acaba levantando várias questões interessantes, como a promiscuidade no mundo atual e, ainda, o que cada um de nós faria se pudesse passar adiante uma doença incurável para se livrar dela.

Não que tudo isso tire de Corrente do Mal o foco do que realmente importa em um filme de terror: o terror. Um aspecto que funciona terrivelmente bem e essas tantas camadas só surgem para agregar mais ainda seus valores.

Mas, além das qualidades já citadas, ainda há mais um ponto que merece imensurável destaque, sua a trilha sonora. Composta por Rich Vreeland (aqui em seu primeiro projeto no cinema), a trilha de Corrente do Mal beira a perfeição. Mesclando faixas que remetem aos anos 80 com sons graves e chiados nos momentos de tensão (e fugindo do clichê de repentinos aumentos no volume para assustar o público), o trabalho de Vreeland é sinistro nos momentos certos, leve quando necessário e, talvez o mais importante, discreto na maior parte do tempo. A transição entre cada um desses três estilos também é feita de maneira imperceptível, sempre funcionando de forma a ajudar a contar a história e o que vemos na tela sem nunca querer forçar sensações que deveriam vir naturalmente. É um trabalho primoroso que, por estar presente em um filme de terror e ter sido realizado por um ainda desconhecido, deve ser esquecido nas principais premiações. Mas isso de forma alguma o torna menos espetacular.

Por tudo isso, Corrente do Mal é um filme que não merece ser apenas visto. Ele merece ser visto e revisto diversas vezes. Se ele trará consigo uma nova onda de ótimos filmes de horror, isso é algo que apenas o tempo dirá. Porém, ele já tem garantido seu lugar entre os destaques desta década no cinema americano.


It follows (2014), escrito e dirigido por David Robert Mitchell, com Maika Monroe, Keir Gilchrist, Olivia Luccardi, Lili Sepe e Daniel Zovatto.


Trailer do filme Corrente do Mal

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