Negros, mulheres, gays e outras minorias bem sabem: há aquele preconceito escancarado, que leva à violência, à rejeição e à estereotipificação, e o preconceito velado, insidioso, que serve como base para tudo isso e ajuda a manter a discriminação contra tantos grupos viva até hoje, por mais que a sociedade pareça estar avançando em tantos pontos. “Eu não sou racista, mas…”. “Eu não sou machista, mas…”. “Eu não tenho nada contra gays, até tenho amigos que são!”. E Corra! nos faz pensar sobre isso.

São aquelas microagressões que, se contamos para alguém, podem até parecer bobagem. Somadas, entretanto, elas são fundamentais para a permanência da supremacia branca/masculina/cis/heterossexual, pois perpetuam a ideia de que mulheres e minorias são o outro, inferiores e diferentes do padrão. Corra! lida com situações desse tipo no contexto da experiência dos negros nos Estados Unidos — país que, no decorrer de sua história, desenvolveu um relacionamento particular com os afro-americanos, chegando ao ponto em que eles precisaram criar o movimento Black Lives Matter (“vidas negras importam”) para combater o assassinato (principalmente) de homens negros pelas mãos da polícia.

Mas o diretor e roteirista Jordan Peele aborda o assunto de maneira tão peculiar, tão criativa, tão perturbadora e tão acidamente crítica, que o resultado é um dos filmes de terror mais tensos, originais, divertidos e relevantes dos últimos tempos. Especialmente considerando o clima de profunda falta de empatia que vivemos hoje.

Antes de Chris Washington (Daniel Kaluuya), Rose Armitage (Allison Williams) nunca tinha namorado um negro. Depois de cinco meses de relacionamento, chegou a hora de ele conhecer a família da garota e, para tanto, os dois partem para um fim de semana na casa da família de Rose. Ali, Chris conhece os pais dela, a psicóloga Missy (Catherine Keener) e o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford), e seu irmão mais novo, o estudante de medicina Jeremy (Caleb Landry Jones). Antes de partirem, Chris confessa a Rose seu nervosismo sobre o fim de semana, pois sua namorada não havia contado para a família que ele é negro. O que eles achariam disso? Missy e Dean parecem felicíssimos e, como Rose havia antecipado, seu pai demonstra sua alegria ao declarar que, se pudesse, votaria em Obama por uma terceira vez. Mas, quando Chris conhece os dois empregados que moram na residência, o jardineiro — negro — Walter (Marcus Henderson) e a copeira — negra — Georgina (Betty Gabriel), nosso protagonista passa a se sentir um tanto desconfortável ali.

Contar mais do que isso é estragar a experiência fascinante representada por Corra!. Entretanto, o filme é muito mais do que suas reviravoltas e segredos, pois o roteiro de Peele é preciso e complexo. O cineasta estreante (e comediante experiente) sabe muito bem aonde quer chegar e como quer chegar lá. Assim, Corra! é repleto de simbolismos e elementos que, em uma próxima visita, tornarão o espectador ainda mais fascinado. Como todo bom thriller repleto de plot twists, o longa insere suas pistas de forma sutil — as reviravoltas chegam sem alarde para alterar os rumos da trama — e, após a sessão, é irresistível repensar a narrativa toda e redescobrir os significados dessas pistas.

Peele também se mostra um cineasta surpreendentemente seguro e ambicioso. Ao longo de todo o filme, o clima de tensão é praticamente inescapável — assim como Chris, não sabemos exatamente o que está acontecendo, mas podemos sentir que há algo errado. Assim, até mesmo a imagem de alguém comendo cereal e tomando leite se torna perturbadora em seu contexto. Um jogo de bingo remete a outra situação muito diferente. O surgimento de um carro da polícia não traz alívio, mas pavor. A hesitação de um homem negro ao andar por uma vizinhança rica (portanto, claro, majoritariamente branca) mostra-se verossímil, pois a sequência que abre o filme está longe de trazer eventos exclusivos a filmes  de terror.

Corra! Crítica

Durante uma festa da família Armitage, Chris é cercado por convidados brancos mencionando o quanto seu porte físico é imponente e até fazendo comentários sobre seu desempenho sexual. É o interesse no negro sem enxergá-lo enquanto ser humano. Quando Chris finalmente avista outro único convidado afro-americano (Lakeith Stanfield), seu alívio é imediato. Afinal, como ele poderia se sentir confortável se ninguém ali parece capaz de tratá-lo como uma pessoa comum?

Enquanto isso, a construção técnica do filme também se releva exata. A mixagem de som torna tudo ainda mais angustiante, sendo fundamental para realçar o desespero de certos momentos. Para que tudo isso funcione tão bem, o trabalho homogeneamente competente do elenco também é fundamental. Analisar as nuances das atuações relevaria indesejados spoilers, mas basta dizer que Kaguuya (que os fãs de Black Mirror” vão reconhecer como o protagonista de um dos melhores episódios da série, “Fifteen Million Merits”), Williams, Keener, Whitford, Landry Jones, Henderson e Gabriel demonstram com excelência as jornadas de cada um de seus personagens conforme as camadas ocultas de Corra! vão se relevando. Fechando o elenco central, temos Rod Williams (LilRel Howery), o segurança de aeroporto que é o melhor amigo de Chris e que acompanha o desenrolar da trama à distância. Longe de servir apenas como alívio cômico, Rod é um personagem esperto e corajoso, e que conquista um espaço na produção muito maior do que o “melhor amigo negro” costuma ter.

Aliás, o senso de humor de Corra! é outro ponto alto do filme, contribuindo fortemente para sua originalidade. Sagazes, críticos e afiados, os momentos cômicos acentuam a experiência de Chris enquanto homem negro cercado por pessoas brancas que parecem demonstrar um interesse bizarro nele. Pois um dos temas mais profundamente abordados por Peele é justamente o quanto os negros frequentemente se sentem impotentes diante de um sistema que busca silenciá-los, controlá-los e, não raro, até mesmo executá-los.

Assim, de maneira crua, atual, ousada e original, Corra! é uma experiência cinematográfica marcante sobre o que significa ser negro nos Estados Unidos de hoje.


“Get Out” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Jordan Peele, com Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, Caleb Landry Jones, LilRel Howery, Marcus Henderson, Betty Gabriel e Lakeith Stanfield.


Trailer – Corra!

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