por Mariana González
05 de fevereiro de 2015

Em Corações de Ferro, o diretor e roteirista David Ayer cria um filme focado não em exércitos e batalhas grandiosas, mas no pequeno grupo de soldados responsáveis pelo tanque Fury, que dá o título original do filme. Apesar do belo trabalho técnico, porém, o longa falha justamente ao não se aprofundar no desenvolvimento dos personagens, desperdiçando seu talentoso elenco, e ao deixar o realismo que permeia o filme de lado no terceiro ato.

O filme tem início com a chegada do datilógrafo Norman (Logan Lerman), novato no exército, ao pelotão comandado por Don (Brad Pitt) – o jovem, claro, é o personagem responsável por apresentar o público àquele universo. Conhecemos, assim, Grady (Jon Bernthal), Gordo (Michael Peña) e Bible (Shia LaBeouf), os demais integrantes da equipe. A partir de então, acompanhamos o grupo ao longo de duas horas, enquanto eles lidam com os horrores da guerra, tentam matar o maior número de nazistas quanto possível e tentam manter a equipe unida.

Ambientado em abril de 1945, Corações de Ferro não traz nenhum grande embate entre o exército nazista e o norte-americano – os inimigos são encontrados na estrada e durante a tomada de cidades. Os embates são breves e pouco glamurosos mas, claro, igualmente perigosos. Ayer, ao lado da equipe de design de produção, criam um ambiente aterrorizante, em que o inimigo escondido nas árvores pode ser uma criança e onde o corpo de um soldado morto é praticamente indistiguível em meio à lama que cobre a estrada. A fotografia de Roman Vasyanov, por sua vez, fazem da Alemanha um país opressor, infernal e empoeirado.

Com a guerra chegando ao final e o desespero de Hitler aumentando, o filme logo destaca que, a esta altura, quem for chamado para lutar no exército nazista e recusar é morto. Assim, é difícil aceitar que um soldado alemão, rendido, ferido e aos prantos, seja morto com um tiro apenas para ensinar uma lição a Norman – principalmente quando o final do filme depende da piedade de outro soldado nazista. Ayer não esconde a feiura e a crueldade de seus personagens, mas também os estabelece como heróis – algo que assassinos, obviamente, não são.

Mas, afinal, não dá para saber se aquele soldado era ou não voluntário, e o ódio aos nazistas é um sentimento forte entre os personagens. É injustificável, porém, o tratamento que o filme oferece a suas duas únicas personagens femininas, que não tem propósito algum além de servir comida e sexo aos soldados – e é difícil simpatizar com aqueles homens depois do terror pelo qual eles fazem Emma (Alicia von Rittberg) e Irma (Anamaria Marinca) passarem.

“Espere até você ver o que um homem pode fazer a outro”, afirma Bible ao novo integrante do batalhão. A violência da guerra é bem documentada em Corações de Ferro: como a placa avisando que “você está na Alemanha – país inimigo” lembra, o outro lado pode estar em qualquer lugar, até mesmo escondido em meio a um grupo de civis, marchando com as mãos para cima após serem resgatados pelo exército americano. Mas o foco de Ayer é na convivência do exército com aquele ambiente terrível, e no que cada soldado tem que fazer e enfrentar para poder sobreviver e viver consigo mesmo, seja através de piadas ou da religião.

Corações de Ferro Crítica

Ou, claro, construindo uma amizade com seus companheiros de pelotão, os homens que, afinal, lutarão e morrerão ao seu lado. Assim, é uma pena que o grupo de cinco homens em que o cineasta foca não passe de personagens unidimensionais: Don é o líder competente; Norman, o garoto que aprende o que é ser um soldado; o mexicano Gordo fala espanhol de vez em quando; Grady é um selvagem; e Bible ama Jesus. O elenco uniformemente talentoso, porém, consegue construir uma dinâmica natural entre o grupo, ao mesmo tempo em que eleva o material ao justificar a escolha daqueles personagens como protagonistas – o problema é que, ultimamente, não nos importamos com seus destinos.

O terceiro ato, portanto, perde-se justamente por necessitar do apego do espectador pelos personagens para funcionar. Em uma missão heroica – e difícil de aceitar como realista -, a impressão que fica ao término da projeção e é que Ayer, apesar da crueldade que permeia todo o longa, não ousou encerrar seu filme com um final depressivo ou pessimista demais.

O público, especialmente o norte-americano, precisa, afinal, continuar acreditando na glória que é lutar por seu país e sair da guerra um herói. E é essa dicotomia entre as duas “versões” da guerra, a glória e a crueldade, que Corações de Ferro não consegue combinar. O que resta, portanto, é um filme bem feito realizado a partir de um roteiro fraco, com ótimas atuações, mas que não conseguem salvar a produção.


Fury” (EUA, 2014), escrito e dirigido por David Ayer, com Brad Pitt, Logan Lerman, Shia LaBeouf, Michael Peña, Jon Bernthal, Anamaria Marinca, Alicia von Rittberg, Jim Parrack, Xavier Samuels, Jason Isaacs e Scott Eastwood.


Trailer – Corações de Ferro

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

4 Respostas

  1. Mariana González

    Eu concordo que a cena não era para fazer os personagens parecerem decentes. As atitudes deles ali não são surpreendentes e, pelo menos, o pavor das mulheres está escancarado. A questão é que, em minha opinião, é justamente essa dualidade – “heróis de guerra são seres humanos comuns” que o filme abandonou aos poucos e não explorou tão bem quanto poderia.

    E também percebi isso entre os personagens do Brad Pitt e do Shia LaBeouf. Um relacionamento escondido/sentimentos entre eles se encaixam na história e nos personagens.

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  2. Mariana González

    Eu gostei da interação e do relacionamento entre a equipe, mas acredito que tenha faltado um melhor roteiro para desenvolver melhor os personagens – que, como digo, são ultimamente pessoas cujo destino pouco nos interessa. E sobre o personagem do Brad Pitt tratar as mulheres de forma decente, discordo – eles só as trata melhor do que os outros. Ele literalmente diz pro personagem do Logan Lerman que “se você não transar com ela, eu transo”. O destino delas estava totalmente nas mãos dele para fazer o que quisessem, seja comida ou sexo. Se tem um filme que eu preferiria que não tivesse nenhuma mulher no elenco, era este.

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    • Vinicius Carlos Vieira

      Em nenhum momento acho que ele as trata de modo decente (nem escrevi isso), acho sim que aquele momento humaniza demais ele. Principalmente por um segundo (como eu disse) ele até enfrentar “seus filhos” para que elas sejam respeitadas. Agora, acho que esse modo como o personagem trata elas é um reflexo da época mais do que um momento machista. A época era escrota e o mundo onde elas viviam era pior ainda. Acho esse momento importante demais pro desenvolvimento do personagem do Pitt, ainda mais por, justamente, se chocar com o modo bárbaro com que a outra mulher é tratada uma cena antes, quando serve de prostituta para os dois.
      Fora que em um momento dentro da cena, ainda mostra o quanto na hora de escolher se aproximar do cara bonitão “sem camisa” ou do sensível tocando piano ela prefere o segundo, como se mostrasse não uma mulher simplesmente sexual, mas sim uma alma perdida no meio de uma guerra e que ainda sim consegue captar a verdadeira beleza e não a beleza estereotipada.
      Volta a dizer, não acho que elas foram tratadas de jeito decente, só acho que convém dentro do filme, acho extremamente importante dentro da trama e ainda acho que o roteiro/diretor tomaram bastante cuidado com esse lado.
      PS: Acho ainda que quando ele diz que se o outro não pegar ela, “ele pega”, é muito mais como uma anedota, já que o personagem não parece que faria algo do tipo. E mais ainda, durante um momento lá no final acho até que rola um tensão sexual entre ele o personagem do Shia Labeulf.

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  3. Vinicius Carlos Vieira

    Discordo um pouquinho da (falta) de importância das personagens femininas. Muito pelo contrário até… acho que é naquele momento que os dois protagonistas conseguem mostrar o pouco de humanidade que eles conseguem carregar mesmo em meio a toda aquela loucura. Ainda mais quando, claramente o personagem de Pitt demonstra que estaria disposto a enfrentar aqueles que “ama” para que as duas fossem tratadas com dignidade. Principalmente quando ele troca de prato com uma delas e deixa um dos companheiros sem comer para que a outra coma.
    Sobre o sexo, acho que cabe exatamente naquilo que Pitt afirma, “deixa ele que são jovens”, pois estão em um mundo tão horroroso dessa guerra que é melhor que eles aproveitem o sopro de vida que podem do que perderem isso.
    E acho ainda que a ideia do Ayer é exatamente essa, não vilanizar o trio, mas colocá-los como almas perdidas dentro de um mundo perdido. Talvez levados pelo ciúmes, já que o que eles tem com o personagem do Pitt é uma relação maternal e ver ele agora cuidando mais de um outro “novo filho” foi demais para eles. É como se estivessem fazendo birrinha pra “mãe”.

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