Contra o Tempo

Uma das coisa que mais faz o espectador se apaixonar pelo cinema, hoje, ontem e em qualquer outro momento da sétima arte, é a surpresa, e Contra o Tempo surpreende. E talvez até mais que isso, seu diretor Duncan Jones surpreende novamente.

Novamente, por que já tinha feito o mesmo no sensacional Lunar, como se prometesse algo no começo e aos poucos, a cada lance e reviravolta, acabasse por entregar um resultado que, nem o mais esperançoso dos espectadores pudesse imaginar. Contra o Tempo segue o mesmo ritmo, se escora em um único personagem nessa situação impensável e, simplesmente, faz todos se perderem com ele nesse rumo impensável.

Contra o Tempo começa com esses planos gerais e uma música de thriller comum (talvez no resto do filme a trilha não funcione tão bem, mas aqui é mais que acertada), como se rumasse para mais um filme qualquer, com esse cara (Jake Gyllenhaal) que acorda em um trem e tem que salvar o mundo, mas em oito minutos o trem explode e o filme se deixa então levar por uma ficção científica não só competente, mas daquelas que fazem o gênero ter orgulho.

O que Duncan faz é surpreender, fingir ser algo descartável e se aprofundar em uma trama que, entre física quântica, realidades paralelas e outros subterfúgios comuns ao gênero, discute toda situação de modo filosófico e profundo, já que Gyllenhaal é, na verdade, um soldado preso a uma maquina (o tal “source code” do título original) que lhe permite viver os últimos oitos minutos de vida de um completo estranho que estava nesse trem vítima de um atentado terrorista.

Esse soldado então é a única chance de impedir que uma segunda bomba exploda em poucos minutos em algum outro lugar de Chicago, e para isso ele tem oito minutos para achar o terrorista. Contra o Tempo então se estrutura em um tipo de Feitiço do Tempo, onde o protagonista tem que ficar repetindo aquele curto período de tempo até encontrar seu alvo, mas é nesse ínterim que ele também acaba então percebendo que talvez tenha a chance de salvar as pessoas naquele trem, ainda que seja avisado que no “source code” o passado não consiga ser mudado.

Talvez ele realmente não consiga, e Contra o Tempo então coloca para bater de frente essa “responsabilidade de servir seu país”, em que o protagonista sabe que tem a obrigação de impedir esse próximo ataque, com o seu sentimento de ter em mãos a possibilidade de mudar algo, mas sendo impedido de fazer aquilo. Mais ainda, Jones, assim como em Lunar, faz com que seu protagonista tenha que se manter são e fiel àquilo que lhe foi proposto mesmo descobrindo que nada mais vale a pena, já que tudo pode ter passado de manipulação e mentiras. Contra o Tempo, ainda que seja uma ficção científica pura e simples, encontra espaço para discutir valores e decisões, e isso já o coloca como um exemplar escasso em um mar de falta de sensibilidade.

Mas alguém pode se perguntar “Contra o Tempo é só essa chatice intelectual?”, não, muito mais que isso, Contra o Tempo é um filme tremendamente competente, com um ritmo invejável e uma estrutura completamente coerente e divertida.

Talvez “divertida” não seja a palavra correta, já que remeteria a risos ou algo feliz, mas nesse caso se usaria ela no sentido puro de diversão, de sentar na frente da TV (já que o flme teve uma passagem relâmpago pelos cinemas e agora chega às locadoras) e não ver a hora passar (ou esse oito minutos). Para isso, Duncan Jones sabe se ater aos detalhes, faz então com que esses oito minutos sejam um mosaico de personagens e situações, detalhes que se entrelaçam e deixam o espectador ir descobrindo com o protagonista tudo que vai acontecer. Cada passo, cada reviravolta. Ao mesmo tempo, do outro lado, Jones constrói um filme tenso, onde tudo parece turvo por uma bruma de mistério que pesa sobre o herói que, apenas aos poucos, vai conseguindo formar essa imagem real de tudo que está acontecendo.

Duncan Jones entrega então um filme que não é propriamente linear, mas não deixa em nenhum momento que nenhuma de suas linhas narrativas ande independentemente. De ambos os lados o que acontece motiva e empurra seus personagens, o que permite ainda que, principalmente o trio de atores formado pelo próprio Gyllenhaal, Vera Farmiga, como o contato do protagonista com o mundo externo e Jeffrey Wright, o cientista responsável pelo “source code” se permitam criar essas personalidades marcantes, que se ajustam à situação, sem, em nenhum momento, exagerar dentro do que seu personagem pede (Wright, de modo minimalista cria essa espécie de vilão tremendamente competente e poderoso).

E mais, em um exercício de competência e segurança, Jones tem total controle narrativo e visual sobre seu filme, sem desperdiçar oportunidades de ouro para uma ou outra cena, como quando filma a queda do protagonista do trem sem cortes e não parece ter pressa a cada vez que o mesmo tem que morrer para voltar ao “source code”, assim como, nesse presente, não tropeça em nenhum momento e só mostra o suficiente em cada volta, como se deixasse o espectador montar esse quadro em sua cabeça antes do retrato geral.

Contra o Tempo dá um nó no paradoxo temporal que tanto mete medo nos filmes de Hollywood, já que é sempre alvo de falhas e erros, mas aqui o faz de modo seguro, e mais, foge do pessimismo do gênero e se decide por ser um filme cheio de esperança, que dá uma última chance a seu personagem, como um a recompensa, tanto ao protagonista quanto ao espectador que ganha um filme de ficção científica sem igual.


Source Code (EUA, Fra, 2011), escrito por Ben Ripley, dirigido por Duncan Jones, comJake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga e Jeffrey Wright.


Trailer


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