Conexão Escobar volta a trazer Bryan Cranston em um papel memorável, mas mais do que isso, é um filme construído totalmente em cima de expectativas. Ele vai subindo aos poucos no alto escalão da máfia de cocaína e assim como O Poderoso Chefão e Scarface também possui seu universo próprio. Porém, este é um filme pautado em cima da biografia de Robert Mazur, ex-agente federal de combate ao tráfico de drogas, e por isso merece ainda mais crédito na criação dessa rede tensa e complexa que vive à mercê da lei.

E por falar em lei, o filme ainda de brinde destaca que está andando todo tempo em uma corda bamba pendurada entre os EUA e a Colômbia; ele convida o espectador mais atento a comparar a hipocrisia de ambos os lados, como o fato dos EUA, através da CIA, financiar diversas guerras pelo mundo. E fatalmente ele conclui: comparado com a Casa Branca, a máfia da coca não passa de uns caipiras latinos.

Porém, acima de tudo (até da lei), este é um filme sobre pessoas obcecadas pelo trabalho, seja este trabalho criminoso ou não. Pessoas habilidosas no que fazem, que amam suas funções, apesar de apenas algumas admitirem isso, como o divertido colega latino de Mazur, Frankie, interpretado por Daniel Mays com um humor e dignidade ímpares. Frankie não é o cara que estraga tudo pelo seu temperamento, mas é uma pessoa disposta a arriscar mais do que devia por um bom contato. É ele que sobe o primeiro degrau que irá levar Mazur para o topo, apesar das ressalvas do próprio Mazur, que, sempre discreto, fica visivelmente irritado que seu colega entre em sua casa no meio de uma reunião de amigos de sua família.

Sua irritação, nesse momento do filme, parece desproporcional. Porém, a genialidade do roteiro da estreante Ellen Sue Brown é não entregar nada de bandeja, mas deixar o espectador perceber o tipo de pessoas com quem Mazur e Frankie precisam lidar no dia-a-dia não pelo clichê desses filmes, como a descrição dos crimes que eles cometeram, mas pela simples observação de seu comportamento em situações sociais, e até onde isso chega. Muito mais pra frente há uma situação em que Mazur, sob disfarce, é obrigado a fingir ser um “membro da gangue”, e se comportar como um. Na frente de sua mulher. Essa cena, enérgica e em uma crescente tensa e hipnotizante, consegue explicar todas as ressalvas do agente lá no começo do filme, em nunca misturar trabalho e família.

Conexão Escobar

Aliás, a direção de Brad Furman torna todas as cenas tensas ao apresentar ao espectador um mundo fechado, em uma abertura de campo limitada e em ambientes escuros, como quando Mazur conversa com os capangas que irão abrir-lhe as portas para os grandes chefões do tráfico. Mais para a frente, ao conversar diretamente com os chefões, a câmera se abre, e vemos toda a opulência garantida pelas dezenas e centenas de milhões que estão sendo lavados por Mazur (ou seu nome secreto, Bob Musella), mas ao mesmo tempo a insegurança de não haver fuga simples do lugar em que chegaram. Não há nenhuma chance de sobreviver ao primeiro erro cometido, e por isso o filme se beneficia imensamente em tornar sempre claro que a perfeição no trabalho de Mazur e Frankie não é apenas desejável, mas essencial para a sobrevivência de ambos (e as consequências são explicadas da maneira sempre pouco sutil de Frankie em dado momento, o que inclui o tipo de tortura psicológica e física que essa gente costuma oferecer aos policiais infiltrados).

Contudo, enquanto o perigo sempre constante é a forma do filme de dialogar com a tensão – além de uma cena ou outra de extrema violência gratuita, onde vem também imagens referenciando Os Bons Companheiros – há também o fato de todos os envolvidos serem seres humanos, que mesmo vivendo uma mentira, se relacionam de uma maneira intensa com as pessoas que estão enganando. Essa relação se torna particularmente tocante quando o agente, junto de sua falsa-noiva, passam a compartilhar momentos com o orquestrador da rede de mafiosos e sua esposa. Nesse momento, a vida de policial e de pai de família de Mazur ficam ausentes por um longo período, alimentando cada vez mais essa mentira, que flerta com quase virar a realidade do casal de disfarçados.

Com um terceiro ato que, infelizmente, não consegue chegar aos pés da complexidade temática de todo o filme, se privando de concluir toda a trama de uma maneira significativa, preferindo a saída burocrática e oficial, Conexão Escobar irá deixar saudades desses personagens, que foram criados por um elenco inspirado, em um filme de ação que acertadamente decide investir justamente no que move essaa ação: flertar com a confiança de sociopatas alimentados pelo mercado proibido das drogas.


“The Infiltrator” (RU, 2016), escrito por Ellen Sue Brown, Robert Mazur, dirigido por Brad Furman, com Bryan Cranston, John Leguizamo, Daniel Mays, Tom Vaughan-Lawlor, Niall Hayes


Trailer – Conexão Escobar

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