Mesmo que ano após ano muitos ainda tentem tirar da animação sua definição e torná-la um modo de fazer cinema, quase com uma escola ou um vertente, ainda assim, vão sempre derrapar no momento que dão de cara com sua natureza em si. Seja o sério e sisudo A lenda de Beowulf ou o (muito) mais relaxado Como Treinar seu Dragão, animações vão continuar sempre sendo uma fatia do cinema onde o limite para todos os aspectos do filme é a imaginação.E é dentro dessa falta de limites que o filme precisa ser avaliado, e não ao lado do Cidadão Kane.

Esse afastamento não as diminui, mas sim, as coloca em uma situação mais confortável, já que, até a mais profunda animação, nunca conseguirá carregar o peso dramático de Marlon Brando recebendo a notícia da morte de seu filho em O Poderoso Chefão, e muito menos, Stanley Kubrick conseguiria reproduzir na tela, com um elenco real, todo simbolismo lúdico de um Toy Story. Tudo isso, somente para tentar explicar de que modo Como Treinar seu Dragão consegue ser uma ótima pedida nos cinemas sendo apenas ele mesmo.

Talvez por sua eficiência em saber onde está pisando, por parecer ter consciência que, acima de tudo, ainda precisa estar ali presente não só para um público infantil como para uma parcela um pouco mais velha (com as cópias legendas, também em 3D ajudando muito nisso). Ainda que, sem sombra de dúvida, essa nova animação da Dreamworks (a mesma de Shrek e Madagascar) foca um público mais infantil, um capricho tanto no roteiro, quanto em sua animação, fará com que muitos marmanjos se divirtam.

Na história, uma aldeia viking precisa conviver com uma ameaça constante de hordas de dragões que sempre aparecem para atacá-los, Soluço (tradução literal mesmo) é um menino que parece não ter jeito para esse “trabalho” de enfrentar os dragões, até que acaba criando uma amizade com um deles.

É lógico que toda trama é permeada por uma liçãozinha sobre tentar se adaptar na sociedade e como isso sempre acaba acontecendo quando você é você mesmo, dialogando com o relacionamento de Soluço com seu pai, chefe da aldeia (na voz de Gerard Butler), onde o menino faz de tudo para ser aceito pelo pai. Mais ainda, até do quanto, às vezes, um conflito pode acabar, ou nem ocorrer, somente com uma tentativa de entender o outro lado. Um filme familiar anti-guerra que desenvolve muito bem esses conceitos, coisa que definitivamente fará os pequeninos saírem do cinema com pelo menos algum dos ensinamentos.

Mas talvez o mais legal seja uma preocupação em colocar tudo isso em um contexto de um filme de aventura, a procura de algumas boas sequencias empolgantes, entre batalhas, principalmente (afinal estamos falando de vikings), muito mais do que com personagens bonitinhos fazendo uma ou outra gag visual. Não sério, mas sabendo ser sutil e equilibrado.

Tudo isso iria por água abaixo sem o visual apropriado (talvez sempre o ponto principal de uma animação), e isso a DreamWorks sabe fazer. Além da direção de arte cumprir perfeitamente aquelas regras do gênero, onde todos precisam exalar uma simpatia marcante, uma personalidade fácil de ser captada e, acima de tudo, darem alguns ótimos brinquedos, Como Treinar seu Dragão é tecnicamente exemplar, com um visual limpo, marcante e que sabe chegar onde quer, principalmente com o absurdamente expressivo dragão de estimação do protagonista (com um grande par de olhos que daria inveja ao Gato de Botas de Shrek) e da vasta barba do chefe da aldeia, principalmente quando, em certo momento, fica meio molhada e com uma aparência de cair o queixo. Por outro lado, essa beleza toda faz com que, em certos momentos, a dupla de diretores se perca em um deslumbramento desperdiçando algumas sequencias com vôos intermináveis do protagonista em seu dragão, ainda que isso não prejudique em nada o andamento da trama, que acaba se mostrando muito bem enxuta e objetiva.

Como Treinar seu Dragão é exatamente umas daquelas animações que sabem o que são, não passa nem perto da profundidade da Pixar, até por que, é só olhar para trás e perceber que esse é o estilo da Dreanworks: divertido, bonito, movido por uma lição de vida e doido para vender uns bonequinhos.


How to Train Your Dragon (EUA, 2010) escrito e dirigido por Dean DeBlois, Chris Sanders, Adam F. Goldberg e Peter Tolan a partir do livro de Cressida Crowel, dirigido por Dean DeBlois e Chris Sanders com vozes de Jay Baruchel, Gerard Butler, America Ferrara, Jonah Hill e Christopher Mintz-Plasse.


2 Respostas

  1. Babi

    Como treinar seu dragão é um filme peculiarmente .. encantador!
    Todas as imagens e o cuidado que se tem com os detalhes gráficos, a produção
    das sequências são elogiáveis.
    Particularmente gosto muito de animação. É plausível a ideia de que animação perde em emoção e verdade para os filmes com personagens reais.
    Mas temos de convir.. quando uma animação é bem feita, e coloca-se em desenhos quase a mesma emoção que os homens expressam, é no mínimo espetacular!
    Quando vejo animações imagino todo o tempo dispendido em imaginar, escrever, imaginar novamente, desenhar e computadorizar um filme de uma hora e meia ou mais.
    Como treinar seu dragão tem uma lição (e não uma ‘liçãozinha’) muito bonita.
    Vale a pena assistir!

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  2. Vânia

    Mesmo não sendo grande fã de desenhos, achei muito bacana o filme em 3D. Sem contar no dragão banguela (é isso?)…. Gostei!

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