Talvez, o gênero comédia romântica estejam morrendo. Não chegou ao fim e nem morreu, como muita gente diz por ai, mas talvez esteja mesmo morrendo. Mas como um bom parágrafo fica melhor ainda com uma contradição, essa morte talvez seja apenas uma transformação.

Então, talvez, o melhor seja começar de novo: As comédias românticas estão se transformando. Infelizmente, Hollywood não percebeu isso, principalmente pela impressão de velório que ronda o gênero.

Resumindo, as comédias românticas não morreram, apenas estão diferentes. E isso é bom.

Um Velho Mundo de Comédia Romântica

O problema maior é que nada mais é como antes. Enquanto os anos 90 e até o começo dos 2000 conseguiam emplacar comédia romântica atrás de comédia romântica, ninguém parecia interessado em tentar entender o que estava acontecendo. O resultado foi desastroso.

Os grandes estúdios acabaram não percebendo que as convenções continuavam sendo as mesmas, mas o mundo começava a ser outro. Todo o gênero se subverteu e a maioria nem percebeu essa mudança.

Uma repetição incansável de ideias, esquemas engessados, clichês e estereótipos ficaram de lado aos poucos para o nascimento de novos pensamentos. O amor à primeira vista ou antipatia que virava amor, o triangulo amoroso com o amigo, a mentira no fim do segundo ato e aquele táxi que ninguém paga para chegar ao aeroporto e gritar “eu te amo” na frente de uma enorme fila de embarque. Aos poucos tudo foi sendo usado de modo tão precário que desgastou o gênero e suas estrelas.

A comédia romântica chegou ao fim?

E isso afastou principalmente as mulheres desse gênero. Antes, cerne das comédias românticas, houve um momento de rachadura onde elas não mais aguentavam as imposições machistas desse sistema (na verdade nem desse, nem de todos os outros). Principalmente, suas monogamias não mais precisavam ser salvas por um príncipe qualquer.

Era comum homens cheios de parceiras que acordavam em diversas camas serem perdoados pelo seu público, desde que suas vidas tomassem um único rumo diante de um novo amor. E ainda que um deslize aqui e outro ali acontecesse, o “eu te amo” no final sempre fazia com que suas parceiras os perdoassem. Afinal iriam viver felizes para sempre.

Um modelo que aos poucos foi sendo deixado de lado. Não importava qual fosse a situação, eram sempre mulheres coadjuvantes de suas próprias histórias. Afinal, precisavam dos homens para salvá-las. Colocar suas vidas nos trilhos.

E se nos dias de hoje isso pode parecer algo retrógrado, a maioria dos grandes estúdios de cinema não percebeu a mudança até ser tarde demais. Ficou para a TV, cinema independente e mecanismo de streaming a responsabilidade de salvar esse gênero.

Não existiam mais princesas a serem salvas, mas sim mulheres.

Um Novo Mundo Para As Comédias Românticas

A última década apontou para protagonistas que não precisavam mais buscar significado através das vidas de ninguém a não ser delas. Não precisavam mais do amor nos braços de alguém. O ponto principal agora é simplesmente o que elas quisessem, não reféns de um casamento ou de um “Felizes para Sempre”.

Bem verdade, apenas uma igualdade entre seus personagens.

Uma busca pelo direito de terem libido em suas próprias histórias. Dormirem, transarem e se apaixonarem por quem quisessem, até que fossem apenas por elas mesmas. E estamos falando só de mulheres, mas o caso é que tanto para eles quanto elas, esse novo mundo só traz felicidade.

Em 2007, Ligeiramente Grávidos já enxergava essa mudança. Com um cara inseguro e feio, uma mulher decidida, uma transa de uma noite e não necessariamente um romance entre os dois personagens. E o diretor Judd Apatow não parou por aí, cinco anos depois, seu Bem Vindo aos 40 aceitava ser uma comédia romântica adulta. Assim como em 2015 faturou 110 milhões de lucro com Descompensada, o que talvez seja o retrato mais fiel desse tipo de “nova comédia romântica”, com a comediante Amy Schumer (também roteirista) representando o que pode ser apontado como um novo exemplo de protagonista feminina, que ao seu jeito nem bem sai do “esquemão”, mas o faz com sua personalidade.

O mesmo Jason Segel que estava em Ligeiramente Grávidos é um exemplo de ator à vontade com esses novos rumos das comédias românticas. Em 2009 estrelou Eu Te Amo, Cara e mostrou o quanto um “bromance” (aquela relação entre amigos) pode funcionar como uma boa história no cinema.

E o que é Missão Madrinha de Casamento senão uma comédia romântica entre duas amigas e os problemas que surgem quando uma delas casa e a outra fica com ciúmes.

É preciso deixar de lado a ideia de que o amor está relacionado ao sexo para entender os novos rumos das comédias românticas. É preciso aceitar que o amor é muito mais profundo.

Em meio a umas dezenas de continuações, super heróis e distopias Young adult, Perfeita é a Mãe foi o 27° filme mais visto dos Estados Unidos de 2016. E se para muitos ela parecia uma comédia, a grande verdade é que Mila Kunis estrelava uma comédia romântica onde o três mulheres tentavam reatar a paixão por elas mesmas. Um ano antes, Irmãs ficou em 34° com Amy Pohler e Tina Fey em busca de um amor fraterno que há muito tempo tinha deixado de existir.

Curiosamente, ainda que o gênero tenha se estabelecido diante desses parâmetros frágeis, sua gênese moderna passa, justamente, por dois filmes que estavam mesmo é pouco se lixando para Hollywood e todas suas repetições.
Em 1977 Woody Allen mostrava em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que uma comédia romântica precisava ser muito mais sobre a jornada do que simplesmente refém do “felizes para Sempre”. Mais de dez anos depois, Harry e Sally: Feitos Um Para o Outro, de Rob Reiner, se preocupava tanto com a viagem quem ninguém se importava pelo fim.

Infelizmente, o gênero se arrastou pelos anos sem perceber isso, forçando finais felizes sem perceber que ninguém mais achava que somente isso pudesse salvar uma história. Pura teimosia. Em 2009 (500) Dias Com Ela demonstrava que existia uma lição em meio a todas aquelas referências, mas parecia ser tarde demais para qualquer grande estúdio de Hollywood.

Principalmente, pois o “boom” de comédias românticas nos anos 90 e 2000 não parecia ser sobre pessoas, mas sim sobre apenas aquela Hollywood branca, heterossexual e pasteurizada. Não refletia um mundo, mas sim a visão de uma indústria.

A Morte das Comédias Românticas… Pelo Menos As Caras

E nesse momento tudo fica complicado.

Primeiro, o público foi aos poucos não se enxergando naquelas “velhas comédias românticas”, foi perdendo o interesse e com isso as bilheterias caindo. A falta de identificação casou ainda com o estouro de outros gêneros que não “pediam” esse tipo de identificação (como os super-heróis, robôs gigantes e demais maluquices).

E esse desinteresse chegou junto com a falta de vontade das grandes estrelas do gênero de continuarem repetindo aquela mesma fórmula batida. Símbolos das comédias românticas como Julia Roberts e Sandra Bullock partiram em busca de trabalhos mais complexos. Do mesmo jeito, jovens promessas como Kate Hudson, Reese Whiterspoon, Rachel McAdams e Emma Stone não parecem ter encontrado motivação para continuar no mesmo caminho dos inícios de suas carreiras.

As grandes comédias românticas não eram mais interessantes para ninguém. Uma crise que se estabeleceu não no cinema m geral, mas muito mais nos filmes de orçamento médio. Não valia mais a pena para os grande estúdios gastar esse dinheiro todo sem a certeza de um retorno à altura. E as comédias românticas estavam bem no olho desse furacão.

Essa fatia da produção de Hollywood que abrangia a enorme maioria do gênero. Todos aqueles filmes citados alguns parágrafos atrás tinha em comum o custo entre 20 e 60 milhões, o que permitia que se tornassem um sucesso com pouco mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias.

Perfeita é a Mãe segue o novo modelo de comédia romântica

Curiosamente, mesmo em meio a uma maré muita baixa do gênero, todos os citados também foram exemplos do quanto o gênero ainda pode ser bem sucedido. Perfeita é a Mãe, custou 20 milhões e lucrou 183 milhões. Irmãs precisou de 30 milhões para ser feito e chegou aos 105 milhões.

Mas ainda assim, analisando friamente, é uma quantidade de dinheiro grande, e se pensarmos que existe uma quantidade enorme de micro comédias românticas que se deram bem nas bilheterias custando alguns pares de milhões, fica realmente difícil imaginar uma competição justa. E é disso que os estúdios gostam: baixo investimento e alto rendimento.

O problema é que os estúdios, quase sempre comandados pelas mesmas cabeças que nos anos 90 encheram os cofres com Meg Ryan apaixonada por alguém, tanto não perceberam a mudança de público, quanto preferiram desviar os olhos. Vez ou outra ainda tentando repetir as mesmas fórmulas e fracassando retumbantemente. Muita gente pode não se lembrar, mas quase dez anos depois de seus sucessos, os últimos anos foram marcados (não verdade nada marcados) pela continuação de Meu Casamento Grego e Bridget Jones e seu bebê.

O medo dos estúdios de entender que o cinema mudou e não foi em razão de alguma necessidade mercadológica deles (como a cor, o formato widescreen e o 3D) os deixa incomodados e sem saberem o que fazer.

Em uma entrevista para a LA Weekly, Paul Feig (de Caça-Fantasmas e Missão Madrinha de Casamento) lembrou de uma espécie de “metáfora da bolsa” para tentar entender Hollywood hoje e o gênero comédia romântica. De acordo com ele, quando um homem está no meio de uma loja e sua esposa pede para ele “segurar sua bolsa por um segundo”, ele sempre o faz de um jeito agressivo e másculo, nunca colocando-a no ombro ou embaixo do braço, afinal, se alguém o vir daquele jeito irá “pegar mal”. Já no oposto, uma mulher simplesmente pegaria a mochila e colocaria nas costas.

Por décadas e décadas, as mulheres estiveram com as mochilas nas costas, mesmo sabendo que elas em nada combinavam com seus sapatos. Conviviam com as comédias românticas e encontravam nelas o pouco de diversão que era possível encontrar. Mas agora elas deram a bolsa para os maridos e eles não sabem o que fazer com elas.

Hollywood está lá, parada no meio de uma multidão segurando uma bolsa o mais afastada possível do próprio corpo para “não dar na telha”, mas sem saber o que fazer com ela. Afinal sempre carregou uma mochila.

Talvez as comédias românticas estejam morrendo… ou melhor, talvez aquelas velhas comédias românticas estejam morrendo, mas o que está nascendo em seu lugar precisa ser melhor aproveitado.

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