por Mariana González
03 de abril de 2018 |

Pense em todos os clichês associados a comédias românticas e a filmes adolescentes. Quem são os personagens que vivem esses dramas, reviravoltas, amores, demonstrações públicas de afeto e finais felizes? Quase sempre, um casal heterossexual. Mas, como Com Amor, Simon anuncia já em seu cartaz de divulgação, “todo mundo merece uma grande história de amor” — incluindo o protagonista desta história, um jovem de 17 anos que esconde sua homossexualidade de todos até descobrir-se apaixonado por um garoto misterioso.

Simon Spier (Nick Robinson) leva uma vida bastante normal. Ele adora os pais (Jennifer Garner e Josh Duhamel), a irmã mais nova (Talitha Eliana Bateman) e seus melhores amigos, Leah (Katherine Langford), Nick (Jorge Lendeborg Jr.) e Abby (Alexandra Shipp). Mas, em meio aos ensaios para a peça da escola e as saídas com os amigos, Simon esconde de todos o segredo de que é gay. Até que, no blog de fofocas da escola, um outro aluno fala sobre estar no armário, assinando com o pseudônimo Blue. Empolgado por encontrar alguém que entenda o que ele passa, Simon escreve para Blue — também com um pseudônimo, Jacques — e os dois logo começam a trocar diversos e-mails por dia, em que falam sobre o segredo que compartilham, como suas famílias reagiriam se soubessem, artistas preferidos, planos para o Halloween… Não demora para Simon perceber que está se apaixonando por Blue e, então, passar a sonhar acordado sobre a verdadeira identidade dele. Entretanto, até mesmo esse lugar seguro torna-se ameaçado quando seu colega Martin (Logan Miller) descobre os e-mails que Simon e Blue trocam — Martin resolve usá-los para forçar Simon a ajudá-lo a conquistar Abby, o que ele aceita por medo de a escola toda descobrir que ele é gay e, principalmente, por medo de afastar de Blue.

A chantagem de Martin, é claro, acaba afetando Abby, Nick e Leah e, consequentemente, complicando a amizade dos três com Simon. Afinal, na maior parte do tempo, os amigos do protagonista ficam no escuro sobre o que realmente está acontecendo, e Simon manipula-os de diferentes formas a fim de auxiliar Martin a impressionar Abby.

O diretor Greg Berlanti e os roteiristas Elizabeth Berger e Isaac Aptaker — escrevendo com base no livro de Becky Albertalli — estabelecem bem as motivações e medos de Simon, fazendo com que compreendamos suas ações e permaneçamos do lado dele; ao mesmo tempo, o longa também dá espaço para que Abby, Nick e Leah expressem sua raiva pelos acontecimentos, o que funciona pelo fato de que os três são personagens multifacetados e que existem para além de seu relacionamento com o protagonista.

Abby, por exemplo, poderia ser facilmente reduzida ao segredo que ela também guarda (e que você vai adivinhar logo se já tiver assistido mais algum filme adolescente na sua vida), Nick chega perto de ser apenas o alívio cômico e Abby poderia ser somente a “garota nova na escola”. Entretanto, cada um deles têm personalidades bem definidas e suas próprias trajetórias, medos e desejos — o que, além de torná-los personagens interessantes, também enriquece a amizade de cada um com Simon.

Isso também acontece por que o quarteto de jovens atores demonstra uma química fácil e eficiente uns com os outros, retratando bem a intimidade tão natural quanto frágil das amizades adolescentes. Por outro lado, Logan Miller até se esforça, mas Martin jamais consegue tornar-se uma figura realmente envolvente. Enquanto isso, mesmo com pouco tempo de tela, Keiynan Lonsdale e Clark Moore conseguem criar personagens importantes para o arco dramático de Simon.

Com Amor, Simon Crítica

Entre o elenco adulto, destacam-se, é claro, Emily e Jack, os pais de Simon. Divertidos e obviamente apaixonados, os dois são o centro de uma família amável e funcional — e mesmo seu leve aspecto de comercial de margarina é quebrado pela sexualidade de Simon, que tira-os do status quo. Afinal, Emily e Jack demonstram seu amor pelo filho de uma maneira bastante positiva, mas não perfeita, o que traz naturalidade à situação. Nesse sentido, é emocionante ver Josh Duhamel pedindo desculpas pelas piadinhas homofóbicas que já contou na frente do filho, ou Jennifer Garner dizendo a Simon que, ao longo dos anos, ela percebeu a forma com que ele se retraiu, se tornou menos extrovertido, e que, agora, ele pode finalmente ser “mais ele mesmo”.

Menos eficiente é a caracterização forçada e caricata de Tony Hale como o vice-diretor da escola, que sofre por ter nas mãos um personagem irritante e, pior ainda, que não serve função alguma na narrativa. Já Natasha Rothwell diverte como a explosiva e imprevisível professora de teatro.

Mas Com Amor, Simon definitivamente não funcionaria tão bem sem o belo trabalho de Nick Robinson no comando do longa. Eu conhecia o ator apenas de Tudo e Todas as Coisas e Jurassic World e, portanto, minha impressão dele variava de nula a negativa — felizmente, com um personagem mais complexo nas mãos, Robinson mostra-se um talento promissor. Simon é um jovem multifacetado construído por meio do trabalho sensível do ator, que faz dele um garoto carismático cujo senso de humor e personalidade são frequentemente “bloqueados” pelo peso do segredo que ele carrega. Além disso, Robinson é eficiente ao explorar as nuances do protagonista, como os momentos em que ele deixa as emoções fluírem ao conversar com Blue ou quando precisa enfrentar os erros que cometeu com os amigos. Nas sequências mais carregadas do longa, ele também se sai bem, destacando-se em uma cena-chave que acontece no estacionamento da escola e que envolve uma conversa entre Simon e Martin.

Portanto, Com Amor, Simon tem todo o direito de ser um pouco água-com-açúcar e de entregar-se a situações que estamos cansados de ver em filmes adolescentes e/ou românticos, pois garotos como Simon não costumam estar no centro dessas histórias. O filme não é perfeito, mas não precisa ser, pois cumpre muito bem o que se propõem e, por meio disso, nos apresenta a um protagonista cuja história certamente vai gerar identificação — seja pelo que já aconteceu, seja pelo que vai acontecer — com uma parcela da população que raramente tem a chance de ver-se representada de forma tão otimista e leve.

O último plano de Com Amor, Simon, então, não poderia ser melhor. Quando o protagonista e seus amigos partem rumo à cidade, ela surge horizonte de braços abertos para eles, pronta para as aventuras e experiências que eles anseiam em viver.


“Love, Simon” (EUA, 2018), escrito por Elizabeth Berger e Isaac Aptaker a partir do livro de Becky Albertalli, dirigido por Greg Berlanti, com Nick Robinson, Katherine Langford, Alexandra Shipp, Jorge Lendeborg Jr., Keiynan Lonsdale, Jennifer Garner, Josh Duhamel, Logan Miller, Natasha Rothwell, Clark Moore, Tony Hale, Talitha Eliana Bateman e Mackenzie Lintz.


Trailer – Com Amor, Simon

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