por Vinicius Carlos Vieira
03 de dezembro de 2017

De todos os pais do cinema, talvez o mais importante e interessante deles seja Georges Méliès. Não que qualquer um dos outro não tenha sua responsabilidade para com o nascimento da sétima arte e tenham deixado sua marquinha no DNA dela, mas Méliès foi o primeiro a enxergar o que hoje entendemos como ser o potencial verdadeiro do cinema.

Enquanto alguns desses pais foram esquecidos pela história, os irmãos Lumiere viam em sua invenção uma oportunidade de documentar o mundo, enviando “cinematografistas” pelos continentes para registrar isso tudo. Do outro lado do Atlântico, Edison continuava mais preocupado em ganhar dinheiro comprando direitos e patenteando coisas ligadas ao cinema. Mas esse francês mágico (literalmente falando) enxergou no cinema a possibilidade de levar seus espectadores em uma viagem até onde a imaginação o permitisse.

Como o crítico Luiz Carlos Merten cita em seu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, logo na introdução ao relacionar o cinema com uma janela, Méliès era uma “janela aberta para a fantasia”.

Em vinte anos de existência, um sopro para a literatura, o cinema tinha conquistado o mundo. Em dez anos “sob os cuidados” de Méliès o cinema evoluiu em termos técnicos e narrativos de um jeito que ele nunca mais cresceu no resto de sua história até hoje, e o grande responsável por isso foi Marie-Georges-Jean Méliès.

Mas Quem Foi Georges Méliès

Existe uma deliciosa lenda que coloca Georges Méliès dentro da primeira exibição dos filmes dos irmãos Lumiere em 1985. Reza essa mesma lenda, ao final da apresentação, já enxergando potencial daquilo, teria oferecido 10.000 francos para comprar uma daquelas máquinas de sonhos. Naquela mesma noite os irmãos ainda teriam recebido outras duas ofertas, uma pelo dobro do preço e outra de 50.000. Recusaram as três e deixaram para a história contar sua própria lenda.

Mas Méliès ná época não era um anônimo qualquer com o bolso cheio de dinheiro. Nascido em 8 de dezembro de 1938, era filho de um fabricante de sapatos. Na verdade, um bem sucedido fabricante, já que ele tinha uma fábrica de sapatos que rendia dinheiro o suficiente para bancar a educação do filho no Lycee Louis Legrand, uma prestigiada escola francesa que tinha “formado” gente como Moliere, Victor Hugo, Baudelaire, Robes Pierre, Voltaire e depois ainda veio a ter gente em suas salas como Jean-Paul Sartre e sete presidentes.

O que importa é que tanto na biografia desses outro pessoal, como nos destaques do “Lycee”, um dos nomes a serem lembrados também será o de Georges Méliès. E aos 10 já era possível enxergar algo de diferente naquele moleque francês enquanto criava bonecos de cartolina para contar suas histórias. Em pouco tempo esse passatempo se transformou em marionetes sofisticadas.

Como era de se esperar, ele saiu da escola e trabalhou na fábrica do pai por um período, até que foi passar um tempo no serviço militar. Sua “saída de casa” resultou ainda em uma viagem para Londres, onde deu de cara com um lugar que, indiretamente, mudaria a história do cinema: o Egyptian Hall.

Construído em 1812 e com jeitão de uma construção egípcia (daí o nome), logo o lugar passou a se tornar simpático com os ilusionistas e “espiritualistas” do meio do século XIX. Em pouco tempo começou a ser chamado de “Casa de Mistérios da Inglaterra”, e foi aí onde Méliès conheceu o mágico/ilusionista John Nevil Markeville e descobriu sua maior paixão.

Enquanto voltou a trabalhar na fábrica do pai, continuou treinando mágica com Emile Voisin e, não muito tempo depois, estreou no Teatro Robert-Houdin com seu número. Em nove anos de carreira como mágico, criou um número impressionante de 30 novas ilusões, incluindo a famosa Recalcitrant Decapiteted Man, onde conversava com a própria cabeça separada do corpo.

Curiosamente, da herança de seu pai na venda da fábrica de sapatos, Méliès comprou, justamente o Teatro no qual estreou. Assim como era nele que Méliès queria colocar a invenção dos irmãos Lumiere por aqueles 10.000 francos.
E como naquela época o “jeitinho Edison de resolver problemas” era bem popular, Méliès comprou um “Animatografo”, criado por Robert Lupaul que, por sua vez, tinha copiado do projeto de “um certo” inventor americano, já que ele não tinha patenteado sua invenção em Londres. Na verdade o “Animatografo” era uma porcaria, assim como também era uma porcaria o “Kinetografo Robert-Houdin” que o próprio Meliés produziu em parceria com Lucien Korsten e Lucien Reulos, apelidado carinhosamente por eles de ”Metralhadora” e “Moedor de Café”, já que uma coisa que ele não deveria ser é silencioso. Mas tudo serviu só para deixa-lo mais “se coçando” para mergulhar no mundo do cinema.

Acabou comprando uma câmera boa alguns anos depois, curiosamente, fabricada pelos próprios Lumiere, mas em parceria com a Pathé e a Gaumonti (duas empresas que até hoje estão por ai no “ramo do cinema”). E essa parte não é lenda. Assim como não lenda que, enquanto os Lumiere estavam preocupados com documentários científicos, umas das primeiras coisas que Méliès fez com seu brinquedinho novo foi colocar um personagem lutando contra um inseto gigante no filme A Terrible Night.

Filme – A Terrible Night, 1896

A Lua é o Limite

Entre 1896 e 1913, Méliès dirigiu mais de 500 filmes. Mas mais do que isso, enquanto todos apontavam a invenção dos Lumiere (ok… e do Edison) para a realidade, para aquilo que está acontecendo naquele momento, Méliès buscava a fantasia. Enquanto tudo era documentário sua câmera tentava reimaginar o passado e criar o futuro.

Mas todo gênio também precisa contar com um pouco de sorte, e talvez a dele tenha vindo com a evolução técnica do rolo de filme, que ao invés de 15 metros, passou a conseguir usar 183 metros, o que lhe dava muito mais tempo para desenvolver narrativas e histórias, coisa que antes disso, ninguém tinha.

Outra lenda (elas estão sempre por ai!) ainda diz que durante uma filmagem nas ruas de Paris em 1986, sua câmera travou e voltou a filmar, um problema que teria colocado todo trabalho no lixo, mas nesse caso, fez Méliès dar de cara com mulheres que se transformavam em homens, adultos em crianças e até humanos em cavalos. Era a tal da “dupla exposição”, somente uma das técnicas que Méliès “inventou” e fez o cinema ir para outro patamar.

Cinestória Estudio A

O diretor então se tornou um manipulador de todo e qualquer técnica ligada àquela câmera, seu filme e mais um monte de truques de ilusionismo que ele estava acostumado a usar. Méliès criou não só o cinema de gênero, como os efeitos especiais e até o primeiro estúdio de filmagem, o “Studio A”, uma estufa em um jardim. Em 1899 Méliès ainda foi a primeira pessoa a adaptar para as telas de cinema o clássico dos contos de fada Cinderella.

Enfim, o que não faltam na biografia do diretor são “primeiros”, o que o leva diretamente para o que talvez seja o filme mais influente da história do cinema, Viagem A Lua, de 1902.

Com 14 minutos de duração, não se engane, você pode até não tê-lo visto, mas com certeza já viu aquele foguete em formato de bala enfincado no olho da coitada da lua. E Viagem a Lua foi o mais perto que uma geração inteira de cineastas e fãs chegou de um épico cósmico. E talvez ele seja a evolução de um cineasta que não só já tinha surpreendido com o inseto gigante de A Terrible Night, como ainda tinha dado um nó na cabeça de muita gente com o quase terror L´omme à La Tête em Caotchouc, (algo como “O Homem com a Cabeça de Borracha”), que praticamente evoluía aquele seu velho truque da cabeça decapitada.

Méliès dominava a técnica, os efeitos especiais e o dom de contar uma história e juntou tudo isso enquanto bebia em duas fontes que ajudaram o mundo a enxergar o futuro: H.G Wells e Julio Verne.

Na história, um grupo de cientistas descobre um jeito de viajar até a lua em um foguete, chegando lá são atacados por uma série de “habitantes locais”, o que os faz fugir de volta. O formato da nave vem do Da Terra a Lua de Verne, já o visual da lua e dos seus habitantes, os selenitas, uma mistura de caveiras com cabeça de papagaios era ideia de Wells, que ainda batizou-os à partir da Deusa grega da Lua em The First Man On The Moon, de 1901.

Filme – Viagem a Lua (Le voyage dans la Lune), 1902


Já a violência meio infantil para tentar desvincular qualquer crítica à realidade, vinha de alguns péssimos exemplos da França durante o século. Ao chegarem à Lua, diante desses seres esquisitos e de seu líder, a melhor solução dos heróis lunares de Méliès é dizimar toda essa raça, sobra apenas um deles, que vem para a Terra pegando uma carona no foguete, mas ao chegar aqui, precisa dançar como um macaco em meio a uma multidão de curiosos. E não, a Lua não fica em algum lugar da África.

Talvez Méliès ainda inaugure também ai a possibilidade de criar um clássico do cinema enfiando goela abaixo de gerações e gerações uma fatia enorme de preconceito racial e ignorância, assim como anos depois D.W. Griffith e O Nascimento de uma Nação o fez (assunto que fica para outro capítulo).

Além da dupla exposição, o que não falta em Viagem A Lua são técnicas de cinema refinadas que na época praticamente não eram nem pensadas. Méliès o tempo inteiro trabalha não só com uma direção de arte complicada e cheia de detalhes, como cria cenários com um punhado de camadas para trabalhar com perspectiva e técnicas de animação como “Cutout”.

“Viagem a Lua” foi um sucesso mundial, afinal, pela primeira vez na história alguém conseguia entrar em uma sala escura e chegar a um mundo extraordinário e fantástico. Para essas pessoas, graças a George Méliès, não existiam mais limites para suas imaginações, como se ele tivesse aberto para elas uma janela que as levava para lugares onde nem elas imaginavam que pudesse existir.

George Méliès não só deixou uma marca no cinema, com até hoje deveria permanecer em uma posição olimpiana, mas como é de se esperar, o próprio cinema o mastigou e cuspiu fora. E lógico, quando se fala em destruir gênios, Thomas Edison está envolvido nisso. Mas isso é melhor ficar para a parte 2.

Confira os outros capítulos da coluna Cinestória:
Capítulo 1 | Picareta, gênio, milionário e pop star
Capítulo 2 | Bouly e Irmãos Lumiere
Capítulo 3 | Persistência da retina e efeito Phi

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