Mas o “tal do cinema” tem vários pais e datas de nascimento, e enquanto Edison mergulhava em uma piscina de dinheiro lá nos Estados Unidos, na França o buraco era mais embaixo, e se você já ouviu falar em um tal de “cinematographe”, foi porque Léon Guillaume Bouly ficou com os bolsos vazios.

Bouly era um grande inventor e não se sabe muito sobre ele além de que em 12 de fevereiro de 1882 ele patenteou o “Cinematographe Léon Bouly”, um equipamento que filmava, revelava e projetava imagens em movimento. Nesse momento você pode até achar que nascia o cinema, mas dois anos depois Bouly não pode mais bancar os custos dessa patente, deixando-a livre para que em 1885 uma dupla de irmãos comprasse a patente número 219350 que lhes dava o direito de usar o termo “Cinematographe”. Que se tornou o famoso cinematógrafo dos Irmãos Lumiere.

Mas antes de qualquer polêmica, o Cinematografo dos Lumiere, além de fazer a mesma coisa que o de Bouly, pouco tinha a ver em termos de técnica. Enquanto o do primeiro parecia algo simples, o dos irmãos já se mostrava robusto, prático e aparentemente muito mais complexo. E voltando a Edison e aproveitando para fazer um “mea culpa”, na verdade é sua “caixa” que serve de inspiração para os Lumiere. Mais precisamente para o pai deles, Antoine Lumiere.

Antoine, recém-aposentado de um fábrica de placas fotográfica que tinha ficado na responsabilidade dos filhos, acabou sendo convidado para uma sessão do “Kinetoscope” de Edison, em 1884 na capital francesa. Ao final da “sessão”, Antoine pegou um pedaço do filme e levou para seus filhos com a ideia na cabeça de que eles deviam produzir aquilo, já que aquela invenção do Edison não iria servir para nada, mas alguns milionários já demonstravam que iriam usar aquele troço sei lá para que, e eles precisariam dessa película.

Cinestória | Capítulo 2 | Bouly e Irmãos Lumiere

Auguste Marie Louis Nicolas Lumiere e Loui Jena Lumiere, que já eram fascinados pelo conceito de fotografias em movimento, fizeram melhor que isso, passaram o inverno do mesmo ano trabalhando em uma ideia que partia da “caixa” de Edison e ia além. Para eles, o “Kinetoscope” tinha dois grandes problemas: 1) Era muito grande, 2) Não podia ser visto por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E ai sim podemos falar que nascia o cinema.

Em 19 de março do ano seguinte, os Lumiere colocavam sua câmera na frente da fábrica de sua família e a ligavam enquanto seus funcionários terminavam o expediente e iam embora para casa (aqui). Mas tudo leva a crer que eles não estavam com muito pressa. Ao que parece, os Lumiere já tinham até filmagens com datas de antes da compra da patente, sendo que tudo isso só foi apresentado ao público no dia 28 de dezembro de 1985.

O dia em que todos assopram as velinhas desse bolo.

A famosa exibição aconteceu no Salon Indien du Grand Café, em Paris. Eram 10 “curtas” de mais ou menos 50 segundos cada (o que dava 17 metros de filme em cada um). No ano seguinte, 1886, os Lumiere partiriam então em uma tour pelo mundo com seu Cinematografo: Bruxelas, Mumbai, Londres, Montreal, Nova York e até aqui do lado do Brasil, na Argentina.

Infelizmente, nenhum desses 10 filmes tinha nada a ser apontado em termos de estética ou qualidade, até porque, aquele que talvez seja seu “filme mais famoso” não estava nessa leva. “L´arrive d´um Train et Gare de la Cotet”, ou como ele foi popularmente chamada “A Chegada do Trem na Estação” (aqui) só foi exibido em janeiro de 1986, junto com uma das mais deliciosas lendas do cinema. E todos sabem, quando a lenda é melhor que a história real, imprima a lenda.

De acordo com ela (a lenda), o público saia correndo de dentro do cinema assim que o trem se aproximava mais da tela. E ainda que muitos historiadores afirmem com todas as letras que isso não aconteceu, o “jornalista” (ou aquele que deveria ser o patrono dos críticos de cinema) Hellmuth Karasek publicou na revista alemão Der Spiegel: “Teve um impacto particular, causou medo, terror e até pânico”. Muito provavelmente se alguém tivesse saído correndo ele teria escrito em seu texto, mas como ditado diz, quando a lenda é melhor…

O que não é lenda é que os Lumiere mesmo se tornando conhecidos mundialmente por sua invenção, eles mesmos não acreditavam no cinema como uma invenção que tivesse futuro. Auguste e Louis largaram o “negócio de cinema” em 1905 e começaram uma extensa pesquisa sobre coloração de fotografia.

Felizmente eles estavam errados. Mas não se engane, nem Edison, nem Bouly, muito menos o “sumido” do Le Prince (onde quer que ele esteja) criaram o cinema, não pelo menos do jeito que as gerações posteriores o conheceram. Essa honra é dos Lumiere, com a sala escura, a entrada por uma porta só, a experiência coletiva, a projeção “fantasma” pelas suas costas. A imersão completa. E talvez mais importante que isso, já que, reza a lenda, na hora de se desfazerem de seus equipamentos, venderam um deles para um francês chamado Marie-George-Jean Meliés.

E se você não sabe quem é esse tal de Meliés, pode acreditar, conhece muito bem os resultados de seu envolvimento com a sétima arte.


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