É logico que quase 40 horas de atrações é algo complicado de ser pensado, pior ainda deve ser colocar isso em prática. O que não exime ninguém dos erros estratégicos de não perceber o que seu público quer. E a matemática é simples: o público quer diversão.

Então depois de um painel cheio de novidades, exclusividades, Vin Diesel, a moça do Vampire Diaries e Scarlet Johansson se transformando em uma ciborgue, jogar aquele auditório inteiro em uma grande apresentação de Power Point é quase criminoso.

Hora então do painel Reconstruindo a Millenium Falcon. Ok, todos amamos a “sucata” de Han Solo (ops… não é mais dele), um amor que, com certeza, faria várias pessoas se deslocarem para uma auditório menor para descobrir os segredos dos efeitos especiais que compõe uma das naves mais famosas da cultura pop. Mas nem de longe um assunto que se mostra interessante o suficiente para estar ali, no lugar de maior destaque da CCXP.

A apresentação foi comandada por David Fogler, experiente funcionário da Industrial Light and Magic (ILM), que é devidamente apresentada através de uma montagem de fotos que seria um sucesso na festa de fim de ano da empresa de George Lucas. E enquanto Fogler fica lá comandando seu Mac, você poderia sair para dar um passeio pelo resto da CCXP… se não soubesse que depois talvez não conseguisse entrar para ver a HBO tomando o palco.

Mas aqui, felizmente, na nossa cobertura você pode fazer isso (ainda que eu não tenha feito).

Há vida do lado de fora do auditório

Em outro lugar não muito afastado dali, no Auditório Ultra, um youtuber qualquer que você vai esquecer dele daqui a seis meses comandava um bate-papo sobre o curta A Sociedade dos Heróis Esquecidos. Na mesa, Andreia “Sorvetão” e seu marido Conrado, o ícone da luta-livre Michel Serdan e ainda o sempre lembrado Dengue (sim aquele da Xuxa). O grupo improvável falou um pouco sobre os anos 80, o que também não acaba sendo tão empolgante quanto o Power Point da Millenium Falcon.

No mesmo auditório, na sequência, um monte de youtubers (na verdade anunciados como os “maiores nomes” da área) discutiram como fazer sucesso. Mas por sorte temos um monte de stands e corredores para percorrer.

Em comparação com o ano interior é fácil perceber as mudanças. Corredores muito mais largos, stands muito mais imponentes, mais bonitos e muito melhor distribuídos. Fãs de cinema e TV ficarão felizes logo na entrada, com grandes estruturas para divulgar os próximos lançamentos da FOX, Paramount, Sony e Warner, assim como uma quadra da Disney onde Marvel e Star Wars dividiam a atenção.

Sobrou espaço até para um stand menor focado somente na ficção Valerian, mas que não perde em interesse para nenhum dos outros. Sem negar suas origens nos quadrinhos, todo foco dele fica nas paredes cobertas com páginas do material original que serviu de inspiração para o filme dirigido por Luc Besson. Na parte de trás dele ainda havia a oportunidade de conferir um pouco sobre o filme… mas nessa hora “alguém” estava preso ao PPT da ILM.

HBO e Netflix também levaram a sério suas posições como grandes nomes das séries de TV atuais, fazendo com que seus fãs pudessem embarcar em seus maiores sucessos. E mergulhar de verdade, já que a HBO oferecia até uma experiência em realidade virtual de Westworld.

E entre os props e vestimentas, muitos lugares para você tirar uma foto e eternizar sua passagem pela CCXP, com direito até a um prédio a ser escalado (de mentirinha, mas ainda assim…) como o próprio “amigão da vizinhança” na Sony. Sem contar, é claro, o trono mais disputado de Westeros.

Enfim, um monte de coisas para você fazer enquanto lá dentro do Auditório Cinemark, Fogler parava de falar da Millenium Falcon e lembrava a todos que o BB-8 é “uma bola com uma meia bola em cima”.

O problema maior é que se você voltasse a tempo de entrar no auditório para conferir o painel da HBO, não conseguiria fugir da chatice.

“Quero ver a Cersei sofrer”

Antes da Cersei se dar mal, o público do Auditório Cinemark ainda sofreu mais um pouquinho. Primeiro com o desenhista de storyboards Will Simpson e depois com um dos responsáveis pelos efeitos especiais de Game of Thrones, Sven Martin, da Pixomondo.

E não que nenhum deles seja interessante, na verdade dão uma surra de interesse e simpatia no funcionário da ILM, principalmente Simpson, que não fica preso a nenhum tipo de apresentação e pode passar um pouco de suas experiências através de uma conversa bem mais solta. Entre um monte de constatações técnicas, pelo menos o painel abre espaço para que ele possa contar histórias curiosas sobre a produção, sobre o quanto ele foi responsável pelo visual de vários detalhes da série, e também pela interessante informação da famosa Batalha dos Bastardos, no nono episódio da última temporada, não ter sido pensado através de storyboards.

Mesmo que Simpson dê uma verdade aula do que é storyboard, seu uso e sua importância, nem de longe faz com que o assunto seja cativante o suficiente para empolgar a plateia. Pior ainda para Sven Martin, que entra na sequência com seu Macbook Pro e mais uma apresentação de Power Point.

É claro que descobrir todo processo de criação dos três dragões da série é um deleite técnico, mas só para quem se interessa pelo assunto, já que o grande público à espera de Natalie Dorman só deve ter acordado para descobrir que os dragões foram inspirados por lagartos, cobras e um frango morto que Martin e sua equipe compraram no supermercado mais próximo.

Uma trinca (junto com o da ILM) de painéis que pareciam encaixados ali para fechar uma programação maior do que ela poderia ser. O público que pegou horas de fila quer mesmo são atores famosos, cenas inéditas e surpresas. E não se enganem, ainda que meio chatos, qualquer um dos três são espetaculares, só que para um público diferente, que vai em busca de palestras e masterclasses, não de rainhas mortas.

Mas eis que depois de quase três horas de silêncio (e alguns roncos), o público levantou, gritou, esperneou e foi ao delírio com a presença de Natalie Dorman no palco. Se você não ligou o nome à pessoa, Dorman interpretou Margaery desde a segunda temporada de Game of Thrones e só se despediu da série (de modo explosivo!) no último capítulo da temporada passada.

CCXP 2016

Desenvolta e ágil, Dorman não poupou elogios tanto à série quanto ao cenário atual da televisão, “um momento ótimo da TV, incrível o quanto a série (Game of Thrones) é enorme em todos lugares do mundo”. A atriz ainda relaciona esse tamanho, justamente, aos fãs, já que eles serviram de combustível para que a série crescesse a cada temporada.

A sequência do bate papo ainda passa por um dos assuntos obrigatórios da atualidade: a presença das mulheres na cultura pop. Fugindo de qualquer julgamento mais regional ou do cenário do Brasil, Dorman cita que na verdade o mundo “passa por uma época difícil”, principalmente por ter visto de perto tanto o Brexit na Inglaterra, quanto a eleição de Trump nos Estados Unidos. “2016 is a weird year”, lembra a atriz e aqui eu não traduzo para não perder o peso da afirmação.

Mas por outro lado, Dorman enxerga uma melhora, pelo menos no quadro das mulheres, já que vê cada dia mais na indústria do entretenimento o nascimento de grandes franquias com heroínas, como é o caso de Katniss Everdeem em Jogos Vorazes, franquia que ela mesmo participou dos dois últimos filmes. “É preciso os homens descobrirem isso e Hollywood começar a enxergar aí a possibilidade de grandes apostas”, afirma e conclui entender existir uma necessidade financeira maior, “essa indústria precisa ver uma resposta antes de qualquer coisa”.

E fechando o assunto, a ex-rainha Margaery leva o público à loucura ao lembrar que “feminismo é igualdade” e que sobre qualquer coisa o mais importante é uma boa história. “Não importa se você tem uma vagina ou pênis, o que importa é uma boa história e não um gênero”, cravou em meio o delírio do Auditório. E ainda completando sua linha de raciocínio, lembrou que tanto Game of Thrones, como todo resto do gênero de fantasia têm a responsabilidade e a capacidade de discutir o mundo atual através da ficção.

Por fim, a atriz ainda confessou o que mais gostava na série: o relacionamento do Cão de Caça com Arya. A ainda que, agora que voltará a ser fã, só torce por uma coisa: “ver a Cersei levar a pior”.

Para fechar o painel e o dia, a HBO ainda disponibilizou uma pequena prévia do último capítulo de Westworld, mas como a série já acabou no domingo passado (ou três dias no futuro daquele presente… toma ai mais um paradoxo!), todos poderiam ter ficado sem isso e ido embora antes. E teriam tido mais tempo para se preparar para o segundo e concorrido dia de CCXP.

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