por Mariana González
09 de abril de 2018

No início da década de 90, James Cameron conquistou cerca de 100 milhões de dólares para fazer True Lies — que, lançado em 1994, tornou-se o primeiro longa-metragem com um orçamento desse tamanho. Foi somente mais de duas décadas depois que esse privilégio foi estendido a uma mulher negra: Ava DuVernay, diretora de Uma Dobra no Tempo, lançado nos cinemas brasileiros em 29 de março de 2018. A demora torna-se ainda mais significativa ao considerarmos que, ao longo dos anos, os orçamentos foram tornando-se significativamente maiores e que, hoje, nove dígitos são praticamente garantidos para qualquer megaprodução hollywoodiana.

Conversas desse tipo sempre atraem aqueles que tentam disfarçar o racismo e o machismo dessa exclusão com questões do tipo “talvez nenhuma [pessoa pertencente à minoria sendo discutida] queira dirigir um blockbuster!”. Além de extremamente condescendente — não faltam homens brancos querendo uma chance dessas; por que seria diferente com mulheres e minorias? —, esse definitivamente não é o caso de Ava DuVernay. Em 2015, ela afastou-se de negociações para dirigir Pantera Negra, que foi parar nas mãos de Ryan Coogler (e tornou-se sucesso absoluto de público e crítica). Mas o que levou a cineasta a dizer não a esse projeto certamente não foi problemas com a Disney ou o desejo de manter-se no cinema independente, já que ela logo voltou a negociar com eles e, então, assumiu o comando da adaptação do livro homônimo de Madeleine L’Engle.

E o que a levou a escolher adaptar essa obra para as telonas? Em entrevista à Times Magazine, DuVernay explica como Tendo Nagenda, o executivo da Disney responsável por levar o roteiro até ela, atraiu sua atenção ao dizer: “Ava, imagine os mundos que você poderá criar. Há diversos planetas, e você decidirá como eles se parecerão.” A cineasta se emocionou com a oportunidade: “Quantas mulheres escutam uma coisa dessas? Quantas pessoas que não são brancas?” Não muitas, já que a fantasia e a ficção científica permanecem dominadas por artistas masculinos, apesar de todo o potencial revolucionário, transgressor e inclusivo desses dois gêneros cinematográficos.

DuVernay não desperdiçou a chance de criar algo diferente do que já havia sido feito no gênero — e, aqui, não estou falando dos méritos narrativos do longa, que discuti em minha crítica, mas da inclusão cuja importância é inegável para a indústria e para o público. Pela primeira vez, a pessoa mais importante em uma missão para salvar o universo é uma garota negra (no caso, Storm Reid). Independentemente da qualidade de Uma Dobra no Tempo, a grandiosidade disso não pode ser negada. Se todos os personagens são caucasianos no livro de L’Engle, a cineasta os reimaginou como uma família multiracial: uma mulher negra (Gugu Mbatha-Raw), um homem branco (Chris Pine) e o irmão adotivo de Meg, interpretado pelo garotinho de descendência filipina Deric McCabe. Entre as três Senhoras mágicas que guiam Meg em sua jornada cósmica, há uma branca (Reese Witherspoon), uma indiana (Mindy Kaling) e uma negra (Oprah Winfrey). Enquanto isso, o roteiro da adaptação também ficou a cargo de uma mulher, Jennifer Lee, que o co-escreveu ao lado de Jeff Stockwell. Quando a equipe por trás das câmeras é inclusiva, o elenco também tende a ser.

Cinema Sem Y Uma Dobra no Tempo

E essa não é uma preocupação recente para DuVernay. Em 2016, ela criou e produziu a série Queen Sugar, que conta também com a produção executiva de Oprah Winfrey. Centrada em uma família negra, a série já concluiu duas temporadas com episódios dirigidos exclusivamente por mulheres (de todas as raças e etnias), e a terceira temporada, que já foi confirmada, seguirá essa tradição. DuVernay entende a importância de ter chegado aonde chegou na indústria cinematográfica e a possibilidade que ela tem de abrir o caminho para outras artistas.

Mas, voltando a Uma Dobra no Tempo, diversificar os personagens não foi a única forma encontrada para modernizar a história. Em seu roteiro, Lee e Stockwell trocaram as referências explicitamente cristãs do livro de L’Engle por mensagens sobre autoaceitação, amor próprio e a importância do conhecimento, da curiosidade e da bravura. Assim, o filme chega a basicamente as mesmas conclusões da obra original, apenas de formas diferentes — e mais inclusivas em diversos sentidos. Jennifer Lee discutiu esse ponto com o site Screen Rant. Quando questionada sobre o porquê de ter alterado o papel da religião da narrativa, ela declara: “Isso não foi removido, foi apenas aberto em uma linguagem que não era exclusiva. Para mim e para Ava, era importante termos inclusão também nesse sentido. Já que não estamos limitando, não estamos escolhendo uma única religião, mas sim dizendo o que todos nós sentimos, podemos sentir que somos parte de algo extraordinário e as mensagens são as mesmas.”

Uma Dobra no Tempo não foi muito bem recebido pelo público ou pela crítica, ainda que as reações estejam longe de ser desastrosas. No agregador Rotten Tomatoes, a produção tem uma média de 5,2 em 10 por parte dos críticos e de 2,4 em 5 entre os espectadores. O tomatometer, índice que mede a porcentagem entre críticas “frescas” e “pobres”, é de 40%. Os números são similares àqueles de Círculo de Fogo: A Revolta, cujo orçamento foi de 150 milhões de dólares.

Comparar os números de filmes não é tão simples, já que envolve uma série de fatores e de diferenças — por exemplo, A Revolta é uma sequência (ou seja, tem um público estabelecido), mas Uma Dobra no Tempo conta com o respaldo da Disney. Mesmo assim, é interessante notar as particularidades no que diz respeito à forma com que as reações negativas (ou mesmo apenas… não tão empolgadas) atingem os respectivos cineastas. Se o original foi comandado por Guillermo del Toro, Círculo de Fogo: A Revolta é dirigido por Steven S. DeKnight, um experiente produtor executivo e roteirista de seriados que havia dirigido apenas alguns poucos episódios televisivos. Mesmo assim, ele ganhou a oportunidade de dirigir um blockbuster sem precisar provar-se (ao contrário de Ava DuVernay, que precisou batalhar por anos até mesmo para conquistar um orçamento de 20 milhões de dólares para Selma: Uma Luta Pela Igualdade). As críticas negativas e o descaso do público não atingiram a imagem de DeKnight, enquanto muitos já questionam a capacidade de DuVernay de dirigir outras superproduções.

Cinema Sem Y Uma Dobra no Tempo

Mas, felizmente, isso não parece ter alcançado a indústria. As primeiras reações negativas ao filme da Disney já estavam rolando quando ela fechou contrato para dirigir Novos Deuses para a Warner Bros. como parte do Universo Estendido da DC. Depois de Mulher Maravilha, esse será o segundo filme do DCEU a ser comandado por uma mulher (e o primeiro dirigido por uma pessoa negra). Com base nos quadrinhos criados por Jack Kirby e lançados pela primeira vez em 1971, Novos Deuses tem tudo para ser um épico capaz de trazer nova vida à DC nos cinemas. Enquanto isso, em países como a Bélgica e a Holanda, a estreia cinematográfica de Uma Dobra no Tempo foi cancelada com base nas reações negativas e, agora, o filme sairá por lá diretamente em video on demand. A Revolta chegou às telonas por lá no dia 21 de março.

Cineastas homens (brancos) ganham incontáveis chances mesmo diante de fracassos, enquanto mulheres e minorias tornam-se responsáveis pelo sucesso de todo o seu grupo. Foi pouco antes da estreia de (e da recepção calorosa a) Mulher Maravilha, dirigido por Patty Jenkins, que a Disney anunciou que a dupla Anna Boden e Ryan Fleck comandaria a estreia da Capitã Marvel no MCU. Mas, enquanto isso, o estúdio chamou Guy Ritchie — responsável por Rei Arthur, o maior fracasso nas bilheterias de 2017 — para dirigir a adaptação live-action de Aladdin. Pelo menos, teremos uma mulher, Niki Caro, conduzindo a nova versão de Mulan.

O fato de Ava DuVernay continuar na corrida por futuros blockbusters é um tanto deprimente considerando que isso é rotina para os homens brancos da indústria cinematográfica. Entretanto, não deixa de ser uma demonstração de que, talvez, estejamos realmente caminhando para uma Hollywood mais inclusiva, mais tolerante. De qualquer forma, Uma Dobra no Tempo tem méritos louváveis e está longe de ser um desastre. Mas qualquer erro torna-se pronunciado quando falamos de pioneiros(as), o que não é nada saudável. Artistas (de qualquer grupo) não devem ser reduzidos a seus fracassos — afinal, há muito mais por trás disso do que pura qualidade e talento. Entretanto, quando há apenas uma mulher negra sendo cotada para superproduções, todos os holofotes, para o bem ou para o mal, caem sobre ela. Em uma indústria inclusiva, há mais liberdade para criar.

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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