Cinema Sem Y | O mundo cortante de Gillian Flynn

Gillian Flynn

Para quem é familiarizado com as obras de Gillian Flynn, o fato de ela ter crescido assistindo a filmes de terror não surge como nenhuma surpresa. Afinal, com seus três livros publicados – Objetos Cortantes (2006), Lugares Escuros (2009) e Garota Exemplar (2012), além do conto O Adulto (2015) –, a escritora já mais do que provou seu fascínio e talento pelo suspense, pela tensão e pelo inesperado. E isso tudo não vem apenas por meio de reviravoltas surpreendentes, mas de uma atmosfera cuidadosamente construída e do mergulho nas mentes perturbadas e fascinantes de suas protagonistas.

Depois de alcançar o mainstream com Garota Exemplar, especialmente após a adaptação dirigida por David Fincher e roteirizada por ela mesma em 2014, Flynn retorna às telas com Sharp Objects, minissérie baseada em seu primeiro livro dirigida por Jean-Marc Vallée, criada por Marti Noxon e estrelada por Amy Adams. Flynn atua como produtora executiva.

Sharp Objects – o livro e a minissérie – nos apresenta a Camille Preaker (Amy Adams), uma jornalista alcoólatra que acaba de receber alta de um hospital psiquiátrico, onde estava graças aos anos que passou se cortando e cravando palavras em sua pele. Seu já frágil estado mental fica ainda mais complicado quando seu editor pede que ela retorne a sua cidade-natal, Wind Gap, no estado de Missouri, para investigar o assassinato de uma garota e o desaparecimento de outra.

Quando a segunda vítima também aparece morta, Camille se vê cada vez mais envolvida não apenas com o mistério, mas com os traumas reacendidos pela proximidade de sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson), que controla e repudia cada atitude da filha, preocupada com o que os habitantes da cidade vão pensar sobre Camille e, consequentemente, sobre ela mesma, já que Adora crê que o comportamento da protagonista vai refletir diretamente nela. Enquanto isso, a lenta aproximação entre Camille e Amma (Eliza Scanlen), a filha adolescente de Adora com seu marido, traz à tona os relacionamentos da jornalista com sua outra meia-irmã, Marian (Lulu Wilson), que morreu na sua frente na infância, e Alice (Sydney Sweeney), a jovem colega de quarto de Camille no hospital.

Em seu primeiro livro, Flynn adotou um tom mais etéreo em sua escrita do que veríamos mais tarde em Lugares Escuros e Garota Exemplar, apesar de os três compartilharem de muitas das mesmas temáticas, explorando-as cada um à sua maneira. Isso é capturado com perfeição por Vallée, que mergulha Sharp Objects no mais puro Southern Gothic (o “gótico sulista”, um subgênero do terror que leva o macabro, o grotesco e a melancolia para o sul dos Estados Unidos) por meio de planos repletos de significado – não há um único take desperdiçado pelo diretor – e simbolismos que ganham vida na própria pele da protagonista.

Essas palavras dominam os pensamentos de Camille como uma verdadeira fixação até que, finalmente, usam sua dor e seu sangue como forma de escapar. O plano final do piloto, que revela pela primeira vez as cicatrizes de Camille e que destaca aquela que dá título ao episódio, “Vanish” (algo que mostrou-se um motif da série), é quase tão impactante para quem já leu o livro quanto para aqueles que não desconfiavam do que estava por baixo das mangas compridas das blusas da protagonista. Mérito de Vallée, mais preocupado em capturar o tom da história e a natureza dos personagens do que necessariamente a trama, e de Marti Noxon, que compreendeu a fundo o que Flynn queria dizer com sua obra inicial.

Sharp Objects é a terceira obra de Flynn a ser adaptada para o audiovisual, mas foi seu primeiro livro escrito e publicado. Com isso, a história, de certa forma, fecha um círculo em que a escritora explora a maldade, a autodestruição, a frustração e outros sentimentos menos nobres de suas protagonistas, que estão inseridas em contextos bastante diferentes mas que, em comum, falam sobre famílias disfuncionais, as expectativas que os pais (e a sociedade) colocam sobre suas filhas, traumas e, até certo ponto, vingança.

A mídia, com todo o seu poder de redenção e de exploração, também tem um papel proeminente – reflexo da experiência de Flynn, que formou-se em jornalismo e em língua inglesa e trabalhou como repórter e como crítica de cinema e televisão. Objetos Cortantes já havia plantado todas essas sementes, além de trazer elementos estilísticos que foram suavizados ou explorados de maneiras bem diferentes em suas obras seguintes. Isso acontece especialmente em relação à forma um tanto desestruturada com que a narrativa se move, reflexo das confusões, conflitos internos e traumas da protagonista.

Mais uma vez, essa natureza de ritmos mais suaves e lentos mostra-se tão presente na telinha quanto no papel. Para tanto, Vallée aposta em planos cuidadosamente construídos que são, então, quebrados por flashbacks, memórias e até mesmo alucinações que surgem do nada – é justamente assim que a mente de Camille funciona. Enquanto isso, as palavras cravadas por todo o corpo da protagonista escapam de sua mente também para o cenário e para os objetos ao seu redor, surgindo rapidamente em takes que podem passar despercebidos pelos espectadores menos atentos.

A montagem surge, então, como um recurso usado de forma elegante e precisa – além de atuar como uma das principais formas com que a série busca mostrar-se nova e surpreendente até mesmo para quem conhece a obra original –, assim como os demais elementos técnicos da minissérie, que terá um total de oito episódios. Entretanto, assim como aconteceu com a última adaptação para a TV dirigida pelo canadense, Big Little Lies, há a possibilidade de Sharp Objects retornar para mais temporadas, o que significaria levar a história para além do livro de Flynn. Se esse for o caso, a autora – que além de produtora executiva, também escreveu alguns dos episódios da série – continuará a bordo.

Em Garota Exemplar, seu livro até então mais famoso, a protagonista Amy Dunne forja o próprio sequestro com o objetivo de incriminar seu marido, Nick, e eventualmente até levá-lo a ser condenado à morte pelo assassinato da esposa. O estopim para tal plano é a descoberta de que Nick está tendo um caso com uma de suas alunas universitárias, mas o descontentamento de Amy com seu casamento, que acaba alcançando esses níveis extremos, vai muito além disso. Flynn discute, então, as expectativas que colocamos uns nos outros e a forma com que um casal perfeito pode esconder magistralmente a podridão por trás das aparências.

Enquanto isso, seu livro anterior, Lugares Escuros, acompanha a tentativa de Libby Day de inocentar seu irmão, aprisionado pelo assassinato cruel do restante da família, evento ocorrido quando Libby era criança – ela, nem a própria entende muito bem como, conseguiu escapar. A investigação faz com que a protagonista precise sair do estado quase catatônico com que viveu sua vida até então, mergulhando em seu passado de uma maneira intensa e recordando a dificuldade que sua mãe enfrentava para criar quatro crianças sozinhas, o envolvimento de seu irmão com adolescentes suspeitos de estarem envolvidos com rituais satânicos e o relacionamento conturbado com o pai.

Na bibliografia de Gillian Flynn, há camadas e mais camadas por trás das aparências com as quais nos mascaramos para parecermos bem-sucedidos, felizes ou até mesmo apenas funcionais (no caso de Libby e de Camille, por exemplo). Enquanto isso, o papel da mídia é retratado por meio da cobertura incansável do desaparecimento de Amy – uma bela mulher branca e aparentemente perfeita desaparece? É claro que ela se torna a queridinha da América – e de como ela usa isso para manipular Nick; em Lugares Escuros, Libby envolve-se na tentativa de inocentar seu irmão quando procura um grupo de aficionados por crimes não-resolvidos, algo que ela faz em busca de dinheiro, pois, além desses “fãs”, ninguém mais se interessa pelo que houve com sua família – muito tempo se passou e muitos outros crimes “similares” aconteceram. Ela não é mais a garotinha que sobreviveu e que precisa de ajuda.

Já em Objetos Cortantes, a própria Camille precisa navegar entre o desejo de seu editor de que ela coloque suas origens no papel, colorindo as reportagens sobre os crimes em Wind Gap com os sentimentos conflituosos sobre estar de volta, enquanto os habitantes da cidadezinha dividem-se entre procurarem os holofotes ou hesitarem diante dele.

Mas o ponto em comum entre os três romances de Flynn é definitivamente as protagonistas complicadas que comandam essas histórias. Afinal, a autora não acredita que seu feminismo signifique que ela precise apenas escrever sobre mulheres exemplares: “Para mim, isso colocaria o feminismo em uma janela muito, muito pequena. Ele é apenas sobre girl power e sobre nos empoderarmos e sobre você ser a melhor versão de si mesma? Para mim, também é sobre a possibilidade de termos mulheres que são personagens más. O que me frustra é a ideia de que mulheres são intrinsecamente boas, maternais. Na literatura, elas podem ser más de uma forma descartável – ‘vadias’ – mas há uma negação da ideia de que elas podem ser pragmaticamente más, cruéis e egoístas.”

É claro que isso não é uma noção exatamente nova, mas, considerando o estado atual – especialmente há alguns anos – do tratamento recebido pelas personagens femininas em quaisquer mídias, não deixa de ser algo que chama a atenção. Aliás, é sempre curiosos – e frustrante – perceber como houve uma verdadeira regressão em relação às possibilidades das personagens femininas e das mulheres no cinema e na televisão. Em outra história que também fosse publicada recentemente, Amy Dunne seria a motivação para o trabalho de um investigador, o belo corpo desaparecido que coloca toda a trama e seus personagens (homens) em movimento. Em Garota Exemplar, ela é a protagonista. Por meio das palavras de Flynn, essas mulheres “difíceis”, como a própria Dunne se descreve, têm a chance de conquistar o(a) leitor(a) sem precisar disfarçar suas qualidades menos nobres.

É fundamental estabelecermos na mídia que relacionamentos entre mulheres vão muito além de rivalidades, briguinhas e ciúmes. Mas isso não quer dizer encarar tudo através de lentes cor-de-rosa. A escritora acredita que “a violência feminina é uma vertente bem específica de ferocidade. É invasiva. Alguns dos relacionamentos mais perturbadores e doentios que já testemunhei foram entre amigas de longa data e especialmente entre mães e filhas.” Nesse sentido, Objetos Cortantes também se destaca por ser aquele em que os relacionamentos entre as diferentes personagens femininas têm maior força e importância para a história. Amy cresceu sob a sombra de sua versão idealizada e fictícia – seus pais, escritores, transformaram a filha na “Amazing Amy”, protagonista de uma série best-seller de livros infantis. Já Libby teve sua infância abruptamente encerrada pelo assassinato de sua família, depois de presenciar – e de entender apenas um pouco – sobre os sacrifícios que a mãe fazia para sustentá-los.

O relacionamento de Camille Preaker com sua mãe, Adora, é ainda mais conturbado. Adora é o ápice de tudo o que Flynn escreve sobre as aparências que assumimos como máscaras para causarmos a impressão que desejamos na sociedade – no caso de Adora, aquela de uma mulher carinhosa, dedicada e altruísta, além de elegante e “decente”. Isso tudo esconde uma necessidade gigantesca de ser útil, de ser necessária para alguém. Adora prefere fechar os olhos para o trabalho de Camille em Wind Gap do que encarar a realidade de que tais atos possam ter sido cometidos lá – “Por que uma jovem mulher como você iria querer se envolver com essas coisas?”. Cada atitude, cada gesto da protagonista é visto como uma ameaça à imagem cuidadosamente curada de Adora. “As bibliotecas estão repletas de histórias sobre gerações de homens cruéis, presos em um ciclo de agressão. Eu queria escrever sobre a violência das mulheres”, diz a autora.

Camille sempre foi vista como uma garota difícil, e sua meia-irmã Amma já entende muito bem o quanto isso seria ainda mais perigoso para ela mesma; com isso, a adolescente usa a mesma estratégia da mãe, transmitindo uma imagem extremamente infantil e frágil em casa apenas para que Adora não desconfie de sua rotina com os amigos, que envolve ficar na rua até bem mais tarde do que o toque de recolher permite e o consumo de álcool e drogas. “A mamãe diz que você era incorrigível”, diz Amma para Camille no segundo episódio. “Eu sou incorrigível também, só que ela não sabe.”

Envolvida de perto com todas as suas adaptações, com a exceção de Lugares Escuros, na qual fez apenas uma ponta, Flynn usa sua experiência como roteirista para pincelar a essência de seus livros e levá-los para as telas. Além de ter assinado o roteiro de Garota Exemplar e de escrever alguns dos episódios de Sharp Objects, na qual é também uma das produtoras executivas, Flynn já expandiu seus horizontes para além de seus próprios trabalhos. Além de alguns projetos que (ainda?) não saíram do papel, ela roteirizou todos os episódios de uma refilmagem da série britânica Utopia, a ser exibida pela Amazon (a ideia original era levá-la para a HBO com a direção de David Fincher) e escreveu o roteiro de As Viúvas, dirigido por Steve McQueen.

Sim, podemos esperar mais personagens multifacetadas nessas duas obras, especialmente em As Viúvas, que conta a história de um grupo de quatro mulheres que decide tomar as rédeas após as mortes de seus maridos criminosos. Lugares Escuros é, talvez não coincidentemente, a adaptação mais fraca entre as três. Garota Exemplar e Sharp Objects ainda têm em comum o fato de terem sido dirigidas por homens – David Fincher e Jean-Marc Vallée – que já mais do que escancaram seu interesse por personagens femininas como as que Flynn escreve, o que certamente contribui para a complexidade de suas respectivas obras e, ao lado do envolvimento da escritora, permite que suas intenções mostrem-se verdadeiras e bem-sucedidas tanto nas telas quanto no papel.

E ainda há muito para acontecer em Sharp Objects. Escrevo este texto alguns dias após a exibição do terceiro episódio. Trata-se do meu livro favorito de Flynn, que é uma das escritoras que mais admiro. Seja você um fã como eu ou um novato no mundo perturbado e sombrio da autora, os próximos episódios da minissérie prometem ser alguns dos melhores que veremos na televisão este ano. Portanto, entregue-se à jornada e abrace cada nuance, cada plano, cada sutileza e, é claro, cada requinte de crueldade.

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