Cinema Sem Y | Pantera Negra: O MCU nunca mais será o mesmo… talvez nem o cinema

Panter Negra Cinema sem Y

Praticamente sempre que sai um filme novo da Marvel Studios, é a mesma coisa: alguns recordes de vendas são batidos, o público se empolga, muitos fãs declaram que esse lançamento mais recente é o melhor capítulo do Marvel Cinematic Universe (ou MCU) até agora… Isso é perfeitamente compreensível, já que o título mais novo tende a ser, realmente, mais entusiasmante, pelo menos por algum tempo. Entretanto, de vez em quando, chega algo que realmente atinge os espectadores de uma maneira diferente. É o caso de Pantera Negra, primeiro filme do MCU protagonizado por um super-herói negro e, também, o primeiro dirigido por um cineasta negro.

Ryan Coogler chamou a atenção da indústria logo com seu filme de estreia, o aclamado Fruitvale Station: A Última Parada, em que Michael B. Jordan viveu Oscar Grant III, um jovem de 22 anos que foi morto por um policial nas primeiras horas do ano de 2009. Dois anos depois, em 2016, Coogler lançou Creed: Nascido para Lutar, em que repetiu a parceria com Jordan para contar a história de como Adonis Johnson, filho de Apollo Creed, tornou-se um boxeador sob o treinamento de Rocky Balboa. A obra, sucesso de público e crítica, contou com um orçamento consideravelmente maior em relação ao independente Fruitvale Station e cementou Coogler como um dos diretores mais promissores de sua geração.

Até que, em 2014, o filme-solo do Pantera Negra ganhou sua data de estreia oficial, com Chadwick Boseman no papel-título ¿ ele seria introduzido ao MCU ainda em Capitão América: Guerra Civil, de 2016, antes de comandar seu próprio longa. Em 2014, foi confirmado que Ava DuVernay estava conversando com a Marvel Studios para dirigir ou Pantera Negra ou Capitã Marvel. Era a primeira demonstração de que o estúdio estava interessado não apenas em contar histórias centradas em personagens que até então não haviam assumido o protagonismo (um homem negro e uma mulher, respectivamente), mas também de manter essa inclusão também atrás das câmeras. DuVernay acabou se desinteressando pelo MCU (mas manteve o contato com a Disney que, logo em seguida, deu-lhe a oportunidade de dirigir Uma Dobra no Tempo). Mais algum tempo se passou e, no início de 2016, Coogler foi finalmente confirmado como o diretor de Pantera Negra.

E nunca houve um filme como Pantera Negra ¿ uma superprodução hollywoodiana, parte de uma megafranquia, escrita por negros (Coogler e Joe Robert Cole), dirigida por um negro, protagonizada por um negro e com um elenco 99% negro (dos diversos personagens de destaque, apenas dois são brancos). O filme estreou há menos de um mês, mas seu impacto já foi sentido não apenas na excelente bilheteria ou na majoritariamente positiva resposta da crítica, mas na alegria, no êxtase e na emoção de crianças, jovens e adultos negros de todos os cantos do mundo, que, desde que os super-heróis tornaram-se figurinhas marcadas nas telas de cinema com o advento do MCU, jamais haviam enxergado-se retratados de maneira tão positiva e multifacetada. Afinal, Coogler explora a fórmula do MCU para contar uma história sobre um país africano livre do colonialismo que tanto afetou o continente e, por isso, Wakanda é uma nação magnífica, onde a tradição mistura-se à tecnologia mais moderna do mundo, onde os rituais mesclam-se à ciência, onde até mesmo os sotaques do povo local podem expressar-se livremente.

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Mas vou deixar esse assunto ser explorado mais a fundo por quem mais entende dele; eu, não sendo negra, sou obviamente capaz de me encantar e de emocionar com essa inclusão e essa representatividade, mas não por experiência própria, e sim por empatia. Portanto, vamos focar o restante deste texto em outro ponto importantíssimo para que Pantera Negra tenha a força que tem: a presença feminina em peso tanto atrás quanto à frente das câmeras.

A mulher de maior destaque em Pantera Negra é Nakia, vivida por Lupita Nyong’o como uma espiã inteligente, experiente, dedicada e ansiosa para fazer do mundo um lugar melhor e seguro para todos ¿ a começar por seu próprio país. Em meio ao conflito central entre T’Challa e Erik Killmonger, é a visão de Nakia para o futuro de Wakanda que prevalece. Ah, e ela é o interesse romântico do protagonista. O amor dos dois é baseado em admiração e respeito, e jamais reduz a multidimensionalidade de Nakia.

Enquanto isso, outro relacionamento fundamental para o desenvolvimento de T’Challa é o dele com sua irmã mais nova, a brilhante Shuri, interpretada por Letitia Wright. Com apenas 16 anos, Shuri comanda todo o desenvolvimento e pesquisa de tecnologia em Wakanda, e sua expertise é imprescindível para o sucesso não apenas das missões do irmão (ela é a responsável, entre dezenas de outras coisas, pela nova versão do uniforme do Pantera Negra), mas para o cotidiano e a sobrevivência de Wakanda.

Há, ainda, a destemida Okoye (Danai Gurira), comandante da guarda real, formada pelas Dora Milaje ¿ todas mulheres. Além de serem incrivelmente fascinantes por si só, essas três mulheres ainda dividem diversas cenas entre si, já que as personagens femininas de Pantera Negra jamais são colocadas de lado ou diminuídas em relação aos personagens do gênero masculino. Nakia, Shuri e Okoye são as de maior destaque, mas é importante notar, por exemplo, a força que Angela Bassett imprime à Rainha Ramonda, ou o fato de que o conselho dos povos de Wakanda é majoritariamente feminino.

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Nos bastidores, destaca-se o trabalho da diretora de fotografia Rachel Morrison, que recentemente tornou-se a primeira mulher indicada ao Oscar de melhor fotografia por seu trabalho sublime em Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi. Em Pantera Negra, ela explora ao máximo a ambientação de Wakanda, a tecnologia avançada do país e os figurinos repletos de cores e detalhes, além de imprimir beleza e energia às sequências de ação. A presença de Morrison não é acidental ¿ aqui, assim como em seus dois longas-metragens anteriores, Coogler sempre demonstrou entender que uma equipe de filmagem formada pelas melhores pessoas para cada função terá uma forte presença feminina. Morrison fotografou também Fruitvale Station, enquanto a fotografia de Creed ficou a cargo de Maryse Alberti.

O site HelloGiggles traz uma entrevista em que o cineasta destaca as mulheres fundamentais para Pantera Negra tornar-se o que é:

“Nossa equipe contratou as mulheres que eram as melhores pessoas para o trabalho. Elas não foram contratadas por serem mulheres, elas foram contratadas por que eram as melhores para o trabalho. Temos Rachel Morrison, nossa diretora de fotografia; nossa designer de figurinos, Ruth Carter, nossa designer de produção, Hannah Beachler, nossa primeira assistente de direção, que foi responsável por que tudo caminhasse bem, Lisa Satriano. Na pós-produção, o filme foi editado por Michael Shawver e Debbie Berman, que é da África do Sul, e finalizado por Victoria Alonso.”

O argumento de que “a melhor pessoa foi a escolhida” é muito frequentemente usado como desculpas para justificar o whitewashing, por exemplo, ou a formação de um elenco formado quase que somente por homens e/ou por pessoas brancas. É relativamente raro ver alguém que, como Coogler, reconhece que contratar a melhor opção é uma atitude que passa, necessariamente, pela inclusão.

Uma mudança de perspectiva é capaz de fazer uma fórmula já vista antes, como a do MCU, ser renovada. Afinal, a inclusão na indústria cinematográfica abre os olhos da própria indústria e de todos os espectadores a diferentes pontos de vida, experiências de vida e perspectivas. E todos nós só temos a ganhar com isso. Portanto, que venham mais cineastas como Ryan Coogler e mais obras lindas como Pantera Negra para mostrar que todos merecem sentir-se vistos e compreendidos na Arte, que todos somos capazes de expandir nossa visão de mundo e que todos nos beneficiamos imensamente disso.

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