Em seu fim de semana de estreia, 52% da audiência norte-americana de Mulher Maravilha foi composta por mulheres. O que isso demonstra? Que mulheres clamam por filmes centrados em personagens femininas e que elas assistem sim a filmes de ação e de super-heróis. Não que isso devesse ser novidade, já que as estatísticas costumam ser igualmente divididas entre os gêneros no cinema de maneira geral. Mas muitos ainda insistem em excluir as mulheres da cultura nerd e do protagonismo. Como 48% é uma porcentagem considerável, os dados ainda provam que homens também estão interessados em protagonistas femininas.

Mas os números significativos do longa de Patty Jenkins não param por aí. Arrecadando 100,5 milhões de dólares em seu fim de semana de estreia nos Estados Unidos, Mulher Maravilha se estabeleceu como a melhor estreia da história para uma diretora, superando o recorde anterior dos 85,2 milhões de dólares feitos por Cinquenta Tons de Cinza, dirigido por Sam Taylor-Johnson.

O orçamento de Mulher Maravilha foi de 149 milhões de dólares, o suficiente para colocá-lo como segundo maior orçamento já recebido por uma diretora feminina — ficando atrás de K-19: The Widowmaker, lançado por Kathryn Bigelow em 2002.

Quando os X-Men e o Homem-Aranha chegaram às telonas, respectivamente em 2000 e em 2002, os quadrinhos de super-heróis provaram ser uma fonte lucrativa de filmes de qualidade. Filmes de heróis não eram novidade, é claro, mas eles jamais haviam chegado com tanta força aos cinemas. Depois disso, tivemos apenas duas protagonistas femininas: a Mulher-Gato, em 2004, e Elektra, em 2005, produções de baixa qualidade fadadas ao fracasso de público e crítica.

Mas, graças à misoginia da sociedade e da indústria, as protagonistas femininas são incumbidas da responsabilidade de representar o gênero inteiro. Assim, Mulher-Gato e Elektra, filmes ruins que fracassariam mesmo se fossem centrados em homens, pareciam ter acabado com as chances de outras super-heróinas alcançarem as telonas como protagonistas.

Até que, em 2008, houve uma mudança significativa na maneira com que esses personagens passariam a ser levados para o cinema. Com Homem de Ferro, a Marvel deu o pontapé inicial em seu Universo Cinematográfico que, a partir dali, adaptaria seus quadrinhos de maneira interligada. Em 2013, a DC resolveu entrar na brincadeira e, com O Homem de Aço, criou seu Universo Estendido. As maiores editoras dos quadrinhos passaram a trabalhar de maneira planejada, estabelecendo personagens individualmente e, então, reunindo-os em superproduções centradas em seus times, respectivamente, os Vingadores e a Liga da Justiça.

Mais antigo, o Universo Cinematográfico da Marvel encerrará 2017 somando 17 longas-metragens. O número de protagonistas femininas? Zero. Isso só acontecerá em 2019, quando a Capitã Marvel chegará aos cinemas na pele de Brie Larson. No ano anterior, Hope Van Dyne divide o título (e, esperamos, o protagonismo) com Scott Lang em Homem-Formiga e a Vespa.

A DC demorou menos para nos entregar uma protagonista mulher, mas não poderia ser diferente: nenhuma personagem da Marvel se equipara à Mulher Maravilha, a maior heroína de todos os tempos e parte da Trindade da editora, formada por ela, Superman e Batman. Mesmo assim, essa é a primeira vez que Diana Prince ganha um filme live-action, ao contrário de seus companheiros, que despontaram nas telonas com frequência ao longo das últimas décadas.

De uns anos para cá, a sociedade vêm avançando em muitos aspectos, enquanto a internet proporciona um debate mais complexo de diversos assuntos sociais. Assim, a representatividade no cinema é um tema cada vez mais em alta, e as atrizes e cineastas mais engajadas da atualidade discutem sem hesitar as disparidades no tratamento de profissionais e personagens femininas em relação aos homens. Nesse contexto, a Warner Bros., estúdio responsável pelos filmes da DC, tomou a sábia decisão de ativamente procurar uma mulher para levar a Mulher Maravilha para as telonas. O projeto terminou nas mãos de Patty Jenkins.

Jenkins estreou como diretora em 2003 com Monster: Desejo Assassino, uma produção independente que arrecadou 7,5 vezes mais do que seu orçamento e que rendeu o primeiro Oscar a Charlize Theron. Sucesso absoluto de crítica, o filme foi escolhido por Roger Ebert como o terceiro melhor da década. Jenkins só voltaria à cadeira de diretora com Mulher Maravilha, lançado 14 anos depois de sua obra de estreia.

Diretores advindos da cena independente, seja com filmes de sucesso ou não, frequentemente são escalados por Hollywood para comandar superproduções. Foi o caso de James Gunn, Jordan Vogt-Roberts, Colin Trevorrow, entre tantos outros. Mas, para Jenkins, essa mesma chance demorou mais de uma década para chegar. Ela falou sobre isso em entrevista ao The Hollywood Reporter:

“Muitas coisas que cruzaram meu caminho pareciam projetos repletos de problemas. E eu pensei, ‘Se eu aceitar isso, será um grande desserviço às mulheres. Se eu aceitar isso sabendo que será um problema e então parecer que a responsabilidade foi minha, isso será um problema. Se eles fazem isso com um homem, é  apenas mais um erro cometido pelo estúdio. Mas comigo, vai parecer que eu deixei a bola cair, e vai passar uma mensagem muito ruim. Por isso, eu me mantive muito cuidadosa em relação aos projetos que aceito.”

Um desses projetos problemáticos foi Thor: O Mundo Sombrio, que acabou indo para as mãos de Alan Taylor e apresentando uma performance bastante mediana entre a crítica e os fãs. Depois de deixar a Marvel, em 2010, Jenkins foi até a Warner apresentar seu pitch para a personagem que o estúdio ainda não sabia muito bem como levar para a telona: a Mulher Maravilha. Sua ideia era acompanhar Diana desde a infância e centrar a ação na Primeira Guerra Mundial. Entretanto, a Warner contratou Michelle MacLaren, que deixou o longa devido a conflitos entre sua visão e a do estúdio. Então, os produtores reavaliaram a proposta de Jenkins e decidiram ir para frente com ela no comando da obra, concordando em deixá-la seguir sua própria visão.

A dificuldade dos grandes estúdios em deixar os diretores efetivamente liderarem seus filmes de super-heróis não é um problema que afeta apenas as cineastas mulheres, é claro. Foi isso que levou Ava DuVernay a não aceitar o convite para dirigir Pantera Negra, mas Homem-Formiga começou a ser produzido com Edgar Wright na direção, até que ele deixou o projeto em maio de 2014 citando as famosas “diferenças criativas”. Mas Mulher Maravilha é certamente um belíssimo exemplo de que permitir que super-heróis sejam levados ao cinema por cineastas que entendam o personagem e que possam imprimir sua identidade no longa é extremamente benéfico.

A importância da Mulher Maravilha para a representatividade e o empoderamento femininos existe independentemente de sua arrecadação nas bilheterias, obviamente. Entretanto, o sucesso financeiro do filme é significativo para provar o quanto o público anseia e aceita obras comandadas por mulheres fortes, que não precisam diminuir essas personagens, e que são feitas por mulheres. E o público geral, que não se importa com nada disso, quer apenas boas histórias — algo que Mulher Maravilha entrega de maneira honesta e envolvente.

Mulher Maravilha é o filme mais barato dentro do DCEU. No último final de semana de junho, o longa se tornou também sua maior bilheteria norte-americana, alcançando 330,533 milhões de dólares ao longo de quatro semanas de exibição. O número o coloca acima de “O Homem de Aço”, “Batman v Superman” e “Esquadrão Suicida”, que nunca alcançaram esse valor em todo o seu tempo nos cinemas.

Isso é ainda mais impressionante quando consideramos outros dois fatores. Primeiramente, Mulher Maravilha teve um final de semana de estreia 37% menor do que BvS, 22% menor do que Esquadrão Suicida e 20% menor do que O Homem de Aço. O segundo dado importante é que, em seu segundo final de semana em exibição, o longa teve uma queda nas bilheterias de apenas 43,2%, um feito impressionante para um mega blockbuster. O último filme de super-herói a ter uma queda menor do que essa foi o primeiro Homem-Aranha, de 2002, que arrecadou 37% a menos no segundo fim de semana em relação à estreia.

As críticas e audiências adoram Mulher Maravilha. As pessoas estão falando incansavelmente sobre o filme, a personagem, a diretora, os quadrinhos — publico esta coluna mais de um mês após sua estreia nos cinemas.

A obra e seu sucesso já são históricos. A Marvel seguiu o exemplo e chamou a dupla de diretores Anna Boden e Ryan Fleck para levar a Capitã Marvel, a primeira protagonista mulher do MCU, para as telonas. Para que uma real diferença possa ser feita, entretanto, precisamos ir além. É incrível e muito importante que a Warner tenha contratado Patty Jenkins para esse projeto, assim como o fato de a Marvel ter chamado Ryan Coogler, um diretor negro, para liderar o primeiro filme do MCU com um protagonista negro. Mulheres e minorias devem ter a oportunidade de contar suas histórias nas telonas, mas não podem — e não querem — ficar apenas nisso. Afinal, as possibilidades para os homens brancos são infinitas, não são?

Nesse sentido, Mulher Maravilha também já está começando a fazer alguma diferença. Em maio deste ano, a Sony anunciou que Gina Prince-Bythewood (uma mulher negra!) vai dirigir Silver & Black, “spin-off do Homem-Aranha” (as aspas estão ai pela cara que o Kevin Feige deve estar fazendo) que deve chegar aos cinemas após Venom.  O filme vai acompanhar as personagens Sabre de Prata e Gata Negra, duas mulheres brancas. Enquanto isso, Prince-Bythewood (se você não conhece o trabalho dela, confira agora mesmo Nos Bastidores da Fama, com Gugu Mbatha-Raw) dirigiu dois episódios de Cloak & Dagger, série sobre os mutantes da Marvel, Manto e Adaga. Ela é a primeira diretora negra a comandar um filme de super-herói.

Mesmo assim, em meio ao alvoroço causado por Mulher Maravilha, era de se esperar que essa notícia ganhasse mais destaque. Afinal, se a situação é dificílima para todas as mulheres na indústria cinematográfica, o buraco é ainda mais embaixo quando falamos de mulheres que não sejam caucasianas, heterossexuais, cis. Para que realmente possamos mudar as coisas, precisamos abraçar as lutas umas das outras e entender as particularidades de cada grupo.

Mulher Maravilha obrigou a indústria e o público a aceitarem que um filme feito e estrelado por mulheres é capaz de conquistar a audiência e brilhar nas bilheterias. Que uma cineasta do gênero feminino é perfeitamente capaz de entregar cenas de ação envolventes e de contar uma história para todos. Que uma personagem feminina pode viver um romance sem que isso defina toda a sua trajetória. Que um personagem masculino pode ser complexo e interessante sem tirar o protagonismo da heroína. Que uma mulher pode ser bondosa, altruísta e graciosa sem que isso a impeça de também ser poderosa, forte e corajosa. Que o fato de uma mulher estar no comando fez uma grande diferença para evitar a sexualização e manter a agência das personagens que acompanhamos.

Nada que a parcela do público preocupada com representatividade e inclusão nas artes já não estivesse cansada de saber. Mas, infelizmente, coisas que muitos ainda têm dificuldade em enxergar. Nesse sentido, Mulher Maravilha representa um marco, pois efetivamente rompe com diversas noções que ainda insistem em manter as mulheres em segundo plano no cinema.

Indo muito além do cinema, Mulher Maravilha é simplesmente inspirador e tocante em muitos sentidos, e é emocionante pensar em todas as meninas — e meninos — que crescerão tendo Diana Prince como ícone e sabendo que podem ser o que quiserem. Inclusive cineastas que, espero, trabalhem em uma indústria mais inclusiva do que aquela que fez com que a maior heroína de todos os tempos enfrentasse tantos obstáculos para chegar às telonas.

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