Cinema sem Y | Manic Pixie Dream Girl

Manic Pixie Dream Girl


Enquanto o protagonista masculino enfrenta situações complexas e percorre um arco dramático bem definido, precisamos também de algo que vai motivá-lo a ir do “ponto A” até o “ponto B”, não é mesmo? Tal tarefa, frequentemente, cabe a uma mulher. A vida interna dela — seus sonhos, seus medos, sua personalidade, sua história — não importam. Ou melhor, importam, desde que sirvam para 1) torná-la atraente aos olhos do protagonista ou 2) inspirá-lo a aprender lições de vida e guiá-lo ao longo de seu arco. Estamos falando da Manic Pixie Dream Girl, um tipo de personagem feminina que teve seu nome cunhado pelo crítico Nathan Rabin.

O título nasceu na crítica que Rabin publicou no AVClub para o filme Elizabethtown, protagonizado por Orlando Bloom e cujo interesse romântico é vivido por Kirsten Dunst. Para Rabin, a personagem dela “existe puramente nas imaginações fervorosas dos sensíveis escritores/roteiristas que ensinam jovens homens reflexivos a abraçar a vida e seus infinitos mistérios e aventuras.” Esses mistérios e aventuras, é claro, envolvem as atenções de belas e dedicadas jovens extremamente femininas e excêntricas que, por algum motivo, interessam-se por esses homens que, quase sempre, são imaturos, nada excepcionais e até mesmo bastante patéticos. A falta de uma personalidade multifacetada e bem estruturadas para as Manic Pixie Dream Girls também as estabelece como um quadro em branco na qual o protagonista (e o público) pode despejar suas expectativas. Isso faz com que, frequentemente, esses homens se apaixonem por suas MPDGs antes mesmo de realmente conhecê-las, já que não importa quem elas são, mas como o protagonista pode enxergá-la como A Mulher Ideal.

Manic Pixie Dream Girl

Entretanto, há também uma tendência de descaracterizar esse perfil de personagem e aplicá-lo a mulheres fictícias que são apenas excêntricas ou mais independentes, mas cujo relacionamento com o protagonista ou mesmo com o co-protagonista não é, exatamente, seu traço definidor; há mais por trás delas do que apenas a motivação do homem. É o caso, por exemplo, de Susan Vance em Levada da Breca, Holly Golightly em Bonequinha de Luxo, Fran Kubelik em Se Meu Apartamento Falasse e Maria von Trapp em A Noviça Rebelde. Quando personagens multifacetadas recebem o rótulo de Manic Pixie Dream Girl principalmente por serem o interesse romântico de um personagem masculino, o conceito — que deveria ser usado para criticar a forma como a indústria cinematográfica enxerga as mulheres, e não apenas as personagens em si — perde seu sentido original, como se o romance em tela por si só reduzisse a agência das personagens femininas, mas, muito convenientemente, não dos personagens masculinos.

O problema é mais embaixo — e, aliás, é interessante perceber como o cinema das décadas de 30, 40, 50 e 60 é repleto de personagens femininas que são mais independentes e dinâmicas do que muitas da atualidade.

Outro grande problema causado pela má compreensão do público (principalmente, mas não apenas, masculino) em relação às MPDGs é a tentativa de caracterizar mulheres reais com o rótulo. A ideia é criticar as personagens femininas que são enxergadas pelo prisma masculino, sem vidas internas e motivações próprias; isso é muito mais importante para caracterizar uma personagem como Manic Pixie Dream Girl do que as roupas que ela usa ou a maneira como se comporta. O rótulo, portanto, pode ser aplicado exclusivamente a personagens da ficção que se encaixam nessa idealização reducionista daquilo que uma mulher pode ser ou fazer no cinema (ou na televisão, na literatura, nos videogames etc.).

Uma mulher de verdade é, assim como literalmente qualquer outro ser humano, um indivíduo dono de sua própria vida; o mundo real não é dividido entre protagonistas e coadjuvantes. Há, é claro, homens que insistem em projetar qualidades e expectativas nas mulheres que conhecem e que tentam moldá-la nesse sentido, ignorando tudo o que contradiz essa imagem — mas isso não diminui a individualidade e a agência da mulher, ao contrário do que acontece com as Manic Pixie Dream Girls. Portanto, classificar Zooey Deschanel, por exemplo, de ser uma MPDG pelo fato de que muitas de suas personagens são vistas assim e por ela mesma apresentar uma imagem excêntrica e romântica é uma atitude machista e que demonstra uma distorção do termo.

Manic Pixie Dream Girl

E por falar em Deschanel, uma de suas personagens mais populares a ser rotulada como MPDG também representa uma falta de compreensão quanto ao rótulo. Na comédia romântica indie (500) Dias Com Ela, a atriz vive Summer Finn, por quem o protagonista, Tom Hansen (Joseph Gordon Levitt) se apaixona. Summer se veste de maneira extremamente feminina e delicada e tem exatamente o mesmo gosto cultural de Tom. Ele se apaixona, enxergando Summer como a mulher perfeita, como a responsável por erguê-lo de uma existência insossa e infeliz. Ou seja, como uma Manic Pixie Dream Girl. A diferença é que Summer recusa essa imagem; ela afasta-se desse romance ideal que ele construiu para os dois sem a reciprocidade dela. O diretor Marc Webb entende que o problema era o ponto de vista de Tom — depois de aparentemente aprender suas devidas lições de vida pós-término, o protagonista encerra o filme jogando suas projeções e ideais românticos sobre outra Mulher Ideal.

A mesma lógica pode ser aplicada a Clementine, personagem de Kate Winslet no drama sci-fi Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, e a Ramona Flowers, interpretada por Mary Elizabeth Winstead em Scott Pilgrim vs. the World. Ramona é misteriosa, fechada e complicada; alguém por quem o protagonista imediatamente fica fascinado. Entretanto, a “missão” do jovem para conquistar a garota é abordada com altas doses de sátira e humor, e Ramona ativamente se recusa a diminuir ou mudar quem ela é para facilitar as coisa para ele; ao contrário da MPDG tradicional, Ramona expõem seus defeitos e sua trajetória de vida de uma maneira que desafia Scott e força-o a enxergá-la como um ser humano completo, e não como” A Mulher Ideal” que deve adaptar-se ao que ele mesmo deseja.

Enquanto isso, Clementine é a porta-voz de um trecho de diálogo que se tornou como um hino para a anti-MPDG:

“Muitos homens acham que eu sou um conceito, ou que eu os completo, ou que eu vou fazê-los se sentirem vivos. Mas eu sou apenas uma garota fodida procurando minha própria paz de espírito; não me encarregue da sua.”

Por que tantas personagens femininas multifacetadas e independentes recebem o rótulo de Manic Pixie Dream Girl? Isso acontece quando os cineastas — e, consequentemente, o protagonista masculino — insistem em ler apenas a superfície mais rasa dessas mulheres, preenchendo as lacunas com tudo o que eles mesmos buscam em uma parceira. O problema é que essa tendência também está presente em uma grande parcela do público, fazendo com que as nuances dessas personagens sejam deixadas de lado. Por outro lado, vale a pena destacar que todas as personagens citadas até agora foram criadas por homens. Nem mesmo na hora de discutir padrões misóginos há espaço para as mulheres no cinema.

Uma exceção que não posso deixar de mencionar aqui é Ruby Sparks: A Namorada Perfeita, co-dirigido pelo casal Valerie Faris e Jonathan Dayton e escrito e estrelado por Zoe Kazan.

O longa acompanha o escritor Calvin Weir-Fields (Paul Dano, namorado de Kazan na vida real). Quando ele resolve escrever sobre sua “Mulher Ideal” — olha o termo aparecendo de novo —, Calvin logo descobre que ela se tornou realidade. Inicialmente, os dois embarcam no romance dos sonhos (dele, é claro), mas o poder que o escritor exerce sobre sua namorada/criação torna-se cada vez mais sombrio ao longo da projeção. Em uma cena-chave, ele chega a colocá-la de quatro e latindo como um cachorro, literalmente desumanizando-a. Não satisfeito com o controle total sobre a vida e a própria existência de Ruby, Calvin precisa levá-la ao máximo da submissão e da humilhação quando Ruby começa a tornar-se uma pessoa que existe para além das palavras do protagonista. Dessa forma, Kazan explora todo o sexismo que existe por trás da ideia de que uma mulher pode ser moldada para tornar-se a namorada dos sonhos de um homem, seja pela maneira como ela se comporta, as roupas que veste, os amigos que têm, as coisas que gosta ou os lugares que frequenta.

Kazan, inclusive, já falou sobre seu desgosto em relação ao termo justamente por causa da maneira com que ele é usado para classificar personagens que, na verdade, são bem desenvolvidas e bem resolvidas. Em entrevista à Vulture, ela declarou:

“O que me incomoda é que mulheres são descritas dessa forma, mas é, na verdade, uma reflexão do jeito com que os homens olham para elas e do jeito que eles pensam sobre essas garotas. E não sobre quem a garota realmente é ou como é sua personalidade. Eu acho que colocar no mesmo saco todas as mulheres originais e peculiares significa apagar todas as suas diferenças.”

O próprio autor do título de Manic Pixie Dream Girl demonstra um certo arrependimento ao ver sua criação ser usada erroneamente, citando a Annie Hall de Diane Keaton como um dos exemplos mais absurdos dessa confusão que, assim como o uso original do termo MPDG, também é originado da misoginia. “Woody Allen baseou muito de Annie Hall na própria Diane Keaton, que, até onde eu sei, é uma pessoa real e não uma fantasia masculina ridícula”, desabafou Nathan Rabin ao The Guardian.

Apesar de não encaixar-se no conceito da Manic Pixie Dream Girl (nem dentro nem fora dele), outra personagem criada por uma mulher que explora muito bem esse desejo de encaixar mulheres em caixinhas bem definidas escolhidas ao gosto do homem é Amy Dunne, a protagonista/antagonista de Garota Exemplar. Criada pela escritora e roteirista Gillian Flynn, Amy chegou aos cinemas na pele de Rosamund Pike e dirigida por David Fincher, que tem um currículo repleto de personagens femininas complexas, complicadas e independentes.

Como narradora do livro e do filme, Amy não menciona as MPDGs, mas discute o conceito da “Garota Legal”, um papel que ela inicialmente abraça mas que, aos poucos, passa a utilizar para manipular o marido. Na lógica de Amy, por que uma mulher linda, bem-sucedida e interessante como ela, deveria diminuir-se e submeter-se diante de um homem que não faz o menor esforço para ser um marido ideal para ela? Amy, então, finalmente livra-se dessas camadas falsas que colocou sobre si mesma enquanto explica quem é essa tal “Garota Legal”:

“Ser a Garota Legal significa que sou uma mulher gostosa, brilhante, divertida, que adora futebol, pôquer, piadas indecentes e arrotos, que joga videogame, bebe cerveja barata, adora “ménage à trois” e sexo anal… Garotas Legais são acima de tudo gostosas. Gostosas e compreensivas. Garotas Legais nunca ficam com raiva. Apenas sorriem de uma forma desorientada e amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, me sacaneie, não ligo, sou a Garota Legal.”

No mundo das artes, não faltam maneiras de tentar encaixar personagens femininas em caixinhas convenientes, palatáveis e atraentes ao público e as personagens masculinos. Mas a situação está melhorando, e a própria popularização dos termos, ainda que traga uma onda diferente de sexismo e de classificações equivocadas, também significa que, atualmente, é mais fácil encontrar uma personagem que rejeite o rótulo de Manic Pixie Dream Girl do que uma que seja enxergada dessa forma pelos cineastas responsáveis por sua existência.

Por outro lado, é desanimador perceber o quanto houve um retrocesso nesse sentido ao longo da história cinematográfica. Afinal, muito antes de existirem as Manic Pixie Dream Girls, já haviam as anti-Manic Pixie Dream Girls, como a sensacional Hildy Johnson vivida por Rosalind Russell em Jejum de Amor, de 1940, e as demais personagens já existentes que passaram a ser enxergadas por esse viés depois que o termo foi cunhado.

Um passo adiante, dois para trás. Para os cineastas e para o público de hoje, ainda é necessário destacar a importância de termos uma variedade de personagens femininas que tenham simplesmente a oportunidade de existirem como seres humanos com toda a complexidade, beleza, feiura e conflito que isso envolve, assim como os personagens masculinos puderam e podem fazer ao longo de toda a existência da Sétima Arte.

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3 Comments

  1. Muito obrigada, Amanda! É uma honra te ter como leitora <3 E é isso mesmo… Para quem não tem tanta familiariedade com essas convenções mais do batidas como as MPDGs, a mensagem se torna ainda mais perigosa.

  2. Valeu Amanda! Esperamos que volte mais vezes e comente sempre!

  3. Adorei Mariana! É o primeiro post que leio, mas não largo essa coluna nunca mais! Se para entendedores e pessoas diretamente relacionadas ao cinema este tema é tão pouco debatido, para a grande massa que apenas assiste, a questão das MPDGs torna-se quase uma mensagem subliminar machista.

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