Já falamos bastante, aqui na Cinema Sem Y, sobre mulheres que conseguiram se inserir em gêneros do cinema especialmente dominados por homens. Nos últimos anos, porém, uma nova onda de adaptações vem chamando a atenção pela forte presença de mulheres escrevendo essas histórias e de garotas como protagonistas: o young adult (conhecido pela sigla YA), núcleo da literatura que abranja obras voltadas para o público, como o nome indica, de jovens adultos – especialmente garotas e jovens mulheres.

O sucesso dessas histórias no cinema começou no início dos anos 2000, com Harry Potter: uma saga voltada para crianças que foi amadurecendo ao lado de seus leitores e, com o passar dos volumes, foi se mostrando mais adequada a um público um pouco mais velho. Em seguida, veio a sério que mostrou o poder das garotas para consumir e para se dedicar às histórias que amam: Crepúsculo, baseado nos livros de Stephanie Meyer. A série de quatro livros e cinco filmes cimentou, também, a dominação feminina no gênero, tanto nas telonas quanto no público.

Apesar do sucesso de bilheteria, os filmes da “saga” Crepúsculo foram um fracasso de crítica e, apesar do barulho da plateia e de o último filme ter sido lançado há apenas dois anos, já mostrou que não vai sobreviver ao tempo. Mesmo assim, Crepúsculo teve um papel importante em estabelecer a importância de não ignorar o público feminino e de incluir personagens e realizadoras mulheres no cinema.

Cinema Sem Y Crepúsculo

A protagonista daquela série, Bella Swan, é uma garota com que as leitoras facilmente se identificam: ela não se encaixa, se sente deslocada, lida com uma drástica mudança de cidade e, finalmente, encontra sua força ao descobrir o mundo sobrenatural que a cerca. Há muitas críticas a serem feitas à série: a autora, que é mórmon, coloca uma importância preocupante na castidade, estabelecendo o ato sexual como algo literalmente mortal para a protagonista. O relacionamento de Bella com seus dois interesses românticos é abusiva, co-dependente e longe de ser saudável. Mas, como já discutimos bastante aqui na coluna, ao mesmo tempo que muito importante criar personagens femininas complexas e independentes, não podemos colocar, em cada mulher, a responsabilidade por todo o gênero: assim como seus colegas masculinos, cineastas mulheres também tem o direito de errar e de realizar obras questionáveis.

O fato é que Crepúsculo colocou os livros young adult no centro da atenção dos estúdios, ávidos para encontrar sua próxima fonte de dinheiro e da atenção do público. Depois de a onda sobrenatural passar e de o gênero parar de escrever sobre vampiros, fadas, anjos e outras criaturas, a escritora e roteirista Suzanne Collins decidiu inserir a distopia e referências à mitologia grega em Jogos Vorazes, que se tornaria o próximo fenômeno do gênero, tornando a ficção científica como a “nova regra” dos livros voltados a jovens adultos. Conseguindo, no caminho, fazer o que até agora nenhuma outra saga da onda conseguiu: conquistar o topo das bilheterias e a atenção da crítica.

Em 2012, o primeiro filme da saga, Jogos Vorazes, chegou ao terceiro lugar das bilheterias, ficando à frente de 007 – Operação Skyfall e de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada – perdendo apenas para Os Vingadores e O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Em 2013, Jogos Vorazes: Em Chamas ultrapassou Homem de Ferro 3 e se tornou o primeiro filme protagonizado unicamente por uma personagem feminina (e não em um papel coadjuvante de destaque, como Hermione Granger em Harry Potter, ou dividindo o espaço principal com um homem) a chegar ao topo das bilheterias desde O Exorcista, no distante 1973 – há 40 anos. Em terceiro lugar, outro filme liderado por mulheres: Frozen, primeira animação da Disney a trazer duas protagonistas femininas – que fez história ao tornar-se o primeiro filme dirigido por uma mulher (Jennifer Lee, ao lado de Chris Buck) a ultrapassar 1 bilhão de dólares na bilheteria. Gravidade, liderado por Sandra Bullock, terminou o ano em sexto lugar.

Em novembro deste ano, mesmo ficando abaixo das estreias dos longas anteriores, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 arrecadou 123 milhões de dólares em seu fim de semana de estreia, estabelecendo-se como a melhor estreia do ano até agora. Enquanto isso, a crítica destaca o excelente elenco e a relevância dos pesados temas retratados pela série, como a manipulação da mídia, a opressão do governo e o poder da propaganda.

Cinema Sem Y Jogos Vorazes

O sucesso da série é, em grande parte, devido à protagonista, Katniss Everdeen, interpretada pela ótima Jennifer Lawrence. A atriz retrata com excelência o conflito de emoções da garota e o impacto que as terríveis situações que ela viveu têm sobre a jovem. Em A Esperança – Parte 1, Katniss mostra-se incapaz de se tornar a garota-propaganda da revolução se tiver que gravar vídeos em estúdio, recitando as “frases de efeito” escritas pela equipe de filmagem. Colocada em campo em meio aos horrores da guerra, porém, a jovem mostra sua força e faz um impactante discurso sobre a importância de os distritos se juntarem à luta contra a Capital.

Para a crítica MaryAnn Johanson, do site Flick Filosopher, este é um elemento importante da saga e da personalidade da protagonista: “Há muitas coisas complicadas e intrigantemente contraditórias acontecendo ali: o triunfo de uma jovem mulher que não pode ser controlada, mas brilha quando pode ela mesma, me deu um nó na garganta. Ao mesmo tempo, eu estava perfeitamente ciente de que aquela poderosa raiva estava sendo transformada em um produto. Ela, então, termina controlada e manipulada de qualquer jeito.”

Katniss, que entrou para a nossa lista de melhores protagonistas dos últimos dez anos, é a mais complexa e complicada protagonista dos recentes livros young adult, além de ser a principal heroína do cinema atual. Vivida por uma atriz talentosa nos cinemas, ela é figura importante na hora de provar a importância de termos mulheres reais e complexas no centro de suas histórias. E, em Jogos Vorazes, Katniss não é a única: a série é repleta de personagens femininas bastante variadas, desde mães que fazem de tudo para proteger seus filhos, crianças doces que precisam encontrar sua força no mundo violento em que vivem, e mulheres competentes em posições de autoridade, que precisam aprender a deixar de lado suas emoções para conseguirem cumprir seus deveres.

Mesmo incluindo, como é de praxe no gênero, um triângulo amoroso, até ele existe para ressaltar o quanto Katniss simplesmente não tem tempo para romance em meio a tudo o que pelo que passa. Peeta e Gale, afinal, representam muito mais do que duas opções à resposta “Com quem Katniss vai ficar?”: os jovens são dois aspectos da vida da protagonista, dois conjuntos de valores e de características que ela preza, e os dois se mostram muito mais certos de seus sentimentos pela garota do que ela mesma. Afinal, segundo ela mesma, a única pessoa que ela “tem certeza de amar”, sua principal conexão com outro ser humano, é com sua irmã mais nova. Novamente para Johanson, “com não apenas uma protagonista feminina, mas com garotas e mulheres em uma série de papéis coadjuvantes que não são focados em gênero, este filme chega próximo de uma representação verossímil de metade da população do mundo real”.

Suzanne Collins, que começando a carreira de escritora como roteirista, esteve fortemente envolvida no processo de adaptação de Jogos Vorazes, tendo recebido crédito por isso em A Esperança – além de ter assinado o roteiro do primeiro longa. Entretanto, apesar do grande número de escritoras mulheres na literatura young adult, o mesmo não tem acontecido no cinema, onde a realização continua principalmente nas mãos de homens. Uma das poucas exceções é Shauna Cross, roteirista de Se Eu Ficar, adaptação lançada este ano e estrelada por Chloë Grace Moretz.

Que, por sua vez, tem algumas semelhanças com A Culpa é das Estrelas, livro de John Green que também chegou aos cinemas este ano: ambos são exemplos de livros young adult que são romances tradicionais, ambientados no mundo atual e se encaixando nos gêneros drama e romance. Ambos, também, tem uma tragédia no centro da trama e tendem ao melodrama: em Se Eu Ficar, a protagonista Mia Hall e sua família sofrem um grave acidente de carro; em A Culpa é das Estrelas, Hazel Grace e seu par romântico, Augustus, têm câncer. Se Eu Ficar, contudo – mesmo longe de ser uma grande obra -, é uma história bem mais sincera, fazendo um bom trabalho de utilizar a escolha de Mia (acordar ou não do coma) como uma metáfora das escolhas que a garota deve fazer durante seu processo de crescimento e às margens do início de sua vida adulta.

Cinema Sem Y Se Eu Ficar

Mas foi A Culpa é das Estrelas que, apesar dos clichês e da manipulação, conquistou a maior parte da crítica. Isso tem muito a ver com o sucesso de John Green que, sendo um dos poucos autores masculinos renomados do gênero young adult, é frequentemente classificado como sendo “o salvador” do gênero, como se ele superasse todas as escritoras que dominam o núcleo com sua voz masculina. Mesmo em um nicho dominado por mulheres, é fácil para os homens se destacarem.

Outra adaptação lançada este ano, Maze Runner – Correr ou Morrer, foi exemplo perfeito disso. Um dos poucos filmes YA com um garoto como protagonista, Maze Runner foi rapidamente classificado como “um sopro de ar puro” em meio à onda young adult, como se um homem no centro da trama, em qualquer gênero ou estilo, fosse algo revolucionário. Artigos destacaram que, com um protagonista masculino, Maze Runner teria a vantagem de conquistar uma plateia mais variada – algo que Jogos Vorazes e Divergente fizeram com tranquilidade. O sucesso moderado da maioria das adaptações protagonizadas por garotos – Percy Jackson (os livros são voltados para o público infanto-juvenil, mas os personagens foram envelhecidos no cinema), Eu Sou o Número 4, O Doador de Memórias – não é algo tão estranho assim quando considerarmos que o sucesso estrondoso de franquias como Jogos Vorazes e Crepúsculo são, afinal, o objetivo e não a realidade da maioria das adaptações. Divergente, que tem os demais livros da série garantidos para chegar às telonas, chegou perto, mas não conseguiu atrair muito mais do que os fãs dos livros para os cinemas.

Enquanto protagonistas femininas chamam a atenção de um público sedento por boas personagens do gênero feminino, o fracasso (ou sucesso moderado) de livros protagonizados por garotos tem mais a ver com o grande número de adaptações do gênero, enquanto os estúdios tentam acertar o alvo ao produzirem “o próximo Jogos Vorazes” (franquia que, afinal, vai acabar só no final de 2015). A verdade é que, apesar de a maioria destes filmes acertarem ao trazer protagonistas complexas e que tem preocupações maiores do que conquistar um garoto (apesar de se preocuparem, também, com isso – e por que não deveriam?), os realizadores costumam se acomodar no status de bestseller das histórias que tem em mãos e se esquecem de realizar um filme que consiga transcender e alcançar o grande público – afinal, por mais numerosos que sejam, nenhum filme vai longe se apenas os fãs dos livros se importarem com ele.

Mesmo integrando, nos Estados Unidos, 51% da audiência que frequenta salas de cinema (de acordo com dados de 2011 da Motion Picture Association of America), as mulheres, na maior parte do tempo, não encontram, nas salas de cinema, filmes protagonizados por mulheres. Independente de sua qualidade e dos gostos de cada um, o fato é que as adaptações de livros young adult são uma das principais fontes de protagonistas femininas da atualidade e, isso, por si só, já justifica sua existência.

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.