O teste do sofá, ou “casting couch”, é uma forma de abuso que envolve a troca de “favores” sexuais por uma chance profissional, no caso do cinema, em troca de um papel em um filme ou seriado. Rumores de que o megaprodutor Harvey Weinstein era adepto da “técnica” circularam por Hollywood durante décadas, sem que nada de concreto viesse à tona e sem que isso prejudicasse sua carreira ou diminuísse seu poder na indústria.

Até que, em 5 de outubro de 2017, o jornal The New York Times publicou uma reportagem de Jodi Kantor e Megan Twohey, relatando as três décadas ao longo das quais Weinstein praticou diferentes formas de abuso sexual contra atrizes, assistentes de produção e outras funcionárias, especialmente dentro da Miramax e da Weinstein Company. As jornalistas também relevaram que ele havia pago oito acordos devido a acusações por parte de algumas de suas vítimas. Cinco dias depois, na The New Yorker, Ronan Farrow contou a história de uma dúzia de mulheres das quais Weinstein havia abusado sexualmente.

A lista de vítimas chega a mais de 80 nomes, incluindo Asia Argento, Kate Beckinsale, Cara Delevingne, Paz de la Huerta (que contou que Weinstein a estuprou em duas ocasiões), Eva Green, Daryl Hannah, Lena Headey, Angelina Jolie, Ashley Judd, Brit Marling, Rose McGowan, Connie Nielsen, Lupita Nyong’o, Sarah Polley, Léa Seydoux, Mira Sorvino e Sean Young.

Todas têm histórias terríveis para contar sobre o produtor, envolvendo principalmente desconfortáveis convites para que as atrizes se encontrassem com eles sozinhas, na maioria das vezes em um quarto de hotel. Kate Beckinsale tinha apenas 17 anos quando ele a assediou: ela esperava uma reunião formal em uma sala de conferências, mas deparou-se com o produtor vestindo apenas um roupão no quarto de hotel dele. Weinstein ofereceu álcool à (então) garota, que ela recusou. Ao longo dos próximos anos, inúmeros outros convites receberam o “não” de Beckinsale, o que rendeu xingamentos e ameaças por parte de Weinstein. Em um desses encontros posteriores, Weinstein perguntou se ele havia feito algo contra a atriz em seu quarto de hotel — “eu percebi que ele não se lembrava se havia ou não abusado de mim”, contou ela em seu desabafo no Instagram.

O ocorrido exemplifica bem o padrão de abusos de Weinstein: situações, para ele, inconsequentes e pouco importantes — desconsiderando até mesmo o fato de Beckinsale ser menor de idade —, mas que tiveram um forte impacto nas vidas dessas mulheres. E abuso sexual anda de mãos dadas com a humilhação. Quando a modelo Cara Delevingne, que é bissexual, começou a trabalhar também como atriz, ela recebeu uma ligação do produtor, em que ele perguntou se Delevingne havia dormido com alguma das mulheres com quem ela era vista na mídia. Ela se recusou a responder, mas antes de desligar, Weinstein ainda declarou: “Se você for homossexual ou decidir ficar com uma mulher, principalmente em público, você nunca vai conseguir o papel de uma mulher heterossexual ou conquistar sucesso como atriz em Hollywood.” Alguns anos depois, durante uma reunião profissional, ela subitamente encontrou-se sozinha com ele e com outra mulher. Weinstein pediu que as duas se beijassem. Nervosa, Delevingne começou a cantar, na tentativa de que, demonstrando uma habilidade sua, ela faria com que o encontro voltasse para os negócios.

Já para Lupita Nyong’o, o produtor ofereceu uma massagem. A atriz decidiu perguntar se ele não preferiria que ela o massageasse, o que daria controle a Nyong’o e permitiria que ela soubesse exatamente onde as mãos de Weinstein estavam a todo momento.

Várias mulheres já haviam comentado brevemente sobre a personalidade abusiva de Weinstein, mas sem que isso chegasse a algo maior. Durante um evento em 2005, Courtney Love foi perguntada sobre qual seria seu conselho para as jovens mulheres que desejam construir uma carreira em Hollywood. A resposta dela? “Serei processada por difamação se falar isso… Se Harvey Weinstein te convidar para uma festa privada no (hotel) Four Seasons, não vá.”

Conforme mais e mais vítimas do produtor contavam suas histórias, não demorou para que pessoas que sofreram abusos nas mãos de outros homens poderosos na indústria também começassem a dividir seus depoimentos. O próximo acusado a ganhar os holofotes com força foi Kevin Spacey, que assediou o ator Anthony Rapp — em 1986, Spacey convidou-o para uma festa em seu apartamento. Na época, os dois estrelavam musicais da Broadway, e foi assim que acabaram se conhecendo. No final da festa em questão, Rapp conta que Spacey carregou-o até sua cama e subiu em cima dele. Rapp tinha 14 anos e Spacey, 26. Outras 15 vítimas foram reveladas subsequentemente, oito das quais trabalhavam em House of Cards, série estrelada e produzida por Spacey. Temos aqui, portanto, mais um caso de um homem que abusou de seu poder ao longo de décadas e décadas na indústria cinematográfica.

Cinema sem Y Johnny Depp

Spacey, então, tentou mudar o foco da narrativa — em uma declaração publicada em seu Twitter, o ator contou não se lembrar da noite descrita por Rapp, mas disse que, se aquilo realmente aconteceu, ele devia “as mais sinceras desculpas pelo que teria sido o comportamento totalmente inapropriado de um bêbado”. Na mesma nota, Spacey ainda declara que, ao longo de sua vida, se apaixonou e se envolveu romanticamente com outros homens e que, agora, “escolhe viver como um homem gay.” O momento não poderia ser pior: a sexualidade do ator não é relevante para o fato de ele ter cometido diversos abusos sexuais ou emocionais e, além disso, a notícia ainda associa homossexualidade e assédio, reforçando o estereótipo de que homens gays são predadores sexuais — o que levou Spacey a ser ainda mais criticado.

Matthew Weiner, criador de Mad Men, e o ator Dustin Hoffman tiveram uma acusação cada — o primeiro negou, o segundo desculpou-se. O comediante Louis C.K. foi outro cujo padrão de abuso sexual ao longo de décadas foi revelado, quando diversas comediantes contaram que ele tinha o hábito de masturbar-se na frente delas sem consentimento.

O diretor e produtor Brett Retner foi acusado por seis mulheres de abuso sexual e comportamentos inapropriados, como seguir uma atriz ao banheiro sem a permissão dela e começar a se masturbar quando outra foi até seu trailer para entregar uma refeição a Ratner. Uma agente de talentos conta que ele a estuprou. A atriz Ellen Page, que trabalhou com Ratner em X-Men: O Confronto Final, diz que ouviu o diretor dizendo a outra mulher que ela “deveria dormir com Ellen para que ela percebesse que é lésbica”. Page assumiu-se lésbica publicamente em 2014, ou seja, oito anos após X-Men — a atriz conta que, na época, nem ela mesma entendia muito bem sua sexualidade. Mas Ratner sentiu-se no direito de revelá-la a todo mundo, sem consideração alguma pela autonomia e a privacidade da jovem que, então, tinha apenas 19 anos.

Estamos agora no final de novembro de 2017. As últimas novidades dizem respeito ao ator Jeffrey Tambor, até então protagonista da série Transparent, e a John Lasseter, diretor criativo da Pixar. Tambor deixou o seriado, alegando que o set foi tomado por uma “atmosfera politizada” e que, apesar da excelente experiência que ele teve ao interpretar a transexual Maura Pfefferman, “ficou claro que esse não era mais o trabalho que (ele) havia aceitado há quatro anos”. Mas a experiência parece ter lhe rendido poucos entendimentos, já que ele — que, lembre-se, é um ator cis vivendo uma personagem trans — foi acusado pela atriz Van Barnes, que é transexual, de tê-la assediado quando ela trabalhava como sua assistente. A Amazon investiga as alegações de Barnes, que Tambor nega.

As acusações contra Lasseter, por outro lado, foram descobertas apenas quando ele mesmo anunciou seu afastamento da Pixar, em uma medida para antecipar-se à reportagem que o The Hollywood Reporter vinha preparando e que foi liberada logo em seguida. O incidente mais recente parece envolver a atriz e roteirista Rashida Jones, que foi contratada para escrever Toy Story 4 ao lado de seu parceiro habitual, Will McCormack. Os dois continuam creditados no projeto, mas deixaram o longa-metragem logo no início da produção. O site ainda divulga as histórias de diversas outras vítimas, que declaram que o diretor criativo tinha o hábito de “agarrar, beijar e fazer comentários sobre a aparência”das funcionárias da Pixar, além de “beber excessivamente dentro — e fora — de eventos da companhia.”

Em sua declaração de afastamento, Lasseter pede perdão “a qualquer um que já recebeu um abraço ou qualquer outro gesto indesejado que eles tenham sentido que foi além do limite de alguma maneira. Não importa o quanto minhas intenções fossem benignas, todos tem o direito de impor seus próprios limites e de que eles sejam respeitados.” Em uma nota enviada ao The New York Times, Jones e McCormack dizem terem deixado o filme “por causa de diferenças criativas e, mais importante, diferenças filosofais. Há muito talento na Pixar, (…) mas trata-se também de uma cultura em que mulheres e pessoas não-brancas não têm uma voz criativa igualitária”. Brenda Chapman, que idealizou o projeto que viria a tornar-se Valente — e que teria sido a primeira diretora do estúdio —, deixou a Pixar declarando que “a atmosfera e a liderança não combinavam” com ela.

E esses são apenas os casos que mais chamaram a atenção da mídia, seja pela fama dos acusados ou pela extensão do abuso sexual infligido por eles. O The New York Times compilou uma lista onde você pode ler em mais detalhes sobre as dezenas de homens da indústria cinematográfica e do entretenimento cujas vítimas também contaram suas histórias.

O que nos leva à pergunta…

Por que tantas vítimas decidiram falar agora?

Denunciar um abuso sexual é algo extremamente complexo e que envolve muitos conflitos internos antes, durante e depois das declarações. Primeiramente, as vítimas temem a possibilidade — muito recorrente — de que não acreditem nelas, mesmo que a porcentagem de falsas acusações de abuso sexual e de estupro sejam mínimas.

Para complicar ainda mais, é muito difícil provar essas alegações — elas acontecem em ambientes privados, quase sempre apenas entre abusador e vítima, e eles sabem muito bem como se proteger de olhares indesejados. Há, ainda, o fato de que a maioria das acusações que vimos até agora seriam impossíveis de serem provadas, pois não envolvem atos, mas toques ou palavras invasivas. Isso não diminui o impacto e a gravidade da situação, é claro, mas torna-as mais complicadas judicialmente falando.

Mas se Hollywood parece estar colocando o lixo para fora, é porque há força nos números. Depois que as primeiras vítimas de Harvey Weinstein vieram à tona, outras decidiram contar seus traumas para fortalecer as histórias anteriores e, assim, realçar o perigo que ele representa para as mulheres da indústria. Elas passaram a se afastar desses homens e a recusar projetos em que eles tivessem envolvidos, limitando assim suas chances de trabalho — muitas estavam iniciando a carreira quando foram abusadas.

As vítimas de Louis C.K. falaram sobre o isolamento que sentiram dentro da comunidade de comediantes e, então, muitas delas pararam de trabalhar com aquilo que mais amavam. Mulheres em uma indústria dominada por homens — e não estou falando apenas em termos percentuais, mas do poder imensamente maior que eles possuem em relação a elas — sentem-se isoladas, impotentes. Quando outras dividem suas histórias, as demais compreendem que não, não estão sozinhas.

Afinal, é claro, Weinstein não é o pioneiro do assédio sexual na indústria cinematográfica. Em 1977, aos 43 anos, o cineasta Roman Polanski foi condenado pelo estupro de Samantha Jane Gailey, então com 13 anos. Ao longo das próximas décadas, ele voltou a ser condenado e chegou a ser preso, o que o levou a evitar os diversos países europeus que o extraditariam de volta aos Estados Unidos, onde ele seria preso pelo crime cometido em 77. Ele passa (e passou) a maior parte de seu tempo na França, seu país-natal. O diretor continua trabalhando ativamente e, no último Festival de Cannes, participou com o longa Based on a True Story — estrelado por Eva Green, uma das atrizes que se pronunciou contra Weinstein.

Cinema sem Y Louis

Desde a década de 60, Bill Cosby vêm sofrendo acusações de assédio, abuso sexual e estupro, mas foi apenas em outubro de 2014 que elas começaram a carregar mais peso. Foi naquele mês que uma apresentação do comediante Hannibal Buress mencionando as alegações tornou-se viral — em seguida, dezenas de mulheres mostraram suporte às declarações de Buress e reforçaram as acusações ao contarem suas histórias com Cosby, em incidentes que ocorreram entre 1965 e 2008.

Enquanto isso, em 1999, o ator e diretor Nate Parker e seu colega de quarto Jean McGianni Celestin foram acusados pelo estupro de outra estudante. Ela declarou que os dois a haviam estuprado enquanto ela estava intoxicada e inconsciente, e que ela não tinha certeza se outras pessoas também estavam envolvidas no ocorrido. Celestin foi condenado, mas Parker não. Até que, em 2016, O Nascimento de uma Nação, dirigido por Parker, começou a fazer barulho nos festivais pelos quais passou, assim como chances de que o filme aparecesse no Oscar pareciam viáveis. O longa conta a história do escravo Nat Turner, que liderou uma rebelião em Virgínia no ano de 1831. O caso envolvendo Parker e Celestin, que recebeu um crédito pela história do filme, ressurgiu — especialmente pelo fato de que, baseado em fatos, O Nascimento de uma Nação incluiu uma violenta cena de estupro que nunca aconteceu na vida real.

Uma das atrizes do elenco, Gabrielle Union, foi ela mesma uma vítima de estupro. Ao comentar o caso, ela diz algo fundamental para compreender a cultura machista que cerca não apenas a indústria cinematográfica, mas a nossa sociedade como um todo, e que dá espaço para que esses e outros crimes aconteçam:

“Naquela noite, (…) Nate tinha o consentimento da garota? É bastante possível que ele tenha achado que sim. Entretanto, por sua própria admissão, ele não teve uma afirmação verbal; mesmo que ela não tenha dito ‘não’, o silêncio certamente não equivale a um ‘sim’. Mesmo que seja frequentemente difícil ler e compreender linguagem corporal, o fato é que alguns indivíduos interpretam a ausência de um ‘não’ como um ‘sim’, o que é, no melhor dos casos, problemático e, no pior, criminoso.”

John Lasseter talvez não tivesse noção do quanto seus toques e comentários inapropriados incomodavam seus alvos. Louis C.K. diz que somente agora compreendeu que seu poder no mundo da comédia e a admiração que as vítimas sentiam por ele foram uma forma de coagi-las, ainda que elas jamais tenham expressado ou declarado qualquer desejo pelos atos cometidos. A verdade é que um número enorme de homens não entendem consentimento, autonomia sobre o próprio corpo, abuso de poder, respeito ao espaço alheio, entre outras coisas, o que os leva a cometer tais abusos sem pensar muito sobre isso depois, ou sem jamais perceber que fizeram algo errado — e não apenas contra mulheres, é claro; homens também são vítimas de abuso sexual, ainda que em escala consideravelmente menor.

Outros casos de destaque nos últimos anos, antes de Weinstein, foram os dos atores Casey Affleck e Johnny Depp. Affleck foi processado por duas ex-colegas de trabalho, pela produtora Amanda White, e pela diretora de fotografia Magdalena Gorka que trabalharam com ele em Eu Ainda Estou Aqui, em 2010. Elas descreveram “insinuações sexuais indesejadas”, incluindo comentários inapropriados e toques agressivos. O ator alegou que as acusações eram falsas e, em 2016, declarou que “não há nada que (ele) possa fazer” em relação às críticas que recebeu durante sua campanha para o Oscar de Melhor Ator deste ano pelo filme Manchester à Beira-Mar — ele levou a estatueta para casa.

Depois de pouco mais de um ano de casados, Amber Heard solicitou o divórcio de Johnny Depp, além de uma ordem de restrição contra ele, dizendo que, “ao longo do casamento, Johnny foi verbal e fisicamente abusivo.” Como evidência contra a última instância de violência, Depp providenciou duas testemunhas e fotos de seu rosto ferido. O caso acabou com o divórcio e com um acordo de 7 milhões de dólares em favor de Heard — valor que ela doou integralmente para a caridade.

Mesmo sendo um dos poucos casos com provas concretas, Heard também não conseguiu conquistar a confiança da justiça ou do público. Depp continua trabalhando ativamente, e seu próximo trabalho será na sequência de Animais Fantásticos e Onde Habitam, escrito e produzido por J.K. Rowling — que, apesar de normalmente ser uma forte defensora dos direitos das mulheres, escolheu defender a escalação do ator.

Por que escolhemos quem vai pagar mais por seus abusos?

Assim como Depp, Casey Affleck também continua trabalhando. Se aumentarmos o leque para incluir abusadores de outros ramos, ora, o próprio presidente dos Estados Unidos declarou “agarrar mulheres pela b*****a” — algo que foi descoberto antes das eleições acontecerem.

John Lasseter se afastou da Pixar e Trambor, de “Transparent”. HBO, Netflix e FX encerraram suas respectivas parcerias com Louis C.K. e abandonaram todos os projetos envolvendo o comediante — que também deixou o papel de protagonista na sequência da animação A Vida Secreta dos Bichos e viu seu filme, I Love You Daddy, ter sua distribuição cancelada. Kevin Spacey foi demitido de House of Cards, que seguirá em frente para uma última temporada, sem ele. Nate Parker, por enquanto, não voltou a trabalhar no cinema e viu seu longa desaparecer completamente das premiações. Harvey Weinstein foi demitido da Weinstein Company, que pode acabar fechando.

Polanski continua ativo no cinema. Cosby não foi afetado pelas alegações durante anos, assim como o próprio Weinstein e Spacey — boatos sobre o hábito do ator de assediar garotos menores de idade existem há anos.

Há outro caso bastante complicado que não afetou em nada a carreira do acusado: Woody Allen e as inúmeras acusações de abuso sexual que ele recebeu de Dylan Farrow, filha adotiva de Mia Farrow, que foi sua namorada de longa data — ao longo do relacionamento, Allen adotou a garota e seu irmão Moses. Em 2014, Dylan publicou uma carta aberta no The New York Times, contando as diversas vezes em que ela se recorda ter sido abusada pelo pai adotivo. As controvérsias envolvem declarações de que a garota realmente acredita que aquilo tudo aconteceu, mas que essas falsas memórias são resultado de um ambiente familiar instável. Em 1997, Allen casou-se com Soon-Yi Previn, outra filha adotiva de Mia Farrow. Relacionamentos entre homens muito mais velhos que seus interesses românticos (personagens que, frequentemente, mal atingiram a maioridade) são recorrentes na filmografia de Woody Allen, o que torna complicado desvencilhar o artista da obra.

O diretor Victor Salva também continuou trabalhando após ser condenado à prisão, em 1988, por assediar sexualmente um ator de 12 anos com que ele trabalhou no filme Clownhouse. Mais tarde, vídeos e imagens de pornografia infantil foram encontradas na casa dele. Salva cumpriu 15 meses de uma sentença total de três anos, saindo da prisão em 1992. Em 1995, ele já estava de volta à cadeira de diretor.

A impressão é a de que, antes do “efeito Weinstein”, acusações de abuso sexual e estupro não eram levadas a sério na indústria cinematográfica. É fácil perceber um padrão nas ações dos homens mencionados aqui — que, lembre-se, são apenas alguns nomes entre tantos outros acusados, e de tantos outros cujos assédios ainda não foram revelados, e apenas dentro de uma única indústria. Esse mal atinge todas as áreas de trabalho, pois é parte intrínseca da nossa sociedade.

Acabar com o ciclo de poder incontestável que esses homens encontraram (em sua maior parte) em Hollywood é fundamental. Entretanto, eliminá-los um a um sem analisar o que os levou até ali não conquistará resultados a longo prazo. Se tantos se recuperaram, ou nem foram afetados, por alegações passadas, o que garante que, logo logo, não nos esqueceremos do mal causado com Weinstein, Spacey, C.K. etc? E o que fazer com os outros produtores, cineastas, atores e demais detentores do poder que continuam agindo às escondidas, desculpam-se apenas quando forem descobertos? E nos homens que entrarão e continuarão entrando futuramente na indústria cinematográfica?

Para nós, espectadores, fãs, consumidores do trabalho dessas pessoas, é muito mais fácil aceitar as acusações feitas contra homens que são pouco importantes para nós. O que fazer quando a marca do abuso de alguém é sentida em filmes tão queridos quanto os da Pixar, por exemplo? Weinstein está por trás de uma centena de filmes, muitos dos quais certamente estão na sua lista de preferidos.

O “momentum” criado após tantas condenações sofridas por Weinstein, foi imprescindível para que as vítimas de outros homens, como Anthony Rapp e Van Barnes, fossem levadas a sério. Houve muita discussão quanto ao fato de que o público e a indústria acreditaram mais facilmente em Rapp pelo fato de ele ser homem, o que, pessoalmente, não acredito ser verdade. Primeiramente, ele já havia contado a história, sem mencionar diretamente o nome de Spacey, em uma entrevista dada ao Advocate em 2001. Além disso, a onda que tomou conta da indústria criou uma força imensurável, que ajudou todas as subsequentes vítimas a serem levadas a sério. Outro ponto importante é o fato de que instâncias de abuso sexual contra homens gays também costumam ser desconsideradas — no lugar de “mas também, com uma roupa dessas…” ou de “quem mandou ela andar sozinha à noite?”, temos “ele sabia muito bem o que estava fazendo”, por exemplo. Há ainda a outra dezena de vítimas de Spacey, cujas alegações embasaram as de Rapp.

Mas muito também se dá pelo status que cada abusador conquistou ao longo das décadas. Polanski e Allen são nomes conhecidíssimos no mundo do cinema, autores de trabalhos importantes e de algumas obras magníficas. Como desmerecer completamente os responsáveis por trabalhos como Chinatown e O Bebê de Rosemary, ou Match Point e Annie Hall? Se os acusados cumprem as penas designadas pela justiça ou são inocentados, cabe a nós continuar julgando-os?

Cinema sem Y Polanski

O problema é que, com exceção de Allen, que agiu dentro de sua própria família, todos os nomes citados aqui utilizaram o poder conquistado por seu trabalho para fazer suas vítimas — eles assediaram colegas e subordinadas, ou mulheres convidadas para encontros de negócios. Mantê-los na indústria é permitir que eles continuem tendo acesso a novas vítimas.

O conflito atinge até mesmo a indústria. Lena Dunham, criadora da série Girls, declarou com todas as letras que seu amigo Murray Miller, um dos roteiristas do seriado, era inocente da acusação que ele recebeu da atriz Aurora Perrineau, que diz ter sido estuprada por Miller quando ela ainda era menor de idade. Dunham, que em agosto deste ano tweetou que “mulheres não mentem sobre estupro”, disse que Perrineau estava fazendo justamente isso. Em declaração ao The Hollywood Reporter, ela e sua co-produtora, Jenni Konner, afirmam que, ao longo da “mais de meia década” em que elas trabalharam com Miller, ele se revelou alguém incapaz de cometer tal ato. Ora, é claro que Dunham e Konner não teriam presenciado em primeira mão qualquer abuso; elas eram as chefes de Miller, e não alguém em posição de subordinação, como uma atriz novata e menor de idade diante de um roteirista experiente e mais velho. Além disso, é absurdamente ingênuo acreditar que abusadores trazem o adjetivo escancarado na testa — um dos motivos que os permitem fazer tantas vítimas é o fato de que eles sabem muito bem demonstrar serem charmosos, confiáveis e inofensivos quando assim o desejam.

Meu filme/seriado preferido tem o envolvimento de um abusador. E agora?

Ultimamente, a decisão é sua. É você quem vai decidir onde o limite chega e quais obras realizadas por ou com o envolvimento de alguém acusado de abuso sexual devem ficar de fora da sua vida e quais, apesar de tudo, continuarão sendo assistidas. Afinal, o cinema é uma arte coletiva, e um filme é resultado do trabalho, da dedicação, da visão e da paixão de centenas ou milhares de pessoas.

Em alguns casos, como no de Woody Allen, é mais difícil desvincular as acusações do trabalho, pela influência que as alegações demonstram ter na tela. Por outro lado, consumir essas obras não quer dizer que não reconheçamos a gravidade das ações desses homens — o que a maioria de nós faz. A resposta à pergunta que fiz ali em cima, portanto, é muito particular. E será que devemos nos sentir culpados por isso? Talvez não. Afinal, Weinstein e companhia ainda estão muito frescos em nossa memória, mas Godard e Hitchcock são exemplos de homens babacas e abusivos que continuam sendo merecidamente reconhecidos por sua genialidade na sétima arte.

Cinema sem Y Allen

Por que mulheres tão envolvidas com os direitos das mulheres na indústria, como Cate Blanchett, Kate Winslet, Emma Stone e Scarlett Johansson, não veem problemas em trabalhar com Woody Allen? Ellen Page revelou o arrependimento que ela sente por ter atuado em um dos filmes dele. Por que Eva Green, vítima de Weinstein, aceitou trabalhar com Polanski? Por que J.K. Rowling preferiu defender Johnny Depp do que assumir sua parcela de culpa na contratação dele? Por outro lado, não podemos colocar toda a responsabilidade nas mulheres, que já têm opções limitadas em relação a seus colegas do sexo masculino. É necessário que cada homem repense suas atitudes, analise se já cometeu algum ato que pode ser considerado abuso ou assédio e, além disso, que não acoberte os homens que o fizerem.

Mas há outro ponto fundamental: a arte das vítimas e os trabalhos que elas deixaram de realizar, seja por causa de ataques sofridos pessoalmente por elas, da tentativa de evitar possíveis abusadores ou da misoginia de uma forma mais geral, representada pelos gatekeepers da indústria que, em sua maioria, são homens — e, portanto, mais propensos a aceitar outros homens em seu “clube”. O abuso afeta não apenas o presente, mas também o futuro, pois rompe inúmeras possibilidades nas vidas das vítimas.

Não conhecemos pessoalmente nenhum dos acusados e, assim, nos conectados a eles por meio de seu trabalho. Se eles nos atingem de uma forma especial e marcante, se nos identificamos com as histórias e os personagens criados por alguém, então, estendemos essa admiração e carinho para o artista. Vê-lo acusado de abuso sexual também rompe esse relacionamento — os atos condenáveis cometidos por Louis C.K. não podem ser desvencilhados do seriado Louie, altamente autobiográfico e autodepreciativo. Cada um de nós passa a ter uma nova visão das obras de um artista quando descobrimos o que há por trás delas. Os crimes dos criadores tornam-se desvencilháveis de seu trabalho, o que não significa que ele deva ser descartado.

E isso causa um certo desdém por nós mesmos, não é? Será que, ao deixar de lado os crimes cometidos por alguém enquanto assistimos a um filme ou episódio de seriado, tornamo-nos nós mesmos criaturas condenáveis? Será que isso significa que não ligamos para as vítimas, ou que o sofrimento delas torna-se aceitável se é em favor de nosso entretenimento? Por que, quando um novo nome surge na lista de acusados, ficamos torcendo para que nosso diretor ou ator favorito não seja o próximo, pois isso significaria lidar com sentimentos que preferimos manter longe?

Encontrei um certo consolo no texto imperdível que Claire Dederer publicou no The Paris Review, intitulado “O Que Fazer Com a Arte de Homens Monstruosos?”. Ela não tem a resposta, nem eu, e nem você.

E, enquanto Hollywood não decidir lidar com o problema em seu cerne, a indústria cinematográfica continuará produzindo mais obras feitas por mais homens monstruosos.

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