“O mundo escalou Scarlett. Ela é quem as pessoas querem ver neste tipo de filme.” As palavras de Rupert Sanders, diretor da nova versão de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, são sua defesa quanto às acusações de whitewashing que rondam a produção desde o anúncio de que Scarlett Johansson daria vida à protagonista da franquia, a Major Motoko Kusanagi.

Nos EUA, em seu fim de semana de estreia, A Vigilante do Amanhã arrecadou 19 milhões de dólares e terminou em terceiro lugar nas bilheterias, ficando atrás de O Poderoso Chefinho e A Bela e a Fera. A Paramount esperava arrecadar pelo menos 25 milhões de dólares.

O argumento de que atores brancos são contratados no lugar de profissionais de outras etnias devido a sua popularidade é antigo. Entretanto, é claro, isso leva a indústria a um círculo vicioso: como esses atores podem chegar ao patamar de Scarlett Johansson se jamais tem as mesmas oportunidades que ela?

Por outro lado, é curioso perceber como essa fama toda não é uma exigência da Paramount quando o assunto são obras com protagonistas masculinos e brancos (ou seja, que seriam lideradas por um homem branco de qualquer forma).  Ano passado, o estúdio não conseguiu recuperar os gastos com a superprodução Ben-Hur, protagonizado por Jack Huston, que nunca havia carregado um filme nas costas.

Além disso, toda a discussão acerca do whitewashing certamente impactou negativamente em A Vigilante do Amanhã. Não que a produção precise de muita ajuda para fracassar, pois o boca-a-boca acerca do filme tem sido bastante morno: o CinemaScore, que mede as reações da audiência, registra uma classificação B para o filme.  Nos EUA, o público sofreu uma queda de 13% de sexta-feira para sábado, indicando uma forte diminuição do interesse pela obra.

Cinema sem Y Whitewashing

Afinal, a verdade é que o público médio pouco liga para whitewashing ou para a etnia do elenco; nomes famosos chamam a atenção, mas precisam ser embasados por uma produção de qualidade. Justamente por isso, esta era a oportunidade perfeita de alavancar a carreira de uma atriz nipônica.

Entretanto, muitos defensores da decisão dos produtores de escalar uma atriz branca para viver a Major argumentam que, como ela é uma ciborgue, sua identidade pouco importa. No manga e no anime, obras japoneses, ela é japonesa; agora, na versão norte-americana, não tem problema ela ser norte-americana.

Confesso que, antes de assistir ao filme, eu concordaria com essa afirmação (mais sobre isso daqui a pouco). Vamos, então, questionar outra coisa: a Major pode não precisar ser japonesa, mas por que não pode ser? Estariam atores de outras etnias fadados a interpretar personagens históricos e/ou em situações como guerra, escravidão, abuso, etc., que retratem os sofrimentos particulares sofridos por seus povos? Não podem simplesmente existir no mundo (e nas telonas) como uma pessoa qualquer?

Defendendo sua decisão de aceitar o papel, Johansson declarou:

“É óbvio que eu não tentaria interpretar uma pessoa de outra raça. […] Eu acho que essa personagem vive uma experiência muito única, pois ela é um cérebro humano em um corpo totalmente mecânico. Ela é, essencialmente, alguém sem identidade.”

“Alguém sem identidade”, ou seja… branca, a raça padrão da humanidade de acordo com Hollywood, apta a interpretar até mesmo personagens egípcios, como Deuses do Egito demonstrou em 2016. Um ator negro, asiático, latino ou indígena não tem o privilégio de deixar sua etnia de lado para viver “alguém sem identidade”.

A Vigilante do Amanhã até se esforça para justificar o fato de sua protagonista não ser japonesa. A Tóquio futurista vista no filme é diversificada, ao contrário da atual, cuja população é majoritariamente japonesa. Assim, o elenco é formado… principalmente por atores brancos de diversos países, alguns asiáticos, e uma ou outra figura de outra etnia.

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Se fosse isso mesmo, a situação seria outra. A Disney fez o mesmo com Operação Big Hero. Além disso, outras adaptações tiraram histórias japonesas e as levaram para outros locais, agora com atores não-asiáticos: O Chamado, Água Negra, O Grito, Oldboy e Os Infiltrados são apenas alguns exemplos.

Não há problema algum em contar uma história preexistente de outra maneira e, nesse processo, alterar a etnia dos personagens. Entretanto, continua lamentável o fato de que isso quase sempre aconteça em detrimento da diversidade, pois essas novas versões dos personagens quase sempre acabam sendo brancos.

Mas o que realmente torna a escalação de Johansson indiscutivelmente problemática encontra-se em uma reviravolta no roteiro de Jamie Moss, William Wheeler e Ehren Kruger. Para discuti-la, fique atento: os parágrafos a seguir contém spoilers.

A Vigilante do Amanhã inicia com uma jovem mulher à beira da morte chegando a um hospital. Seu corpo, seu tamanho e até mesmo a cor/corte de seu cabelo são parecidíssimos com os de Scarlett Johansson neste filme. Assim, depois de vermos a construção do corpo ciborgue da Major, entendemos que este foi construído à semelhança do corpo biológico da protagonista — que, é claro, troca o Motoko Kusanagi do original pelo ocidentalizado Mira Killian. A reviravolta chega no terceiro ato: Motoko é a identidade original de Mira, que recebeu um novo visual e um novo passado quando tornou-se uma máquina da Hanka.

Dessa maneira, Sanders e seus roteiristas efetivamente transformam o whitewashing em plot point, substituindo uma japonesa cujo rosto jamais vemos por uma mulher branca que, agora sim, terá sua história contada. Isso até que poderia elevar a discussão sobre perda de identidade e de passado, mas A Vigilante do Amanhã é tão filosoficamente raso que isso jamais acontece. “Não somos definidos por nossas memórias, mas por nossas ações.” Além de não fazer sentido algum — nossas ações presentes são certamente bastante influenciadas por tudo o que vivenciamos, ou seja, nossas memórias, e elas mesmas tornam-se memórias —, a filosofia repetida diversas vezes ao longo do filme parece ignorar o próprio arco dramático da Major, que encontra paz ao recuperar seu passado perdido.

O que temos, portanto, é um exemplo particularmente ofensivo de whitewashing. A ideia é que Motoko precisava de um novo visual para não ser reconhecida. Por que não criar um rosto japonês diferente para ela, então? Se a intenção era remover totalmente sua identidade, um corpo negro ou latino também funcionaria, não? Mas, na verdade, talvez a Hanka não estivesse assim tão preocupada em alterar a aparência da protagonista, já que, como mencionado, Mira tem o mesmo tamanho, tipo físico e até mesmo corte de cabelo de Motoko.

Cinema sem Y Whitewashing

Em busca de seu verdadeiro passado, a Major encontra sua mãe, interpretada pela veterana atriz japonesa Kaori Momoi. Para discutir tudo isso, o Hollywood Reporter chamou quatro atrizes japonesas, e recomendo a leitura da conversa entre elas após assistirem ao filme para ver o problema através dos olhos de quem o sente na pele.

Em 2015, a caucasiana Emma Stone interpretou uma personagem de descendência asiática e havaiana em Sob o Mesmo Céu, de Cameron Crowe. Em 2010, o fracasso O Último Mestre do Ar, adaptação de um desenho animado norte-americano dominado por personagens asiáticos, escalou atores brancos como protagonistas, deixando os vilões nas mãos dos asiáticos. Isso para ficar apenas em dois proeminentes exemplos recentes, pois como nosso editor Vinicius Carlos Vieira apontou em seu artigo sobre whitewashing, a prática é quase tão velha quanto a própria Hollywood.

E cada obra que comete esse equívoco rende debate, mas dificilmente muda alguma coisa. Às vezes, porém, os responsáveis escutam e aprendem a lição. Quando Tilda Swinton foi anunciada como a Anciã de Doutor Estranho, muitos reclamaram da decisão de colocar uma atriz branca para viver um personagem originalmente asiático (e bastante estereotípico). Sim, trocar o gênero da figura foi uma decisão baseada na vontade de incluir mais mulheres na trama, mas isso poderia ter sido alcançado com uma atriz asiática.

O diretor Scott Derrickson, entretanto, ouviu o outro lado e percebeu que, por mais que suas intenções fossem nobres, o whitewashing ainda é problemático. Segundo ele, os cineastas consideraram contratar uma atriz asiática, mas isso manteria o personagem como um clichê. Então, ele optou por contratar Tilda Swinton e, para balancear, deu mais complexidade ao personagem Wong, interpretado por Benedict Wong, britânico com descendência honconguesa.

Derrickson declarou:

“A diversidade é de responsabilidade dos diretores, e eu levei isso o mais sério que pude. Whitewashing, se você usar o termo da forma com que ele é usado agora, foi o que eu fiz com o personagem. Entretanto, isso também implica uma insensibilidade racial e motivações racistas que eu não acredito ter tido. Eu estava realmente fazendo o que eu achava que fosse a melhor escolha possível. Mas é como se eu tivesse escolhido o menor dos males, e só porque você escolhe o menor dos males, não significa que você não está escolhendo um mal.”

Ao contrário de Sanders e Johansson, Derrickson também compreende as motivações de seus críticos:

“Eu não acho que eles estejam errados. Eu estou ciente dos problemas raciais envolvidos. Mas eu não entendia o nível de dor para as pessoas que cresceram com os mesmos filmes que eu, mas que nunca se viam retratados neles. Eu acho que as vozes raivosas são necessárias. Mesmo que isso tenha implicações negativas contra meu filme, eu não posso dizer que não as apoio. De que outra forma isso vai mudar? Esse é o caminho que temos que percorrer rumo ao progresso, e qualquer que seja o preço que eu tenha que pagar pela decisão que tomei, eu estou disposto a pagá-lo.”

Na indústria cinematográfica norte-americana, são os homens cis, brancos e héteros quem mandam. Nós mulheres ainda temos um longo caminho pela frente, mas isso não significa que toda produção estrelada por uma mulher branca, como é o caso de A Vigilante do Amanhã, seja merecedora de aplausos. A questão também não é o talento dos atores envolvidos. Tilda Swinton está impecável como a Anciã.

Voltando para o filme foco desta coluna, Scarlett Johansson, uma atriz que eu adoro e que considero muito talentosa, definitivamente se esforça para viver a Major: seus movimentos são duros, como se ela não estivesse muito acostumada a seu corpo mecânico, e suas emoções aparecem de maneira controlada. Além disso, o design de produção do longa merece aplausos, mesmo que traga à vida um universo que jamais consegue estabelecer suas discussões filosóficas acerca de identidade, consciência, humanidade e memória.

Colocar Scarlett Johansson para estrelar a adaptação hollywoodiana de um manga é a decisão fácil. Para conquistarmos mudanças duradouras e significativas, precisamos de ousadia e criatividade; precisamos enxergar além de nossos próprios privilégios e pensar fora da caixinha. Infelizmente, A Vigilante do Amanhã não faz isso nem em termos de elenco nem na maneira imatura com que aborda suas temáticas.

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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