Mais do que nunca, a cultura do estupro é uma pauta discutida a fundo. Aqui no Brasil, a notícia de uma garota vítima de um estupro coletivo no Rio de Janeiro foi recebida com uma taxa pesada de culpabilização da vítima e justificativas estapafúrdias. Enquanto isso, nos Estados Unidos, o homem que estuprou uma estudante no campus da Universidade de Stanford em janeiro de 2015 foi condenado a apenas seis meses de prisão. Uma sentença mais pesada teria um “impacto severo” no homem, referido pela mídia principalmente por seu status de ex-nadador promissor.

Fica clara a influência da mídia na perpetuação da cultura do estupro da sociedade. Mas e a ficção, como fica? Falando especificamente sobre o cinema, o estupro de mulheres é usado com uma frequência assustadora como motivador para a vingança masculina — e, também, como justificativa para a crueldade de vilãs e anti-heroínas. Da mesma forma, mulheres são frequentemente colocadas em situações ameaçadoras, prestes a serem estupradas, para catalisar a capacidade do homem de resgatá-la.

O estupro é uma das mais terríveis formas de violência, pois é uma violação não apenas do corpo, mas da mente e do controle da mulher. É o ápice da desumanização feminina, pois o estuprador a vê como objeto, não como ser humano. Assim, recorrer ao estupro como artifício banal da trama — e, pior ainda, com foco nas reações que o acontecimento causa em um homem, e não na vítima — tem sua parcela de culpa no que diz respeito à perpetuação da cultura do estupro e do silenciamento da mulher. Promovendo seu filme Jogo do Dinheiro em Cannes, a diretora e atriz Jodie Foster discutiu a forma com que diretores homens usam o estupro dessa forma:

Uma das coisas que mais me incomoda como atriz sempre foi que, quando um escritor homem procura motivação para uma mulher, ele sempre escolhe o estupro. Por que será que ela está chorando? Ah, ela foi estuprada. Por que ela está tendo problemas com a mãe? Bem, é porque ela foi estuprada. É ridículo, em todos os filmes em que vi isso. Quando você aborda a motivação principal de uma mulher, no final, você sempre descobre que foi estupro. Por alguma razão, os homens veem isso como essa coisa incrivelmente dramática. ‘É fácil, eu posso pegar isso do nada e aplicar a ela.’ Eles não estão interessados em identificar-se de forma complexa com uma personagem feminina, são incapazes de colocar-se no corpo dela.”

Cinema sem Y Mad Max

Isso não tem, necessariamente, intenções malignas ou misóginas. Mais comumente, é simplesmente… falta de imaginação. Comodismo. Propagação do status quo. A indústria do cinema ainda é um espaço em que as mulheres têm que lutar muito para ser reconhecidas e, assim, é fácil encontrar produtoras e sets formados majoritariamente (ou, até mesmo, totalmente) por homens. Então, se esses homens não têm a iniciativa de falar sobre mulheres de um jeito diferente, de buscar deixar a ideia masculina do gênero de lado, o resultado são situações como a discutida por Foster.

Um dos filmes mais elogiados e comentados de 2015 foi Mad Max: Estrada da Fúria. E um dos motivos para isso (em meio a tantos outros) foi justamente a forma como ele retratou a situação abusiva e violenta vivida por suas — muitas — personagens femininas. Sem mostrar uma única cena de estupro, o diretor George Miller colocou a luta e a esperança daquelas mulheres no centro da narrativa.

Feminista declarado, o cineasta reconhece o fato de que, por ser homem, não enxerga aquela situação da mesma forma que uma mulher. E, isso, claro, não o impede de discutir isso em sua obra. A solução? Para retratar as consequências do abuso sofrido pelas personagens das esposas e da violência sofrida (e causada) por Furiosa (Charlize Theron), ele levou a ativista feminista Eve Ensler para visitar o set do filme na Namíbia, onde ela ofereceu um workshop às cinco atrizes centrais para que elas conhecessem a realidade de mulheres que passaram por situações de violência extrema, especialmente em zonas de guerra. O feminismo natural de Estrada da Fúria foi discutido a fundo na coluna dedicada a ele.

Mais recentemente, A Garota do Livro não causou muito alarde, mas merece ser mencionado aqui para ilustrar a importância de termos mulheres discutindo o estupro no cinema. O filme tem problemas, mas é admirável na forma com que retrata o peso do abuso sexual sofrido pela protagonista na adolescência e o quanto isso afeta sua vida adulta — sem, contudo, ignorar seu próprio comportamento problemático. Minha crítica do filme fala mais sobre isso.

Cinem sem Y Lady Gaga

Reconhecendo a importância do cinema como agente de transformação, a cineasta Meg Rickards dirigiu o drama Tess, que acompanha uma prostituta da Cidade do Cabo que engravida após um estupro. Para Rickards, o filme é relevante por “expressar uma recusa em manter o abuso em segredo ou levar a culpa”. Por isso, ela tomou um cuidado especial ao filmar a cena de estupro da obra ainda inédita, garantindo que o espectador permaneça o tempo todo com a protagonista.

O problema não é, portanto, retratar um estupro ou trazer uma personagem que foi estuprada. Mas essa situação deve ser, sempre, sobre a mulher. Não podemos usá-lo como recurso para mover o arco dramático do personagem masculino, ou como um despertar da força na mulher. É preciso reconhecer todas as consequências de um acontecimento abusivo, e lidar com isso de forma complexa.

Um dos momentos mais emocionantes do Oscar deste ano foi justamente um que deu espaço a dezenas de vítimas de estupro: durante a apresentação da música “Till It Happens To You”, Lady GaGa levou ao palco jovens que sofreram abuso sexual na faculdade, tema do documentário The Hunting Ground, para o qual a canção foi gravada.

Devemos reconhecer e fazer proveito do poder de transformação do cinema. Este é um espaço para deixarmos de lado as convenções arcaicas da sociedade e levarmos a discussão a um outro patamar. O cinema retrata nossa realidade, é claro, mas precisamos de um olhar crítico — e, até mesmo, mais evoluído. Através do cinema, podemos criticar, questionar, revolucionar. É um espaço importante demais para ser desperdiçado com as limitações e preconceitos dos quais ainda não conseguimos nos livrar.

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4 Respostas

  1. Mariana

    Muito obrigada, Monica! E é verdade. Sobre isso, recomendo muito o filme O Silêncio de Melinda, sobre uma adolescente que é estuprada e, em consequência disso, se entrega a uma mudez seletiva. O filme fala sobre como ela lida com o que aconteceu, encontra sua voz para denunciar o estuprador e aprende a se reconectar com as pessoas. Abraços!

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  2. Monica

    Adorei o texto. Me faz pensar também nas friancas que sofrem abuso. Elas têm menos voz ainda….

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  3. Mariana González

    Exatamente. Qualquer assunto pode ser retratado no cinema, mas respeitando sua devida complexidade e sensibilidade. E deixar de focar situações traumáticas como o estupro na vítima é basicamente a pior forma de tratar disso.

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  4. pirs

    “e, pior ainda, com foco nas reações que o acontecimento causa em um homem, e não na vítima”

    Isso é o que mais me irrita. I can’t even.

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