por Mariana González
29 de janeiro de 2018

Estamos chegando à reta final da temporada de premiações e, como todo cinéfilo que se preze, nós do CinemAqui vamos falar muito do nosso assunto preferido dessa época: o Oscar. Os indicados foram revelados na manhã da última terça-feira, 23 de janeiro, e vão dominar nossas discussões enquanto contamos os dias para a cerimônia de entrega dos prêmios, que vai acontecer na noite de 04 de março.

Mas como aqui é o Cinema Sem Y, minha coluna especial sobre o Oscar vai focar nas mulheres que vão marcar presença no Dolby Theater. Além, é claro, de abordar algumas outras curiosidades e estatísticas sobre a inclusão encontrada entre os indicados — que, desde a reestruturação pela qual os membros da Academia vêm passando há alguns anos e a movimentos como o #OscarsSoWhite, tem apresentado melhoras.

Melhor Filme

Entre os indicados a melhor filme, algo que me chamou bastante a atenção foi que quatro entre os nove longas contemplados são protagonizados por mulheres. Normalmente, a categoria é dominada por obras comandadas por personagens masculinos, já que, muitas vezes, a diversidade de vozes, estilos e talentos apresentados em filmes centrados em mulheres são ignoradas a favor de histórias sobre homens, mesmo que de qualidade ou originalidade inferior.

O que também não é o caso aqui — ainda não assisti a todos os indicados, pois muitos ainda vão estrear nos cinemas brasileiros, mas Corra!, Dunkirk e Me Chame Pelo Seu Nome são obras memoráveis e que merecem todas as indicações que receberam. Além disso, é claro, não podemos colocar todos os \”filmes protagonizados por homens\” em um único balaio; é importantíssimo celebrarmos também o reconhecimento de um filme centrado nas experiências de um homem negro (Corra!) e de um jovem garoto que envolve-se com outro homem (Me Chame Pelo Seu Nome, que não é apenas sobre isso, mas trata-se de uma distinção importante diante do histórico da Academia com filmes sobre personagens/temas LGBT — não, a vitória de Moonlight no ano passado não consertou tudo magicamente).

Voltando aos indicados protagonizados por mulheres, encontramos também uma bela amplitude de temas e personagens. Em A Forma da Água, temos uma protagonista que é muda (ainda que a atriz que a interpreta, Sally Hawkins, não seja) em uma história sobre a humanidade de monstros e a monstruosidade dos seres humanos, com toda a sensibilidade e beleza típicos de Guillermo del Toro. Enquanto isso, Lady Bird, escrito e dirigido por Greta Gerwig, faz barulho por seu retrato sincero de um relacionamento entre mãe e filha, e é importante darmos o devido valor a essas histórias quando elas são contadas por mulheres que querem compartilhar suas próprias experiências.

The Post acompanha Katharine Graham, a primeira mulher a assumir o comando de um grande jornal nos Estados Unidos, em um período particularmente turbulento da história do Washington Post — enquanto Kay navega por uma indústria majoritariamente masculina, Steven Spielberg ainda discute a importância e o poder da liberdade de imprensa. Fechando esse quarteto, temos Três Anúncios para um Crime, que retrata a busca de uma mãe por justiça no caso de sua filha, que foi estuprada e assassinada — crime sobre o qual a polícia não parece estar tomando atitude alguma.

A Forma da Água pode ser um romance, mas, além de não envolver necessariamente um homem (a criatura pela qual a personagem de Sally Hawkins se apaixona é uma espécie de humanoide aquático), a história pertence a ela. O mesmo vale para Lady Bird, um filme sobre mulheres e os relacionamentos entre elas; em The Post, o personagem de Tom Hanks tem grande importância, mas Kay possui o protagonismo da história.

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Não assisti a Três Anúncios para um Crime, então, não posso falar sobre como os arcos dramáticos dos personagens masculinos se intercalam com o da protagonista vivida por Frances McDormand, mas, assim como as demais, ela também é uma mulher que não é definida de acordo com a visão de um personagem masculino; sua missão é apenas dela.

Melhor Direção

  • Christopher Nolan, Dunkirk
  • Greta Gerwig, Lady Bird: É Hora de Voar
  • Guillermo del Toro, A Forma da Água
  • Jordan Peele, Corra!
  • Paul Thomas Anderson, Trama Fantasma

Este ano, a lista de indicados a melhor direção é, para mim, a melhor entre as categorias do Oscar — para melhorar, só se houvesse como incluir uma sexta vaga para Luca Guadagnino. De cara, nos deparamos com uma seleção diversifica de nomes, cada qual sendo laureado por trabalhos admiráveis. Chegando à 90ª edição do Oscar, temos a quinta mulher indicada na categoria e, também, do quinto homem negro (mulheres negras permanecem não sendo reconhecidas como diretoras, como bem podem dizer Ava DuVernay e Dee Rees, para ficar em dois exemplos recentes). Enquanto isso, o latino Guillermo del Toro conquistou sua primeira indicação a melhor diretor; Christopher Nolan também aparece pela primeira vez, e Paul Thomas Anderson, pela segunda.

As nomeações para Gerwig e Peele merecem particular destaque. Filmes dirigidos por mulheres, muitas vezes, chegam às premiações aparecendo em diversas categorias principais… menos melhor direção. Foi o caso, por exemplo, de Inverno da Alma, indicado a melhor filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante. Muitas vezes, nem isso — o aclamado Selma, de DuVernay, apareceu entre os indicados a melhor filme e a melhor canção; ou seja, foi considerado um dos melhores filmes do ano, mas sem indicações para todos os quesitos que levaram a esse resultado final, muito menos para a direção cuidadosa de cineasta.

É claro que talento e qualidade não são os únicos quesitos avaliados no Oscar, nem entre os indicados e nem entre os vencedores dos prêmios. Nolan, um homem branco, também nunca havia sido contemplado — e foi preciso que ele fugisse do cinema de gênero para finalmente ser indicado a melhor diretor. Sem o sucesso estrondoso de público e crítica conquistado por Corra!, a obra, um terror psicológico, dificilmente teria aparecido com tanta força nas principais categorias do Oscar. Isso pode ser também consequência das já mencionadas mudanças estruturais entre os votantes da Academia, grupo que, hoje, possui uma quantidade consideravelmente mais jovem e diversificada do que há alguns anos.

Ainda assim, é sintomática a exclusão de Dee Rees, escritora e roteirista de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, dessa categoria. O fato de seu filme ter sido lançado pela Netflix poderia ser considerado um detrator, já que a indústria ainda não sabe lidar muito bem com serviços de streaming. Entretanto, ao longo de toda a temporada de premiações, Mudbound apareceu em diversas categorias — e, no Oscar, está concorrendo a atriz coadjuvante, roteiro adaptado, canção original e fotografia (mais sobre isso adiante!). Entretanto, a mulher negra no comando de tudo isso não recebeu o mesmo destaque.

Caso Gerwig vença, ela será apenas a segunda mulher a levar o Oscar de melhor direção — em 2008, Kathryn Bigelow foi a primeira a conquistar tal feito, mas, desde então, nenhuma outra mulher foi sequer indicada. Já Peele pode tornar-se o primeiro negro da história (isso mesmo, o primeiro negro, em nove décadas de premiações) a sair com essa estatueta. Ele também é a terceira pessoa a ter seu primeiro filme indicado a melhor filme, direção e roteiro. Vale destacar, aliás, que os cinco diretores também escreveram os roteiros de seus filmes — no caso de del Toro, em parceria com a roteirista Vanessa Taylor.

Melhor Atriz

  • Frances McDormand, Três Anúncios para um Crime
  • Margot Robbie, Eu, Tonya
  • Meryl Streep, The Post: A Guerra Secreta
  • Sally Hawkins, A Forma da Água
  • Saoirse Ronan, Lady Bird: É Hora de Voar

No ano passado, a única atriz indicada a esse prêmio por seu trabalho em um filme concorrendo ao prêmio máximo da noite era Emma Stone, estrela de La La Land. Isso é bastaste comum entre as indicadas a melhor atriz — lembra do que eu falei antes sobre filmes centrados em homens serem mais prestigiados e contemplados nas premiações? Esse ano, entretanto, o cenário é bem diferente.

Margot Robbie, personagem-título de Eu, Tonya, é a única indicada cujo longa não aparece na lista de melhor filme. Isso aconteceu apenas duas vezes desde 1977 — já para os homens, foram 4 vezes nos últimos 5 anos. Além disso, merece destaque que McDormand, Streep, Hawkins e Ronan são as protagonistas definitivas de seus respectivos filmes, e não apenas as personagens femininas mais relevantes em uma história protagonizada por um homem.

Aliás, isso é tão comum nas categorias femininas de atuação que esta é a primeira vez em que Meryl Streep é indicada por seu trabalho em um candidato a melhor filme desde 1985, quando ela foi indicada a melhor atriz (e perdeu) por Entre Dois Amores, que acabou levando a estatueta principal. Essas estatísticas não mostram apenas que o trabalho magnífico das atrizes muitas vezes não recebe a devida atenção (e, frequentemente, ficam à sombra de atuações medianas de seus colegas homens), mas, também, a escassez de papeis femininos complexos, desafiadores, icônicos. Afinal, trata-se de um ciclo vicioso: o Oscar e as demais premiações têm seus próprios problemas, mas também são um espelho de um contexto maior, da indústria.

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Streep, por sinal, acaba de receber sua 21ª indicação ao Oscar. A presença da atriz é tão constante na temporada de premiações que muitos brincam que há uma vaga reservada para ela na lista de atrizes indicadas. Entretanto, chega a ser uma pena que grande parte do público tenha um sentimento de saturação em relação a isso, já que The Post representa um dos melhores trabalhos de Streep — e, consequentemente, uma de suas indicações mais merecidas — em décadas.

E em meio aos movimentos Time\’s Up e #metoo e as importantíssimas discussões sobre assédio sexual e abuso na indústria, ainda não sabemos quem entregará o troféu de melhor atriz à vencedora deste ano. Isso porque Casey Affleck, que levou a estatueta de melhor ator ano passado por Manchester à Beira-Mar, retirou-se da função de apresentador da categoria — o costume é que o ator contemplado no ano anterior entregue para a atriz da vez, e vice-versa. Apesar de não ter emitido nenhuma declaração sobre o assunto, o entendimento é que a motivação sejam as polêmicas envolvendo os abusos cometidos por Affleck durante as filmagens de Eu Ainda Estou Aqui, lançado em 2010.

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Allison Janney, Eu, Tonya
  • Laurie Metcalf, Lady Bird: É Hora de Voar
  • Lesley Manville, Trama Fantasma
  • Mary J. Blige, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi
  • Octavia Spencer, A Forma da Água

Entre as indicadas a melhor atriz coadjuvante, o que chama a atenção é o fato das personagens de três delas, Janney, Metcalf e Spencer, terem relacionamentos mais importantes com outras personagens femininas: Janney e Metcalf vivem as mães das protagonistas de, respectivamente, Eu, Tonya e Lady Bird; já Spencer interpreta a melhor amiga da personagem de Sally Hawkins em A Forma da Água. Isso representa uma celebração das relações entre mulheres e de personagens femininas que não são enxergadas por meio do olhar dos homens com quem interage.

Em Mudbound, Mary J. Blige interpreta a matriarca da família Jackson — e, como o filme ainda não chegou ao Brasil (o filme foi distribuído pela Netflix, mas, ao contrário do que normalmente acontece, não foi disponibilizado ao mesmo tempo em todos os países em que o serviço está disponível), não posso discorrer sobre seu papel, mas não parece ser a típica figura da \”esposa\”. Aliás, a indicação de Blige por si só é histórica, pois ela é a primeira pessoa da história a ser indicada por sua atuação e também na categoria de melhor canção original no mesmo ano.

Enquanto isso, Lesley Manville é a irmã do personagem de Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma — que também ainda está para estrear por aqui, mas Cyril é descrita como alguém que tem uma influência significativa sobre o irmão, além de gerenciar os negócios do designer.

Nas demais categorias, é bom dar rápido olhada sobre a presença feminina nas outras categorias do Oscar:

Melhor roteiro (original e adaptado)

Dee Rees é a segunda mulher a ser nomeada nas categorias de roteiro — ela escreveu o roteiro adaptado de Mudbound ao lado de Virgil Williams, a partir do livro homônimo de Hillary Jordan. Greta Gerwig também foi indicada por seu roteiro original de Lady Bird.

Enquanto isso, o ótimo Doentes de Amor teve aqui sua única indicação ao Oscar — o casal Emily V. Gordon e Kumail Nanjiani, cuja história inspirou muito do longa, escreveram o roteiro juntos. Consequentemente, as versões cinematográficas de Kumail e Emily têm uma importância equilibrada no filme. Ele é o protagonista, mas Emily não some da trama durante sua doença — sua presença permanece e move as atitudes dos demais personagens, inclusive no que diz respeito à relação de Kumail com os pais dela. Em muitas comédias românticas, a namorada é reduzida a isso — a namorada do protagonista, uma personagem que não tem razão de existir ou arco dramático a percorrer sem ele. Doentes de Amor mantém-se bem longe disso, mesmo com Emily em coma induzido durante a maior parte da projeção.

Melhor fotografia

Na categoria que contempla a melhor fotografia do ano, temos um marco importantíssimo: Rachel Morrison tornou-se a primeira diretora de fotografia a ter seu trabalho reconhecido pelo Oscar — que, não se esqueça, terá este ano sua nonagésima edição. O próximo trabalho de Morrison também deve elevar seu status na indústria: ela fotografou Pantera Negra, de Ryan Coogler, com quem já havia trabalho em Fruitvale Station: A Última Parada, de 2013.

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Melhor animação

Aqui, temos The Breadwinner, dirigido pela cineasta Nora Twomey, enquanto O Touro Ferdinando rendeu uma indicação para o brasileiro Carlos Saldanha. Além disso, é claro, há o sublime Viva — A Vida é uma Festa, uma bela celebração da cultura mexicana (e latina como um todo), dirigida por Lee Unkrich e pelo latino-americano Adrian Molina.

E O Poderoso Chefinho não foi feito por e não fala sobre mulheres, mas eu só queria deixar registrado aqui que esse filme é divertidíssimo e que eu estou adorando ver os \”completistas\” do Oscar se rendendo ao fato de que terão que assisti-lo.

Melhor documentário

Por Visages, Villages, a renomada Agnès Varda é a única diretora a aparecer na categoria de melhor documentário em longa-metragem. Mas o que mais chama a atenção em sua nomeação é o fato de que ela é a pessoa mais velha a receber uma indicação ao Oscar na história da premiação: Varda tem 89 anos.

Não podemos deixar de destacar também a indicação recebida por Yance Ford, que é transexual. Seu documentário Strong Island fez dele o primeiro diretor transgênero indicado a um Oscar. No documentário, já disponível na Netflix, o diretor conta a história do assassinato de seu irmão, ocorrido na década de 90.

Melhor filme estrangeiro

Na categoria de melhor filme estrangeiro, minha torcida está toda com o chileno Uma Mulher Fantástica, uma obra magistral que acompanha o processo de luto de uma mulher após a morte súbita de seu namorado.

A protagonista, Marina, e a atriz que dá vida a ela, Daniela Vega, são transexuais (ao contrário do recentemente premiado Clube de Compras Dallas, por exemplo, que escolheu o ator cis Jared Leto para viver uma mulher trans). Isso está longe de definir Marina, que é uma mulher forte, impulsiva e com uma personalidade divertida, mas sua transexualidade cria um grande conflito com a família de seu amado. Um exemplo perfeito da importância de vermos histórias contadas sob uma diferente perspectiva da qual estamos acostumados e de como é possível reconhecer a condição de minoria de um personagem sem fazer com que todo o seu arco dramático seja sobre isso.

A presença feminina na categoria também acontece por meio da cineasta húngara Ildikó Enyedi, cujo filme On Body and Soul foi um dos cinco indicados.

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