Cinema Sem Y | A importância da diversidade no mundo da crítica


Já falei muito nesta coluna e nas críticas que publico aqui sobre a importância da inclusão na frente e atrás das câmeras. Mas e entre quem escreve sobre cinema, como é a situação? No início de junho, um estudo da USC Annenberg Inclusion Initiative mostrou que, assim como acontece entre cineastas e atores, o mundo da crítica de cinema é majoritariamente branco e masculino.

Analisando os textos replicados no Rotten Tomatoes sobre os 100 filmes de maior bilheteria de 2017 — ou seja, os de maior alcance —, a USC descobriu que 77,8% deles foram escritos por homens e 82% por pessoas brancas. Enquanto isso, as críticas escritas por homens brancos somaram 63,9% dos textos analisados, sendo que 18,1% foram de mulheres brancas, 13,8% de homens pertencentes a minorias raciais e apenas 4,1% de mulheres não-brancas.

É claro que críticos de qualquer gênero, etnia, nacionalidade etc. podem (e devem) analisar filmes contados sobre quaisquer pontos de vista. O mesmo, afinal, acontece na própria arte. Entretanto, o mesmo princípio vale aqui: é sempre muito importante ouvirmos o que as pessoas afetadas por alguma questão ou que experimentam o que é retratado no cinema têm a dizer. Você não precisa ter nascido em Miami e ser negro, pobre e gay para identificar-se e apaixonar-se por Moonlight: Sob a Luz do Luar, mas quem conseguir enxergar um pedaço de sua própria história na obra tem uma visão diferente sobre ela e, por isso, vai escrever uma crítica que acrescenta uma nova camada ao longa. Não é à toa que um dos meus textos preferidos sobre o filme de Barry Jenkins é o que Angelica Bastién — escritora negra e nascida em uma família pobre de Miami — publicou no Cléo Journal.

Já antenado às recentes discussões sobre a importância da diversidade na crítica, o site Remezcla deu espaço para que escritores latinos falassem sobre Sicario: Dia do Soldado, ambientado majoritariamente na fronteira entre Estados Unidos e México. O Rotten Tomatoes mostra uma recepção cautelosamente positiva para o filme, sequência do longa de 2015 dirigido por Dennis Villeneuve. Em meio a um contexto político particularmente complicado e perigoso para imigrantes e refugiados latinos nos Estados Unidos, várias das críticas abordam, ainda que apenas de passagem, a representação latina em Sicario, mas as vozes latino-americanas, escritores que são afetados e cujas famílias são afetadas por tudo isso, mostram-se mais incisivas, aprofundadas e diferenciadas.

Moonlight Filme

E isso é fundamental para que a crítica de cinema cumpra seu papel de dissecar o cinema e oferecer comentários especializados e bem embasados sobre uma obra (não, o objetivo da crítica não é dizer se você deve ou não assistir determinado filme). Não apenas agora, mas daqui a anos, as discussões levantadas por um grupo diversificado de críticos dirá para as plateias do futuro o quanto cada produção estava inserida no contexto social e político de sua época. A crítica torna-se uma extensão do filme e, quanto mais variado for o quadro de pessoas que escrevem sobre uma obra, mais interessante, produtiva e rica será a discussão sobre ele. Além disso, é claro, há uma questão muito mais prática em jogo: não são apenas homens brancos que querem ser ou que são críticos e essas outras pessoas precisam de espaço.

Durante uma premiação ocorrida alguns dias depois da publicação do estudo da USC, a atriz Brie Larson destacou o tema e mencionou o fato de que os festivais de Sundance e de Toronto se comprometeram a distribuir 20% de seus passes de imprensa para escritores pertencentes a minorias, buscando melhor refletir o povo que forma a América do Norte. Larson enfatizou que críticas são capazes de mudar vidas e de impactar consideravelmente o grupo de filmes que são levados em consideração na temporada de premiações da indústria.

Além de uma forte campanha de marketing, Corra!, por exemplo, certamente foi bastante beneficiado pelas críticas imensamente positivas que alavancaram a obra rumo ao Oscar, onde filmes de terror não costumam ter chances muito boas. E essa recepção tão positiva nasceu principalmente dos críticos negros que se encantaram pela forma complexa e absurdamente original com que o diretor e roteirista Jordan Peele falou sobre o que significa ser negro nos Estados Unidos. A atriz Jessica Chastain também já havia discutido essa questão, destacando que a presença de mulheres na crítica é importante para “permitirmos que mulheres e homens saibam que histórias sobre mulheres são tão interessantes quanto histórias sobre homens”.

Recentemente, Uma Dobra no Tempo, dirigido por Ava DuVernay e estrelado por Storm Reid, foi massacrado pela crítica. Ele é um exemplo perfeito de como a inclusão na crítica afeta uma produção. O filme tem seus defeitos — vários —, mas uma de suas maiores forças encontra-se justamente no arco dramático percorrido pela protagonista, uma jovem garota negra lidando com a perda e com a adolescência. Mesmo reconhecendo os problemas do longa, as críticas mulheres (incluindo esta que vos fala) e especialmente as negras admiraram e discutiram o filme sobre esse viés, que, para a maioria dos escritores (que são, lembre-se, homens e brancos), não chegou nem perto de tornar a produção valiosa. A inclusão na crítica não tem a ver com uma aceitação mais positiva para obras que são feitas e/ou falam sobre mulheres e minorias, mas é importante destacar o quanto esses filmes são frequentemente rejeitados enquanto produções ainda mais medíocres protagonistas/feitas por homens brancos encontram seu espaço.

Uma Dobra no Tempo Filme

Mas a inclusão não é necessária para que filmes sobre mulheres e minorias possam ser celebrados. Repito: a diversidade na área da crítica de cinema não tem a ver com esses escritores gostando ou não de filmes que falam sobre suas próprias experiências. O papel de divulgar um longa-metragem e convencer as pessoas a assisti-los cabe ao departamento de marketing dos estúdios e produtores; críticos baseiam-se em uma obra de arte (o filme) para criar outra obra de arte (um texto, vídeo, podcast, ensaio, livro…). Não importa quem o tenha feito ou sobre quem sejam, filmes são para todo mundo e o mesmo vale para as críticas escritas sobre esses filmes.

A questão é que, assim como em qualquer outra área e especialmente na arte, a presença de pessoas de diferentes gêneros, raças, sexualidades etc. é fundamental para que possamos conviver com diferentes pontos de vista e experiências de vida. O cinema discute todo o espectro da condição humana e a crítica de cinema discute isso — mas como falar da condição humana se apenas um tipo de pessoa tem voz?

O público leitor também tem um papel importante a cumprir para trazer mais diversidade para a crítica de cinema. Leia, busque e compartilhe o trabalho de escritores negros, gays, trans, deficientes físicos e, é claro, do gênero feminino. Quando assistir a um filme que represente uma minoria, procure o que pessoas desse grupo têm a dizer. Você vai expandir sua mente, aprofundar-se na sua própria experiência e mergulhar ainda mais fundo nos filmes de que você gosta. Para começar, fique com esta lista criada pela crítica Valerie Vza Complex e que celebra as mulheres não-brancas que escrevem sobre cinema.

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